Postado por Adriano Quadrado em 11 de Março de 2010 às 14:02
A piaba que Avatar tomou da ex-mulher foi mote mais uma vez para a crítica de uma nota só que se faz sobre o filme. Na terça, dois textos na Ilustrada sentaram a lenha no filme de James Cameron, seguem trechos.
"[Avatar] foi um sucesso até maior que o esperado, recebeu uma penca de indicações e uma pecha de filme 'sério', quando é só um besteirol 'new age', que só vale pelos efeitos" - André Barcinski.
"Não nego que Avatar fascina os incréus com a utilização engenhosa do 3D. Mas a questão passa por saber se o 3D resiste à vulgaridade da história. Não creio." - João Pereira Coutinho.
A crítica de uma nota só é esta e é a mesma: o 3D é bão, a história é babaca, boboca, pueril, previsível, ingênua, por aí vai. Minha tese é bem outra, porém.
A história de Avatar é o embate entre o espírito e o ego do homem, usando a estrutura narrativa da boa e velha jornada do herói, que vem sendo contada desde os tempos arcaicos. A estrutura é muito parecida, por exemplo, com o primeiro filme da saga Guerra nas Estrelas. Senão, vejamos.
1) O herói é colocado na jornada pelo destino/acaso: a morte dos tios de Luke Skywalker, a morte do irmão do protagonista de Avatar, Jake Sully.
2) Ele entra no território fantástico onde a aventura de dará: o espaço sideral para Luke, Pandora para Jake.
3) O herói conhece seu mentor e é treinado por ele: Obi-Wan Kenobi para Luke, Neytiri para Jake.
4) Torna-se o maior dos guerreiros, capaz de fazer o que ninguém mais seria capaz: Luke faz ressurgir a linhagem dos cavaleiros Jedi e derrota o aparentemente invencível Vader, Jake faz ressurgir a linhagem dos Toruk-Macto (cavaleiro da última sombra, este sendo o dragão alado e feroz que só os antepassados mitológicos podiam montar) e reúne o povo Na'vi contra os invasores.
5) Por fim o herói enfrenta seu maior desafio e sai transformado de sua batalha com a morte, voltando para seu povo como o salvador, o restaurador da ordem ameaçada: Luke explode a Estrela da Morte, Jake lidera a coalisão de seres de Pandora na vitória contra a máquina militar do mal.
Enfim, a história é a mesma, só que Guerra nas Estrelas é tido como um filme ótimo e Avatar, um filme boboca e retardado. Agora, veja, o primeiro é do já vetustíssimo ano do Senhor de 1977 e o segundo é 33 anos mais velho, agora de 2010, nesta alta pós-modernidade galhofeira, era em que nenhuma bandeira mais pode ser erguida sem que joguem ovo ou cocô em que se atrever.
Nestes tempos em que vivemos só se pode ser cínico, blasé, só se pode fazer piada. Contar uma história "com mensagem" é proibido. Não há mais mensagem, não há mais ideologia, não há mais nada em que se acreditar. Qualquer tentativa nesse sentido será vista como brega ou ingênua.
A década de 1970 já se dava na era chamada de pós-moderna, mas esta ainda era muito menos radical do que hoje. Naquela época o mundo ainda apresentava alguma ordem, o muro de Berlim ainda não havia caído, as pessoas ainda tinham seus ideais. Hoje só têm sonhos de consumo.
Quando Guerra nas Estrelas foi lançado você ainda podia contar essa história sobre a luta da porção espiritual, intuitiva, transpessoal do homem contra sua porção egoísta, bélica, materialista. É disso que o filme de 1977 trata, assim como o de 2010.
Em Guerra nas Estrelas, Luke desliga o computador e confia que a Força o guiará contra a máquina militar do Império. Em Avatar, Jake confia que Eiwa (o espírito de Pandora) o guiará contra a máquina militar do império americano. Em Matrix, para citar outro filme, o herói Neo em sua jornada confia que o Oráculo o guiará contra a máquina que dominou a raça humana. O mesmo Neo que também é colocado na jornada pelo destino, recebe treinamento de um mentor (Morpheus), supera a todos, se torna o escolhido e lidera os últimos humanos despertos contra a Matrix.
Ao contrário do que opina João Pereira Coutinho em seu texto, Avatar não fala do homem ocidental contra as culturas primitivas e indígenas, como se estivéssemos expiando a culpa de ter massacrado índios na conquista da América. Não é essa a história do filme, me desculpe.
Não se trata de uma luta de civilizações, mas uma fábula sobre o embate que ocorre no interior do homem, entre seu ego e seu espírito. Enfim, a mesma que está lá em Guerra nas Estrelas, e ambas costuradas ao longo da mesmíssima saga do herói. O problema é que Avatar foi feito numa era cínica e descrente.
Na verdade, Avatar só não é tão bom quanto Guerra nas Estrelas — e aí vem a bomba — justamente por causa da tecnologia. É muito difícil ter verdadeira empatia por um palhacinho azulado de píxel que ainda exige uns óculos escuros sobre meus óculos de míope para que eu o enxergue numa imagem artificialmente entortada para provocar uma alucinação em três dimensões. Muito mais fácil ter empatia pela interpretação de um Alec Guinness em suas roupas monásticas de Jedi.
Ao contrário do que todo mundo disse, a história de Avatar é boa, ruim é o 3D. E ficou fácil de entender como a tecnologia pode matar a graça de um filme quando, 22 anos depois, George Lucas retomou a saga e fez A Ameação Fantasma (1999), o episódio I de Guerra nas Estrelas, perdendo a mão justamente nas longas sequências feitas exclusivamente no computador. Também por causa do excesso de tecnologia (e aqueles atores meio com cara de bunda contracenando com telas azuis de Chroma Key), o episódio I da saga é muito inferior ao filme de 1977.
Antes de terminar, lanço aqui ainda a suspeita de que se Paulo Coelho tivesse publicado seus livros, digamos, na década de 1930, ele seria hoje considerado um escritor importante e não o analfabeto vil que a crítica pós-moderna vê nele. No mais, O Alquimista é um bom livro, e pode xingar à vontade aí nos comentários. Tchau.
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Postado por Adriano Quadrado em 13 de Fevereiro de 2010 às 20:40
Ah, o carnaval. Certas crenças são mesmo incríveis, entre elas a de que o carnaval é algo divertido. Quase tão louca quanto o criacionismo, a "teoria" que diz que os bichos fizeram plim e apareceram todos emplumados, peludos e pintosos neste vale de lágrimas há 10 mil anos se tanto. Todos fazendo plim ao mesmo tempo: dinossauro, lebiste, quero-quero, peixe-boi, gusano, Adão e Eva. Ok, não vou digressionar demais nem perder meu tempo com essas bobagens, apenas indico "O maior espetáculo da terra", do Richard Dawkins e tá bom. Na dedicatória a um amigo criacionista, citaria as escrituras: "Conhecereis a verdade e ela vos libertará".
Mas, sim, o carnaval. Aquela coisa de ficar bêbado, suado, viajar pra algum pico roubada, ouvir compulsoriamente samba durante quatro dias, acordar de ressaca, comer miojo, tomar choque ao encostar no trio elétrico, ficar com missanga grudada nas partes, enfim, aquele horror. Ou então o programa mais deprimente de todos depois de uma certa idade: não fazer nada e ver o desfile das escolas na tevê na madrugada, tendo que aturar aquele samba-enredo falando sobre os assírios.
Já disse isso, mas vá lá. Não entendo a mania das escolas de samba em falar de história. Por que história? Por que não física, por exemplo? Algo como: "a energia (ô a energia!) // é igual a multiplicação (samba, povão!) // da massa e do quadrado da velocidade da luz (que nos conduz!)". E no destaque do carro alegórico caras do naipe do Stephen Hawking ou do Richard Dawkins mesmo, só pra dar uma variada.
Ou então que nos instruíssem sobre literatura comparada, etnopsiquiatria, supercondutores ou mesmo tabuada, vá lá. Mas não, mas nunca. Tem que ser sempre sobre os malas dos assírios, cuja capital era Nínive e aí quebra as pernas do compositor na hora de encontrar a rima.
Só que isso tudo é só mais uma enorme digressão sem esperança de leitores. Eu só queria dizer mesmo que o carnaval é mala de doer e que o brasil ainda há de perceber isso como na história do rei que está nu (literalmente, no caso, o bêbado "destaque" real sobre o carro alegórico).
Claro, claro, há toda a promessa de farra sexual e aí eu entendo, aprovo e invejo. Bato palma e peço bis. Mas, veja, isso aí raramente se confirma e, no mais das vezes, só se consegue mesmo o choque no trio elétrico, a purpurina melada de suor, o apito do lança-perfume no ouvido, o uísque ruim e a ressaca de missanga grudada nas partes. O brasil ainda me ouvirá, você verá.
NOTA DO EDITOR: O autor do post acima foi visto no domingo de carnaval seguindo o bloco "Os Alegrões", no Centro de Ribeirão, de cueca na cabeça, bêbado e cantando marchinhas como "Na casa do senhor não existe satanás", o que revela a fraude que ele é, sujeito sem fibra e consistência, que não vale o rango que come.
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Postado por Adriano Quadrado em 13 de Janeiro de 2010 às 02:16
Fazer blogue é sina pra coitados porque blogue é coisa que ninguém lê. Quando batuco as mal digitadas sei que escrevo pra niguém. Ok, exagero. Tem sempre uma meia dúzia que lê. Digo isso pelos comentários nos meus posts. Quando rolam dois comentários, as lágrimas nos afogam de felicidade.
Mas vou lá no post de estreia do meu colega de site. Não conheço Gabriel Pereira, fui lá conhecê-lo. Eis que encontro, senhores e senhores, 26 comentários no primeiro post dele — agora são 2h04 da madrugada de quarta. Leio os posts e me convenço sem susto de que o Gabriel é o cara mais conhecido de Ribeirão, região e toda a grande Las Vegas. Quiçá de todo o costado andino latino-americano. Calcutá e arredores com certeza. E me pergunto: por que não arriscar uma patrocínio?
Ô, Gabriel, me passa pra tua lista, pô.

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Postado por Adriano Quadrado em 05 de Janeiro de 2010 às 19:24
Quando conheci o álbum mais famoso dos Beatles, o Sgt. Pepper's, estava na faculdade, no começo dos 1990. Nem era meu predileto, mas naquela época o escutei muito, em looping. Gostava de todas as músicas, menos uma. Sempre pulava a faixa 8 do meu CD (primeira do lado B do vinil de 1967). Não gostava de Within You Without You, a música indiana e —então, para mim esquisita— de George Harrison. Ia direto para When I'm Sixty-Four.
Pois bem, o tempo passa, a gente muda e, anos mais tarde, Within You Without You se tornou minha preferida daquele álbum histórico. Daí em diante, pus o CD várias vezes só para escutá-la e compensar pelas ocasiões em que ela foi pulada. A música é fruto do interesse de Harrison pelo hinduísmo, primeiro com Maharishi, depois via movimento Hare Krishna.
Um dia, lembro de ter feito uma tradução da letra, que imprimi e dei de presente para minha irmã. Ela manteve espetada na parede do quarto por um tempo. Não tenho mais aquele texto, mas segue aí uma nova tentativa de tradução da música, que pode ser escutada aqui —inclusive com legendas da letra em inglês e fotos dos Beatles na Índia e de Harrison com Ravi Shankar.
Dentro e fora de você
Falávamos do espaço entre nós
E daqueles que se escondem
Atrás de uma parede de ilusão
Nunca vislumbram a verdade
E quando a morte chega
Já é tarde demais
Falávamos do amor
Que poderíamos compartilhar
Quando o encontrássemos
Tentar de tudo para
Mantê-lo conosco
Com nosso amor
Ah, com nosso amor
Poderíamos salvar o mundo
Se eles soubessem...
Tente perceber
Tudo está em você
Ninguém mais o fará mudar
E tente ver o quão
Verdadeiramente
Minúsculo você é
E que a vida flui dentro
E fora de você
Falávamos desse amor
Que tão frio se tornou
Falávamos daqueles
Que ganham o mundo
E perdem a alma
Eles não sabem
Eles não veem
Você é um deles?
Quando puder ver além de si
Talvez então descubra
Que a paz da mente lá o espera
Tempo virá e você verá
Que todos somos um
E que a vida flui dentro
E fora de você

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Postado por Adriano Quadrado em 04 de Janeiro de 2010 às 00:19
A tarde da véspera do ano novo é surreal. Um congestionamento monstro nas estreitas ruas da pequena vila praiana. Carros enormes como tanques de guerra, de dezenas de milhares de reais e muitíssimos quilos, pretos, com vidros escuros fechados, ar ligado, ventoinha girando, todos parados zumbindo numa fila que não se move sob o sol do aquecimento global. Quem passa ao lado, a pé e sem pressa, vence fácil a breve distância, mas os tanques de guerra de muitos cavalos só podem zumbir impotentes, sujando o ar da praia.
A noite do último dia chega e nada parece indicar que aquele seja um bom jeito de se terminar o ano. Mas há a "mega da virada", senhoras e senhores. Lá vai o peludo de sunga e lata de alumínio na mão, vermelho de sol e cervejas várias, grunhindo de excitação porque é hora do sorteio na tevê. Trancado na alucinação da mente, que o mantém separado da unidade da vida, o peludo acha que a loteria o salvará de seu inferno. A natural satisfação interior foi abafada pelo barulho incessante da mente símia e agora só lhe resta a esperança idiota de que coisas externas possam tapar o buraco que ficou. De preferência muitas coisas, que só milhões podem comprar. O diabo é que na mega só há uma chance em 50 milhões e obviamente o macaco não leva a bolada. O ano escoa em suas últimas horas como correu em todos os seus dias, em pesada angústia.
Mas sorriamos, aproxima-se a meia-noite. O peludo joga um pano branco sobre sua carne quente, com os olhos trincados depois de tanto beber. Fogos intermináveis assustando todo o ser que não os macacos humanos, cuja festa tem o mesmo som da guerra. Só que a chuva vem cedo e a horda que tomou como peste a praia agora se apressa em deixar a areia. As mesmas vielas antes tomadas pelos tanques de guerra agora são invadidas pelo exército em retirada de símios apressados, vermelhos e de branco. O álcool fez bem seu serviço e desligou o córtex. Deixou o primata à mercê da porção reptiliana do seu cérebro, que já é curiosamente ativa nessa espécie peluda. Ele está mais violento e mais inconsciente do que de costume. As muitas ruelas que saem da praia para a vila fluem em rios de macacos bêbados e perigosos, soltando mais bombas ensurdecedoras em becos e urrando para céu.
Uma volta pela praia revela o cenário de devastação. Montanhas de lixo deixadas pelos peludos na areia: cascos fedidos de morteiros, pedaços de roupa, velas, embalagens de comida, flores esmagadas e montes de garrafas, copos plásticos e latas de alumínio. Sobre os escombros, muitos ainda resistem, ouvindo altíssimas as músicas com letras cretinas, ainda berrando, ainda vermelhos, sempre reptilianos-primatas, macacos-lagartos. Mentes equivocadas e dancinhas infames sobre a praia suja. O som da consciência trazido pelo movimento gentil do mar é massacrado pelo popozão.
Na volta ao bangalô praiano, o peludo vermelho de branco, todo macaquito-serpente-calango-bugio, liga a tevê com a enésima latinha na mão. Na tela, a velha notícia da tragédia, desta vez na tempestade da mudança climática. Muitos mortos, o ano novo será tão trágico, sem sentido e angustiante como todos os outros. Muitos e muitos mortos: calamidade. Haverá assunto para se encher páginas e grades televisivas, que bom. Muitos mortos e o babuíno acha que não se assombra: antes eles do que eu, sopra-lhe o ego insano em sua alucinação de separação.
De fundo, aquele constante zumbido que o macaco, se prestasse atenção, pensaria ser dos fogos ou da cerveja, mas são do ranger das placas tectônicas de angústia que se movem dentro dele, a enorme massa de insatisfação e negatividade mal escondidas pela celebração barulhenta da virada, pela promessa canalha de felicidade da propaganda que passa agora na tevê, logo depois do show dos mortos. E são muitos os mortos, que bom, haverá assunto de sobra para ocupar os buracos entre as propagandas. Afinal, a mente que se pensa separada da unidade terá de consumir muito no ano novo para tentar silenciar o zumbido incômodo de sua desgraça autocriada. Muitas compras de coisas inúteis, muitas embalagens tóxicas e muita cerveja, minha gente, para fazer deste um brasil grande.
Inconsciente e equivocado, o macaco capota fedido e rubro sobre o beliche para acordar de ressaca no ano novo. A tempestade-resposta da terra contra o exército barulhento de peludos alucinados inunda o primeiro dia do ano. É assim o dia inteiro, galões de litros de água jorrando do céu. No planeta dos macacos —que ironia— falta água. A vila praiana está com as torneiras secas depois do assalto da horda. Não houve reservatório que chegasse para o consumo pornográfico dos gorilas. O dilúvio despencando do céu e o macaco sem água para escoar seus dejetos de ressaca boiando fedorentos no vaso.
O peludo urra para o céu porque a vida é cruel: aaaaahhhrrrgggunóffgruurrhr. Ressacado, sem banho, aviltado por seus próprios excrementos, errando feio os números da "mega da virada", o bugio-lagartixa-suricato-gibão-mangusto vai mais cedo para casa, pegar oito horas de congestionamento preso em seu tanque de guerra de duas toneladas. Mas há a cerveja, há o shopping, ufa! Ele quase se convence de que abafará as placas rangendo de angústia dentro de si quando pensa que ainda pode fazer compras e tomar um pifão no domingo. Pobre bichinho.

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