Postado por Adriano Quadrado em 30 de Julho de 2009 às 14:42
- Então você quer me dizer que eu não existo?
- Mais ou menos isso. Na verdade, não há nada que prove que você realmente exista.
- Eu penso.
- Ah, não me venha com Descartes! Descartes é um mito, é que nem saci, que nem curupira.
- Cala a boca!
- Juro. Talvez você e o mala do Descartes sejam apenas o sonho de uma lontra. Quem garante?
- Pelo menos eu existo enquanto sonho.
- E se a lontra não se lembrar do sonho depois que acordar? Você sonha várias vezes todas as noites e só de vez em quando se lembra. Onde foram parar seus sonhos, eles existem de fato, chegaram a existir?
- Bem, segundo sua teoria, tanto faz. É só o sonho do sonho de uma lontra, aliás, o sonho do sonho que a lontra sequer lembrou.
- Isso, um nada! Você não é nada, nem existe se marcar. É que nem um personagem de ficção. Como se eu inventasse qualquer coisa agora... como se eu dissesse "o cachorrinho Antrax estava muito a fim de desonerar os intestinos, mas, quando chegou perto do poste, pisou numa mina terrestre da Segunda Guerra e explodiu multicor". Tipo isso.
- Que loucura é essa?
- Tanto faz o que é. O cachorrinho Antrax não existe. É só um sonho de ficção dentro da cabeça de sonho do sonho da lontra, entendeu?
- Então a gente é um personagem de ficção? Um cachorrinho Antrax?
- É!
- Como se a gente fosse só a invenção de uma lontra?!
- É. Ou o texto de alguém.
- Como assim?
- Assim mesmo. Você já pensou na hipótese de que a gente é só um texto? Ouve, presta atenção. De repente a gente escuta o barulhinho de alguém teclando, inventando a nossa história.
- Pára com isso, dá até medo de pensar!
- Haha. O medo de mentirinha do personagem de ficção do escritor que só existe no sonho esquecido de uma lontra qualquer dentro do universo que nunca houve...
- Ah, vá à merda, cara! O que você anda tomando?!
* Um dos contos reunidos num livro meu, chamado Os Nomes e nunca publicado. O livro foi vencedor da categoria ficção do Projeto Nascente, da USP, em 2004.
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Postado por Adriano Quadrado em 28 de Julho de 2009 às 12:08
Mui lindas as cousas: pizza de sorvete, esfiha de catupiry, feijoada de proteína de soja, caviar de sagu, macarrão de arroz. Niqui pregunto aos cross chefs se eles não encarariam testar minhas sugestões: estrogonhoque, baião de dois queijos e, sobretudo, o incomparável temaki de pizza de chocolate branco de soja orgânica transgênica - um paradoxo em si mesmo, tal qual o xis tudo.
Agora, o que não entendo é a obediência dos verdes à tradição carnívora: hambúrguer de soja, frango de soja etc. Se é de soja, pô, por que não tiranossauro de soja, mangusto de soja, ornitorrinco de soja? Povo mais sem criatividade...
No mais, não consigo escrever posts sobre rangos sem lembrar que x-frango em Santos (SP) se chama "x-goleiro". E que, em Cananéia (SP), há um boteco que vende, atenção, o "x-misto", sanduba que - apesar do anglófono querer achar que é uma fatia de ham para duas de cheese (a do "xis" e a do "misto") - é composto na verdade de hambúrguer (xis), mais presunto e queijo (misto). Muita criatividade desse povo!

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Postado por Adriano Quadrado em 23 de Julho de 2009 às 19:53
O futebol, claro. O futebol é a coisa mais superestimada do mundo.
Não que não seja legal, veja bem. É bacana. Não dá para negar que pode ser divertido curtir uma copa do mundo, uma final de campeonato. Assim como é divertido, digamos, assistir à maratona de Nova York.
Mas por que tanto tempo, teoria e tinta gasta com futebol? Tem gente que se mata por causa do futebol, meu deus.
Tudo em relação a ele é superestimado. Por exemplo, a importância dada à experiência do jogo ao vivo, no estádio. Tratam a coisa como se fosse sublime, sagrada, falam em deuses da bola, catarse das massas.
Mas ir ao estádio para mim, na meia dúzia de vezes em que o fiz, sempre foi algo entre angustiante e deprimente, aquele monte de homem falando palavrão sem parar, mijando em copos de plástico, arrumando briga.
Não vou mais a estádios, dificilmente vejo um jogo inteiro na TV e não ligo mais para o time que meu avô me ensinou a gostar. Se ele perde ou ganha, não faz diferença alguma na minha vida.
Mas, veja, insisto, até gosto quando o time do meu avô ganha. Sou capaz de curtir um jogo de vez em quando, tive e ainda tenho admiração por alguns craques.
Não é que o futebol seja ruim. À distância e sem peludos gritando palavrão entre perdigotos, dá pra ser feliz com ele. E definitivamente é muito divertido jogá-lo. Ele só é assim... superestimado. É isso.
A segunda coisa mais superestimada do mundo é o sexo. Mas sobre isso eu falo outra hora.
ps - e não é q o time do meu vô umberto deu um chocolate no clássico... ;-)
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Postado por Adriano Quadrado em 21 de Julho de 2009 às 18:28
Outro dia vi matéria na TV sobre os intocáveis indianos. Mostrava em tom de crítica como os meninos sem casta não podiam ir à escola, coisas do gênero. De fato, a história é triste e vale a crítica. Duas observações a fazer, porém.
Primeira é que, no sistema de crenças dos hindus, existem a reencarnação, o karma e o dharma.
Eles acreditam que as ações (karma) da pessoa na vida anterior determinam as condições do nascimento da atual vida. Daí a pessoa nascer sacerdote, comerciante ou sem casta, podendo perfeitamente mudar de status em encarnações subsequentes.
Acreditam também que cada pessoa tem sua função e seu caminho na vida (dharma). E que cada um está certo a seu modo, em seu devido lugar, desempenhando o trabalho que lhe cabe, seja ele lavrador, guerreiro ou limpador de latrinas.
A filosofia está muito bem colocada no ótimo livro chamado Bhagavad Gita, o equivalente hindu ao novo testamento cristão. O texto é, da mesma forma, o relato dos ensinamentos de uma encarnação divina. Só que, em vez de Cristo, Krishna.
Isto posto, é claro, a teoria na prática é outra. Na Índia, os arianos, ao conquistar outros povos, colocavam o pessoal na canga para fazer o que ninguém queria fazer, como limpar latrina ou trabalhar de açougueiro.
Os dominados ficavam fora do sistema hindu-ariano e, portanto, não tinham casta. A ignorância, o preconceito e a superstição acabaram por tornar os sem casta e seus descendentes em intocáveis, verdadeiras aves do mau agouro.
A segunda e óbvia observação a se fazer é que ignorância, preconceito e superstição infelizmente são trecos muito democráticos e afligem a todos os povos, inclusive aos brasileiros.
Sempre levo meu filho para brincar no parque Luiz Carlos Raya, no Jardim Botânico. É o playground da burguesia que mora ali perto. No parque, só há gente branca e rica, crianças bem nutridas e bem vestidas, com brinquedos vários e caros.
Ali os dalits não entram. Ou melhor, entram, e novamente para fazer o serviço que ninguém quer fazer: limpar os banheiros, alimentar os patos, fazer a segurança.
Entram também como as babás acanhadas, vestidas de branco, que largam o filho em casa para cuidar dos bebês da burguesia. Cuidam dos bebês, mas não beijam as crianças. Beijo de dalit nem pensar. É sujo ou dá azar.

Dalits em Jaipur, India. Foto: Thomas Schoch/GFDL
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Postado por Adriano Quadrado em 20 de Julho de 2009 às 18:07
Um amigo nerd certa vez encomendou de um fulano nos EUA fita VHS sobre a teoria do "moon hoax", a de que o pouso na lua, 40 anos exatos atrás, foi uma farsa.
O que o mundo viu emocionado seria apenas um curta-metragem dirigido por Stanley Kubrick e encomendado pela Nasa. O governo americano não tinha tecnologia para tanto e não queria perder a corrida pros russos. Daí chamou o diretor de 2001, Uma Odisseia no Espaço.
O documentário do fulano, no estilo repórter-abelha, era tosco e, até por isso, heroico. A fita trazia um monte de suspostas e intrincadas infos sobre a picaratagem da Nasa.
Não lembro de mais nada. O que me lembro muito bem, porém, foi da entrevista que o cara fez com Buzz Aldrin, o segundo cara a pôr o pé na lua (ou no set no Kubrick, que seja).
O autor do documentário perguntava à queima-roupa, com a câmera no ombro pondo, o mic na boca do astrounauta:
- Onde você estava no dia 20 de julho de 1969?
Buzz, megaconstrangido, olhando para o chão, com cara de moleque pilhado contando mentira, disse na maior das caras de pau:
- Na superfície na lua, uai.
(Ok, não tinha o "uai", só o "on the surface of the moon")
Era o próprio pinóquio ali e foi de fato o teco mais convincente da peça surreal. Tive a impressão de que a qualquer momento ele ia cair de joelhos e pedir perdão por ter enganado a humanidade.
No mais, teorias da conspiração são muito legais. Se os fatos as desmentem, pior para os fatos, dizia o poeta.

Buzz "on the surface of the moon"
ps - ah, sim, sobre Neil Armstrong, o primeiro na lua (verdadeira ou de mentirinha). O autor do tosco documentário não conseguiu contatá-lo. Como se diz, Neil enlouqueceu anos depois do pouso na lua e hoje não fala mais à imprensa, mal se sabe por onde ele anda. Para os teóricos da conspiração, mais uma prova do "hoax", já que o astronauta teria pirado por encenar o roteiro da farsa:
ARMSTRONG: One small step for man, one giant leap for mankind.
KUBRICK: And... cut!

Kubrick no set the filmagem de Moon Hoax, Uma Picaretagem no Espaço
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