Outro dia vi matéria na TV sobre os intocáveis indianos. Mostrava em tom de crítica como os meninos sem casta não podiam ir à escola, coisas do gênero. De fato, a história é triste e vale a crítica. Duas observações a fazer, porém.
Primeira é que, no sistema de crenças dos hindus, existem a reencarnação, o karma e o dharma.
Eles acreditam que as ações (karma) da pessoa na vida anterior determinam as condições do nascimento da atual vida. Daí a pessoa nascer sacerdote, comerciante ou sem casta, podendo perfeitamente mudar de status em encarnações subsequentes.
Acreditam também que cada pessoa tem sua função e seu caminho na vida (dharma). E que cada um está certo a seu modo, em seu devido lugar, desempenhando o trabalho que lhe cabe, seja ele lavrador, guerreiro ou limpador de latrinas.
A filosofia está muito bem colocada no ótimo livro chamado Bhagavad Gita, o equivalente hindu ao novo testamento cristão. O texto é, da mesma forma, o relato dos ensinamentos de uma encarnação divina. Só que, em vez de Cristo, Krishna.
Isto posto, é claro, a teoria na prática é outra. Na Índia, os arianos, ao conquistar outros povos, colocavam o pessoal na canga para fazer o que ninguém queria fazer, como limpar latrina ou trabalhar de açougueiro.
Os dominados ficavam fora do sistema hindu-ariano e, portanto, não tinham casta. A ignorância, o preconceito e a superstição acabaram por tornar os sem casta e seus descendentes em intocáveis, verdadeiras aves do mau agouro.
A segunda e óbvia observação a se fazer é que ignorância, preconceito e superstição infelizmente são trecos muito democráticos e afligem a todos os povos, inclusive aos brasileiros.
Sempre levo meu filho para brincar no parque Luiz Carlos Raya, no Jardim Botânico. É o playground da burguesia que mora ali perto. No parque, só há gente branca e rica, crianças bem nutridas e bem vestidas, com brinquedos vários e caros.
Ali os dalits não entram. Ou melhor, entram, e novamente para fazer o serviço que ninguém quer fazer: limpar os banheiros, alimentar os patos, fazer a segurança.
Entram também como as babás acanhadas, vestidas de branco, que largam o filho em casa para cuidar dos bebês da burguesia. Cuidam dos bebês, mas não beijam as crianças. Beijo de dalit nem pensar. É sujo ou dá azar.

Dalits em Jaipur, India. Foto: Thomas Schoch/GFDL


