- Então você quer me dizer que eu não existo?
- Mais ou menos isso. Na verdade, não há nada que prove que você realmente exista.
- Eu penso.
- Ah, não me venha com Descartes! Descartes é um mito, é que nem saci, que nem curupira.
- Cala a boca!
- Juro. Talvez você e o mala do Descartes sejam apenas o sonho de uma lontra. Quem garante?
- Pelo menos eu existo enquanto sonho.
- E se a lontra não se lembrar do sonho depois que acordar? Você sonha várias vezes todas as noites e só de vez em quando se lembra. Onde foram parar seus sonhos, eles existem de fato, chegaram a existir?
- Bem, segundo sua teoria, tanto faz. É só o sonho do sonho de uma lontra, aliás, o sonho do sonho que a lontra sequer lembrou.
- Isso, um nada! Você não é nada, nem existe se marcar. É que nem um personagem de ficção. Como se eu inventasse qualquer coisa agora... como se eu dissesse "o cachorrinho Antrax estava muito a fim de desonerar os intestinos, mas, quando chegou perto do poste, pisou numa mina terrestre da Segunda Guerra e explodiu multicor". Tipo isso.
- Que loucura é essa?
- Tanto faz o que é. O cachorrinho Antrax não existe. É só um sonho de ficção dentro da cabeça de sonho do sonho da lontra, entendeu?
- Então a gente é um personagem de ficção? Um cachorrinho Antrax?
- É!
- Como se a gente fosse só a invenção de uma lontra?!
- É. Ou o texto de alguém.
- Como assim?
- Assim mesmo. Você já pensou na hipótese de que a gente é só um texto? Ouve, presta atenção. De repente a gente escuta o barulhinho de alguém teclando, inventando a nossa história.
- Pára com isso, dá até medo de pensar!
- Haha. O medo de mentirinha do personagem de ficção do escritor que só existe no sonho esquecido de uma lontra qualquer dentro do universo que nunca houve...
- Ah, vá à merda, cara! O que você anda tomando?!
* Um dos contos reunidos num livro meu, chamado Os Nomes e nunca publicado. O livro foi vencedor da categoria ficção do Projeto Nascente, da USP, em 2004.


