Deu o que falar a coluna de Juca Kfouri, na Folha, sobre o proselitismo no futebol, que, entre outras, desenca a "enlouquecida pastora casada com Kaká, uma mocinha fanática, fundamentalista ou esperta demais para tentar nos convencer que foi Deus quem pôs dinheiro no Real Madrid para contratar seu jovem marido em plena crise mundial". A citação entre aspas é literal.
Acabei de checar. O post no blogue do jornalista tem agora 452 comentários de internautas, aplaudindo ou criticando o ataque. A coluna dos leitores da Folha recebeu outro monte de cartas motivadas pelo artigo.
Eu, se fosse clicar na caixinha de comentários, aplaudiria o texto. Também acho um saco essa história de I belong to Jesus etc, que certas igrejas evangélicas (não todas) insistem em berrar por aí.
Para começar, acho esses religiosos vergonhosamente contraditórios. Estão sempre com a bíblia debaixo do braço, citam versículos de cor e se orgulham de seguir ao pé da letra "a palavra de Deus". Ao mesmo tempo, fazem vista grossa sobre a palavra e passam o tempo todo falando de bens materiais. Ah, porque Zezinho aceitou Jesus e hoje tem um carro importado, glória a Deus.
Não sou evangélico - aliás, nem cristão sou - e também não sei citar o versículo. Mas me lembro bem de uma passagem em que Jesus diz ao fulano que dê todos seus bens materiais aos pobres e que o siga sem nada levar. Termina a história dizendo que é mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha do que o rico entrar no reino dos Céus.
Não é assim? Mas o evangélico (não todos) passa convenientemente por cima dessa parte, até porque o dono igreja vive na opulência graças às doações dos fiéis e, portanto, precisa justificar como "Deus está atuando na vida daquela pessoa" ao arrumar pra ele um carro bacana com opcionais de fábrica.
Outra que não vou saber citar, mas lembro. A de que o fulano deve fazer sua prática espiritual em silêncio, discretamente, e que deve passar perfume e ser todo sorrisos quando jejuar, em vez de fazer show da austeridade. Mas o fanático adora se anunciar crente e relatar suas atividades na igreja.
Acho também uma religião triste em alguns aspectos. Três exemplos:
Uma vez um menininho crente me mostrou um gibi da Mônica e disse que aquilo - as formas humanas dos personagens - era obra do demônio, já que não haviam sido feitas por Deus. Ou seja, ele condenava por tabela todo tipo de arte ou criatividade humana.
Depois a birra com imagens, coisa mais chata e constipada. O homem sempre fez imagens de deuses para se sentir próximo deles, para poder tocar, beijar, adorar. Não para reduzir Deus a um bonequinho infame, mas para poder percebê-lo com os sentidos. A imagem do Cristo não é obra do demônio, de idólatras, essa cantilena toda. É só um símbolo do Cristo e que pode, como tal, ser adorado, por que não?
(já ouço o fanático citando aquelas passagens na segunda pessoa do plural: não farás imagens de bezerrinhos de durepóxi etc...)
Por fim, a desgraça retumbante do crente cinturinha dura, a inexistência da Mãe Divina. Que coisa mais triste não poder se aproximar de Deus na forma de mãe, como Nossa Senhora para os católicos, como Durga ou Kali para os hindus, como Tara para os budistas.
A fúria fanática e desrespeitosa contra essas duas coisas - imagens e Mãe Divina - foi materializada pelo episódio daquele pastor que chutou a santa.
Com essa tristeza toda, explica-se o proselitismo, enfim. O fanático só está tentando convencer a si mesmo de que aquela filosofia repressora, careta, fanfarrona e burra é a coisa certa a se acreditar.

O fanático não entende que esta palavra de cinco letras, J-E-S-U-S, também é um símbolo, uma "imagem acústica", como diria o semiólogo...



De acordo.