O jornalismo gosta de apelar para uma cascata de vez em quando, sei o que digo porque milito nesta profissão que não exige diproma.
Cascatinha da boa é a capa da Veja desta semana. Com o título de O Big Bang da Internet, a reportagem promete adiantar a sensacional era vindoura da rede mundial, a era da "nuvem".
Promessa tão deslumbrante, peguei emprestado o exemplar da redação para ler em casa. Veja, a gente tem que desconfiar da Veja, mas o jornalismo blefa macho quando apela pra cascata. Nunca se sabe, melhor ler e tirar as próprias conclusões.
As conclusões deste são as seguintes: não há quase nada de novo na matéria anabolizada pela bela edição de arte e pelo blefe em cima do termo da "nuvem". Tudo é velho conhecido nosso, velho mesmo, coisa de uma década de velhice, que, para a tecnologia da informação, são séculos.
A nuvem não é nada mais do que você ter dados e aplicativos hospedados em servidores de terceiros e não na sua própria máquina. Com a multiplicação de aparelhos conectados - dos tradicionais computadores a geladeiras e interruptores de luz - você tem enfim esse enorme banco de dados em rede, a tal da nuvem.
Isso de forma alguma é novo. A pessoa que posta suas fotos no Flickr ou seus vídeos no YouTube está na nuvem. Muito antes disso, quem já usava serviços de webmail, ainda no século 20, estava na nuvem.
Lembro de uma matéria que fiz com o pessoal da Sun Microsystems que desenvolvia software para que geladeiras conversassem com liquidificadores conectados. O ano era 1999.
No mesmo ano, escrevi sobre os "clientes magros" (thin clients), os computadores que eram basicamente teclado e monitor, pois o processamento ficava a cargo do servidor das empresas que o usavam. A matéria da Veja fala da versão on-line desse tipo de máquina, os net books, nada de novo, porém.
Na verdade, verdade mesmo, a própria internet, por definição, se baseia no conceito de nuvem: unidades individuais ligadas em rede através de grandes servidores. Então talvez apenas o termo nuvem em substituição ao termo rede seja a novidade da matéria. Bella roba, como diria aquele meu avô palmeirense.
Chegamos, pois, à conclusão de que a revista trombeteou o advento da internet, ai ai ai. Como era uma cascata, para disfarçar, Veja partiu prum longo nariz de cera, que é como o jornalismo chama a introdução floreada de um texto, uma enrolação que não vai direto ao ponto. A reportagem foi explicar o que era a nuvem - a boa e velha internet - lá pela quarta página da matéria, algo assim.
Tá bom. Sejamos justos e digamos que também não haveria motivo para "derrubar a pauta", como dizemos no jornalismo, mesmo porque tudo rende pauta nesta vida besta. A matéria é pretenciosa, mas reúne essas infos todas, faz projeções futuras e informa quem não percebeu o que já acontecia.
Nada que sirva pra alguma coisa, claro, mas nada serve. The show must go on.
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"Papai, quando crescer, vou ser jornalista"



Não! Cas-ca-tinha".
Excelente o blog, Quadrado.