Assisti na semana passada ao documentário Pelé Eterno. O filme é excelente e Pelé, isso é que queria dizer, foi mesmo o melhor jogador de todos os tempos e não há ninguém de boa vontade que não chegue a essa conclusão ao assistir ao documentário. Os argentinos vão continuar dizendo que Maradona foi melhor, mas por pura fidelidade de fã, ou melhor, por argentinice congênita. Maradona foi estupendo, Pelé foi muito mais do que isso, a verdade ninguém cala.
Escrevo este post para notar como o tempo vai apagando as coisas. Pelé foi mesmo (bem) melhor do que Maradona (e do que todo o resto), mas como já ficou distante no tempo a gente vai perdendo a certeza. Eu mesmo, que menino de tudo só peguei Pelé no finalzinho do Cosmos, já começava a desconfiar que Diego talvez fosse melhor do que o brasileiro. Não é. Convenci-me pela eternidade ao assistir Pelé Eterno.
Não só pela extensão da carreira de sucesso Pelé, por ter feito muito mais gols e colecionado muito mais títulos (só campeão paulista ele o foi dez vezes). O cara era melhor, simplesmente.
O mais deslumbrante gol de Maradona, aquele contra a Inglaterra (Copa de 1986), quando ele driblou meio time inglês, é equivalente, por exemplo, ao "gol de placa" de Pelé, anotado no Maracanã. O tal "gol rua Javari", em que Pelé deu quatro chapéus seguidos antes de marcar, parece ter sido ainda mais impressionante, a julgar pela reconstituição digitalizada que vemos no filme.
E essa história de enfileirar chapéus e dribles por baixo das pernas, você constata pelo documentário, acontecia com uma freqüência surreal. Pelé metia a bola no meio das pernas dos zagueiros ou encobria seus oponentes em seqüência, enfileirava dois, três, jogo após jogo.
Era um demônio, tinha uma objetividade mortal, fazia gol de tudo quanto é jeito, cavava pênalti, dava porrada, fazia milagre, fazia chover. A facilidade com que o cara jogava era impressionante, vendo o filme você tem a impressão de que aquilo era coreografado. Ou, como disse um amigo, parecia um adulto jogando contra crianças.
Pessoalmente pude ver o auge de Maradona ao vivo na Copa de 1986 e tenho uma grande simpatia pelo argentino, tanto pelo talento quanto pelas loucuras dele. Foi um cracaço mesmo, tanto quanto outros o foram. Mas Pelé é de fato um caso à parte, bem acima de qualquer jogador que já existiu e que talvez venha a haver.
E, desculpe-me se tal discussão já deu nos ovos, mas digo isso só pra constar, só porque Pelé já ficou no tempo e porque hoje a gente só tem como avaliar o Edson mesmo, um velhote contraditório, um ser humano que tem seus problemas e defeitos como qualquer outro, Maradona que o diga.
Que isso não seja desculpa, entretanto, para deixarmos de relacionar a Pelé o aposto eterno de maior jogador de todos os tempos, assim na terra como no céu.

* Este post foi originalmente publicado às 12h36 do dia 8 de novembro de 2004 no finado blogue quadrado.com, com esta mesmíssima foto do Rei ninando a bola. E segue replublicado aqui só para provar que, ao contrário do que disse brincando no post anterior, não acho Maradona melhor que Pelé, por mais que tenha simpatia pelo Diego.


