Na aula da última quarta (mestrado em jornalismo), discutimos mil cousas, várias sobre o quanto nada existe. Explico.
Contou-se lá a história de uma experiência que fizeram com uma planária. A planária, talvez você saiba, é um platelminto precariíssimo; um escargot comparado a ela é gênio. Segundo o cara que contava a história, a planária tem apenas dois, leia bem, dois neurônios. Se se chamam Tico e Teco, como os da loura burra, não se sabe. Sabe-se apenas que são dois. O bicho é tão básico que se você cortá-lo no meio ele se transforma em duas planárias.
Não obstante, o bicho é capaz de abstração simbólica, por incrível que pareça. A experiência foi pegar a protolesma e lançar sobre ela um flash luminoso, dando na seqüência um choque elétrico. O choque faz o bichinho estremecer, coitado. E assim foi se fazendo sucessivamente até que, uma hora, o bicho já começava a tremer só com o flash, mesmo sem dar o choque, como um cachorro Pavlov do mundo dos bichos asquerosos.
Isso quer dizer que a planária conseguiu substituir simbolicamente o choque pela luz do flash. Fez uma representação simbólica com apenas dois neurônios. O ser humano tem 100 bilhões, então daí já se começa a sentir o drama: vá pensando quantas representações simbólicas você consegue fazer.
Entretanto a questão não é nem quantas se pode fazer. A questão é que você faz representação em cima de representação, uma sobre a outra, sucessivamente, afastando-se cada vez mais do "real".
Um exemplo que o cara deu na lousa. No início você concebe as quantidades com "pauzinhos", assim pode fazer montinhos com um, dois ou três unidades, assim: I, II, III. Isso já é uma representação simbólica dos números naturais, mas você continua: 1, 2, 3, algo mais ambicioso semiologicamente falando. E assim segue, chegando a abstrações como um número ao quadrado, do tipo: 10². Até que uma hora se chega a signos para coeficientes como "delta", simbolizado como um triângulo. E dá-lhe representação sobre representação sobre representação.
É como a linguagem de máquina, composta de zeros e uns, sobre a qual há a BIOS, depois talvez o DOS, depois o Windows, depois os aplicativos, de forma que o programador nunca escreve o código com zeros e uns, mas com signos que depois serão traduzidos nas entranhas da máquina. O "real" é apenas o sinal 0 e o sinal 1. Aliás, estes também são signos. O real é só o passar ou o não passar da corrente elétrica pelo circuito, mais nada.
O homem constrói sua concepção de mundo sobre cadeias extremamente complexas de representações simbólicas. Isso não é tudo, pois elas se combinam e se cruzam entre si, muito além do ground zero do real. Tal é o que fazemos agora, eu transmitindo impressões ao seu cérebro através de um código simbólico de 23 símbolos gráficos, as letras do alfabeto usado no código lingüístico chamado português.
Então tudo o que você pensa é representação simbólica. O que você valoriza, curte, despreza, venera, inveja, almeja, ama, tudo, tudo é só uma cadeia vertiginosa de representações semiológicas entrecruzadas a se retroalimentar sucessivamente num processo infinito.
Assim as pessoas passam por "fases", ouvem um tipo de som, depois passam para outro. Andam com uma turma, depois acabam achando que aqueles colegas estavam com nada. Entram em seitas, depois saem achando tudo um sonho irreal. Isto porque tudo é construído sempre muito acima do "real". E ainda há gente que diz que talvez nem o mundo físico seja real, apenas um plano de sonho dentro das infinitas possibilidades da mente universal.
Ou seja, meu amigo, você não existe! Se isso é bom ou ruim, não sei. Há um modo otimista e outro pessimista de se olhar para a impossibilidade do real. Mas elas também serão sempre representações simbólicas.
* Post publicado originalmente no blogue quadrado.com às 21h20 de 29 de abril de 2004



Esse tema não é novo, mas rende várias vertentes. Se 10 elevado à décima potência já é uma abstração da abstração, imagine a nova teoria da 11ª dimensão, o que segundo os físicos explicaria a fraqueza da força da gravidade. Bem abstrato. No cinema tem duas "franquias" que retratam essa representação. Uma é "Ghost In The Shell", que rendeu dois filmes de animação, um em 95 e outro em 2000, um seriado e mais um filme baseado nesse seriado, todos em animação.