Quando atravessou o portal da realidade-geleia, Tanidíase era moça de dezessete anos, coitada. Não pelo tempo de vida, claro, mas pelo nome: Tanidíase. Um certo som de moléstia infecciosa no nome, um desgosto, um dessabor de falar essa palavra esquisita.
Num domingo, nasceu para ser registrada Tanidíase de Oliveira Spuns. O Spuns por si só já era um caso à parte, por causa do mulher-colher, mas a bronca mesmo era com o Tanidíase, jeito, som de coisa estranha, absolutamente sem razão. Preferia ser chamada de Dani. Era perguntar seu nome e ela dizia Dani. O problema é que era frequente alguém dizer "adoro Daniela", ou então perguntar "Daniela ou Daniele?", e aí a confa constrangedora se instalava.
"Poxa, meu nome nem é Daniela, é Tanidíase", dizendo quase como pedindo desculpas, encolhendo os ombros e apertando os olhos, como quem espera por uma paulada nas costas. Pobre Tani, digo, Dani.
A senhorita Spuns compartilhava sua sina com outros dois irmãos: Claustério e Mofagom. Mas, sabe como é, homem tem direito de ser estranho. É, homem pode se vestir mal e ter pança, sempre haverá alguém que o queira assim mesmo. Mas mulher não. Mulher sempre tem de andar bonita, cheirosa, bem vestida, cabeluda, feliz. Sempre tem de ter nomes que despertem felicidades, sons como Renata, Paula, Flávia, Lucila, Cristina. Então os irmãos Claustério e Mofagom se constrangiam, mas nem tanto, mesmo porque o primeiro era chamado de "Piu" e o segundo de "Louro", como se fossem dois pássaros da fauna tropical, pois pareciam mesmo uns passarinhos na leveza de cabelitchos esvoaçantes.
E se alguém perguntasse "por que Piu?", o menino-sanhaço dizia "porque sim, ué", com a despreocupação autossuficiente que os machos da espécie são treinados a demonstrar. Só que a senhorita Spuns desgraçadamente não desfrutava da mamata: ensinaram-lhe que mulher tinha de se justificar.
Uma coisa ela adorava fazer: inventar nomes gozadinhos. Havia, na verdade, duas coisas que ela adorava fazer: "campeonato de cabelo" com as amigas e inventar nomes esquisitos para os soldadinhos do irmãos Piu e Louro. O campeonato de cabelo, elas faziam quando se empamonhavam. Eram todas cabeludas e, quando chapadas, ficavam em frente ao espelho da cômoda da mãe da Clarinha bolando penteados malucos. Ganhava o que provocasse mais risadas nas meninas. O outro passatempo era solitário e secreto. Abria o velho baú de brinquedos dos irmãos e ficava conversando com os bonequinhos, inventando nomes para eles, palavras bem diferentes e engraçadas: Tidó, Mitufo, Tadisleu, Minotauro Jones, Fulipamanacã, Tat-Sum-Dum, Camicase dos Pobres, Milho Chicago, Bisgotinho, Tendeiro de Dona Mufá, Minuto Secreto, Pimbum Dourado, Sagiquinho, Dodão e também Alberico, disparado o nome mais comum de todos.
Dani era mesmo uma mulher muito inteligente, criativa e sensível. Gostava muito de morar dentro de seus pensamentos e sonhos, sendo para ela um choque voltar ao mundo onde as pessoas a chamavam de Tanidíase. Era como uma pancada violenta. O nome, quando dito pelas pessoas que o estranhavam, isto é, quase todo mundo, provocava um peso, uma pressão na nuca, na medula. Era horrível. Mas no mundo dela, onde os bonecos tinham nomes mais estranhos ainda, tudo estava bem e a salvo da sanha gozadora de Alessandras, Pedros, Marianas, Mários e Andreias, pessoas que tinham a sorte de ter um nome ordinário.
Um momento transformador na vida da jovem Spuns foi quando ela descobriu os nomes dos orixás do candomblé. Eram tão lindos, absolutamente maravilhosos, sonoros, coloridos e saborosos: Iansã, Ogum, Ogunjá, Xangô, Oxumaré, Tempo, Oxalá, Iemanjá e, principalmente e acima de todos, Ifá, o nome do jogo de búzios da Umbanda. Como era lindíssimo esse: Ifá.
Ela repetia com toda a intensidade dentro de seu coração e de sua mente: Ifá, Ifá, Ifá. Que maravilhoso esse som! Como ela adorou tudo aquilo, como quis morar na nação iorubá dos sons perfeitos.
Mas sempre tinha de voltar para o mundo dos sons comuns, onde estranhamente se chamava Tanidíase. Por isso, acabou optando por Dani mesmo. Muitas vezes passava batido, nem todos lhe diziam que gostavam de "Daniela" e ela não precisava encolher os ombros esperando pela paulada.
Se era bonita ou feia, não se permitia tanto conjeturar, pois o nome Tanidíase a dominava por completo com uma força tirana, sólida de aço eterno. Há força no nome. Aprendera que o mundo todo fora criado depois que o Criador moveu seus lábios. O som Tanidíase moldou-lhe, portanto, a vida e as experiências fundamentais da sua existência. Até o dia em que tudo isso mudou.
Foi como o nada, o inesperado, algo que poderia nem ter acontecido, mas que aconteceu. Foi ouvindo o álbum branco dos Beatles, bem na música Rocky Racoon, que ela entrou no mundo da realidade-geleia.
A música contava a história de uma menina que tinha três nomes. E naquela hora o tempo prendeu o fôlego:
Her name was Magill
And she called herself Lil,
But everyone knew her as Nancy
Quando Dani escutou isso, ah, ela voou. Entendeu que aquilo era um déjà-vu que tinha anzol no passado, na cabeça do Paul, através de um esquema quântico qualquer que permitiu a ela, antes de ter nascido, entrar na cabeça dele e soprado a moral da história, no caso da sua própria história: a da menina dos nomes.
Quando entendeu isso, houve um estalo no tempo, como as vigas de madeira que se ajeitam na madrugada de uma velha casa. As paredes começaram a brilhar de forma diferente aos olhos da jovem Spuns. Todo o mundo parecia que começava a se liquefazer. Começou a virar geleia, tudo: parede, armário, cd player, espelho, cômoda, cama, porta-retrato, luzes, chão, ar.
Dani então percebeu que poderia moldar a realidade como quisesse, nada havia que não fosse inteiramente modelável, como geleia, como os infinitos sons dormentes na língua do Criador. Aí, feito o feiticeiro Juan, ela parou o mundo e mudou seu nome, portanto sua história.
Decidiu se chamar Ifá.



preciso criar coragem e pegar o Álbum Branco dos Beatles, se o Sargent Pepper já era viajandão, esse é mais ainda...