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Deus não está nem aí

Postado por Adriano Quadrado em 23 de Novembro de 2009 às 20:42


De saudade, andei ouvindo no youtube velhas músicas dos Raimundos. Depois encontrei links de depoimento do Rodolfo, que virou evangélico. Por fim, li texto e vi vídeo sobre show dele com o Catalau, ex-Golpe de Estado, hoje pastor.

Há entrevistas de ambos, agora mais gordinhos e com jargão dos cristãos renascidos: derrotar potestades, glorificar o nome, transformar vidas.

A impressão é a de que houve mudança total, mas no fundo -- aí vem a tese -- é sempre o mesmo velho ego com uma estratégia diferente de sobrevivência. As conversões acontecem porque a mente muda de tática. Antes o projeto de ego era o de pop-star doidão, agora é o do "servo do Senhor". O homem é o mesmo.

Não vou negar que possa haver conforto e crescimento espiritual na igreja do Raimundo e do Catalau. Não sei das alegrias e experiências que tiveram na religião. Apenas digo que a transformação não é tão grande quanto se quer vender. Senão, basta ver os jovens pulando e batendo cabeça na plateia como qualquer show normal -- ou "do mundo", como diz o crente.

Lá está a mesma fúria vital que vem das tripas de qualquer homem e dizer que aquilo na verdade é para "tranformar um palco de morte num altar de vida" não muda muita coisa.

O cara é crente, como poderia ser punk, emo ou gavião da fiel. São estratégias de sobrevivência do ego e, no fundo, ele está mesmo a fim de azarar a moça ao lado, seja qual for o cenário. Se o xaveco vai partir de Esaú ou Hendrix é só detalhe.

Agora, evidente, os caras pararam de tomar montes de drogas e isso, sim, faz bastante diferença. Para vida, para a saúde, para a sanidade mental. Nesse sentido, a conversão fez muito bem a Rodolfo e Catalau.

Arrisco a dizer que largar o vício químico seja o grande barato da conversão. Em uma das entrevistas, Rodolfo diz que não aguentava mais ter que representar o personagem doido do cantor raimundo, com as drogas e a panca de pop-star toda que fazem parte do pacote.

Ele hoje está livre disso, mas no lugar tem que carregar o novo personagem crente e ficar se justificando, tentando convencer os outros de que foi uma boa, de que ele não pirou no fanatismo. Ainda se escora, agora na regilião, afinal custa carregar-se sem muletas seja elas quais forem.

O problema é que a vida de pop-star também tinha sua graça -- pelo menos é mais honesta com os humores que vêm das tripas -- e ficar nessa cantilena judaico-cristã dum deus mau-humorado como Javé também tem seu preço. Precisam acreditar que fizeram a escolha certa, então têm de converter os outros para convencer a si mesmos disso. Mas não duvido que a nova vida sem vício lhes pareça uma bênção.

Só não consigo achar que o "Rei Jesus" esteja ali de olho, "operando na vida daquela pessoa", preocupado em ganhar a corrida contra o chifrudo. Também não acho que o pé na jaca seja uma coisa tão feia e condenável assim, uma obra do mal. Jaca e religião surgem ambas da mesma dança do universo.

Ao contrário do que pensa o ego em suas estratégias de sobrevivência, nossa historinha de vida não tem a menor importância e Deus não está nem aí para ela.

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  • Comentários
  • por ADRIANO QUADRADO, em 25 de Novembro de 2009 às 16:25 É isso mesmo, Fulvia, Deus está sempre lá. Obrigado e abração.
  • por Fulvia Campanhão, em 25 de Novembro de 2009 às 15:22 Olá Quadrado!!
    Adorei suas colocações sobre o EGO...
    A nossa essência não muda ... e Deus está dentro de cada um de nós, não importa qual o caminho que escolhemos para encontrá-lo ...
  • por Almanakut Brasil, em 24 de Novembro de 2009 às 13:42 A história do mundo é a história do assassinato!
  • por adriano quadrado, em 24 de Novembro de 2009 às 12:49 Não é bem assim, Alexandre. Apenas acho que o traçado da minha vida não tem a menor importância para o Absoluto. Não acho que Deus seja incompleto, que ele precise ou torça para que eu faça isso ou aquilo, porque ele esteja em batalha contra o mal. "Nada real pode ser ameaçado. Nada irreal existe. Nisso está a paz de Deus".
  • por alexandre giachetto, em 24 de Novembro de 2009 às 12:36 Percebi que não é "Deus que não está nem aí" - é o Adriano Quadrado que não está nem aí para Deus.
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