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Ribeirão Preto, 30 de Julho de 2010

Blogs e Colunistas \ Adriano Quadrado \ Dezembro 2009

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Blog de Adriano Quadrado

Blogue é fado

Postado por Adriano Quadrado em 28 de Dezembro de 2009 às 11:32

 

Agora os blogues têm dessas de categorias. Que inferno. O fulano, além da tarefa ingrata de manter um blogue (isto é, algo que ninguém lê), ainda fica queimando a pestana para enquadrar seus posts em categorias. Tudo culpa do sangue ruim do Aristóteles de Estagira, o primeiro caso crônico de transtorno obsessivo-compulsivo da história, ele e as malditas categorias-gavetinhas-virginianas dele, aquele fio dua égua. E eu boto este meu post em que categoria? Na categoria "Filósofos que sofrem de TOC", na categoria "Óteles, óteles, óteles, pau no couro do Aristóteles", ou na categoria "Blogue é fado"? Sugestões serão bem vindas.

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Eat bananas all day

Postado por Adriano Quadrado em 28 de Dezembro de 2009 às 00:06

 

Relaxar ou tensionar os ombrinhos, eis a questã (sic). Porque, comparado com bichos e aranhas e sóis, passarinhos e flores e piupius, sempre serei um macaco.

Aí a verdade, me acho tão sofisticado mas não sou melhor que os animais sentados no zoo. A única hora em que me sinto bem é quando subo e desço do coqueiro, humpf... (não me sinto seguro neste mundo no more, nem quero morrer num cogumelo atômico, socorro).

Acho que sou muito bacana porque vivo minha vida como um bom homo sapiens. Acho que sou educado e civilizado porque sou um vegetariano. Mas —eis tudo, eis tudo— se tu topares ser minha moça-mico tudo se ajeitará: te esquento, me sanas, voilà.

E ouviremos a cançã (sic). E cantaremos juntinhos a letra da cançã. Chuque-chuque-baibai.

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Mitos, tapetadas e avatares

Postado por Adriano Quadrado em 22 de Dezembro de 2009 às 01:23

 

O jornalista Bill Moyers fez, no final dos anos 1980, célebre série de entrevistas com o mitólogo americano Joseph Campbell (1904-1987), aquele que ajudou George Lucas a construir a estrutura mitológica da saga Guerra nas Estrelas. A conversa entre ambos virou programa de TV, livro e depois DVD chamados O Poder do Mito.
 
Lá pelas tantas, o jornalista pergunta a Campbell quais as consequências para a juventude da atual falta de mitologia, que antes ajudava o jovem a fazer o rito de passagem e se tornar um adulto. O mitólogo diz algo como: quer saber do resultado disso? Leia o New York Times!
 
Campbell creditava atos criminosos da juventude à falta dos mitos. Ele dizia que os rapazes, sobretudo, precisam de ritos psicológicos de passagem. Afinal eles não a têm marcada biologicamente, como as garotas, que se tornam mulheres com a primeira menstruação. Mas o mundo ficou vazio de mitos e de sentido.
 
Se antes o jovem saía para praticar algum ato ritual de coragem, na jornada heroica que o colocasse no mundo dos adultos, hoje ele sai para dar tapetada de carro na cabeça do primeiro que surgir pela frente, num heroísmo pervertido e sem razão. Tudo por causa da falta de mitologia, que, na linguagem de Campbell, pode ser entendida como sinônimo de espiritualidade, dessa conexão psicológica com o todo, com a unidade, mediada por imagens e narrativas.

A conexão não se faz com o lado objetivo e analítico da mente. Faz-se com intuição, silenciosamente. Faz-se de maneira natural quando a mente que calcula não atrapalha. Mas isto não vem dando ibope nos últimos séculos. Aqui a mente divisora tem levado a melhor sobre o coração de unidade.

Por isso é interessante o filme Avatar. Ele traz a alegoria desse embate mente X coração no choque entre a ciência terráquea e a beleza dos nativos de um mundo distante, eles analogia dos índios um dia aqui massacrados. Os nativos são belos, saudáveis, conectados com o todo. Os humanos são babacas, gananciosos, violentos e egocêntricos. A alegoria dentro da alegoria é o ataque final da máquina militar americana contra uma magnífica e pacífica... árvore.

Nosso problema, que começou como bênção, é a força da mente científica. Ela pode muito, pode tanto que acabou tomando conta da nossa consciência. Hoje somos possuídos pela mente, pelo ego separado do todo, inventado por ela. Somos marionetes da mente, acreditamos totalmente que somos o ego. Mas não foi sempre assim.

Antes, quando andávamos em tribos pequenas, estávamos perto da natureza e sentíamos facilmente a conexão, a unidade. A sociedade era nossa família e o mundo todo era solo sagrado. Daí nasceram os mitos todos, que intuitivamente nos lembravam da conexão, do fato de sermos os braços e os olhos da terra.

Penso no caçador de arco e flecha, como os do filme. Ele entra na mata, encontra os galhos certos, prepara com cuidado seu arco, enfeita com beleza sua flecha e sai com os espíritos da mata para encontrar seu oponente, mas também seu irmão.

A caçada é lenta, respeitosa, a jornada é deslumbrante e heroica. O animal está ali bem perto, respira, corre mais do que o caçador, pode derrubá-lo por ser mais forte. Quando por fim tomba a caça, o caçador a olha nos olhos com reverência, sente o espírito deixando aquele corpo, que se tornará seu corpo, ambos filhos da mesma terra.

Que diferença não faz na psicologia do caçador um rifle? Uma ponto-trinta, como anda em voga? Ou um helicóptero Apache com metralhadora e lança-foguetes? Boa diferença.

E que sentido faz este mundo de concreto visto só pela janela? Mundo que dá pulinhos de contente com o novo recorde na venda de carros, que vê boas oportunidades de navegação agora que o Ártico vai sumir. Mundo de disputa, poluição, ganância, violência, tapetadas, facções criminosas, corporações incontroláveis, jornais cheios de desgraça, filmes cheios de morte, carros, muitos carros, barulho, pressa, loucura e medo, muito medo.

A mente que calcula e divide não vai parar sozinha, não há limites para a escuridão, tudo ela pode arriscar nessa fantasia insana de ser separada de todo o resto. Ela se tornou hoje a maior ameaça à sobrevivência de nossa espécie. E ela não vai parar se não pararmos com ela, se é que ainda vamos conseguir fazê-lo.

Mas quem sabe não nos venha ajudar um novo avatar? A palavra, para os hindus, significa a encarnação de Deus, que de tempos em tempos resolve tomar forma humana para salvar-nos de nossas bad trips. Muitos vieram, muitos ainda podem vir, creem os hindus, que não se contentam com um único avatar, como nós aqui no ocidente. Eles adoram vários avatares, como este, esse, aquele, esse também, este outro e até esse aqui.

Mitos? Que sejam, qual o problema?

;-)

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Para se dormir tranquilo

Postado por Adriano Quadrado em 18 de Dezembro de 2009 às 02:50

 

O mais triste sobre o caso dos estudantes suspeitos de agredir um trabalhador negro, para mim, não é a história em si, mas a reação ao caso. É o linchamento apressado dos garotos que ainda são — por mais que isso frustre nossa pulhice e sede de sangue — apenas suspeitos e nada além disso.

O parágrafo que se segue é o artigo 11 da histórica Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 10 de dezembro de 1948:

Toda pessoa acusada de um ato delituoso tem o direito de ser presumida inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa.

Mas os rapazes, para todos os efeitos, já foram previamente condenados. Agora querem tirar deles, veja você, o direito de estudar. Primeiro uma passeata, depois vereadores pedindo que a faculdade os expulse. Mesmo criminosos condenados têm direito a estudar, atrás das grades, e entende-se que o estudo deva ser incentivado. Não neste caso, nunca neste caso.

A história dos estudantes de medicina vem com ecos de outras duas: a morte de Galdino Jesus dos Santos e a minissaia de Geisy Arruda. A mente é um instrumento bastante imperfeito para apreender a verdade e a contaminação desses dois outros casos na percepção do mais recente é exemplo dessa imperfeição.

Primeiro sinto na fúria contra os estudantes os estilhaços da condenação pela morte do índio Galdino, queimado por jovens de Brasília. O detalhe — que não é apenas um detalhe — é que a agressão em Ribeirão foi infinitamente mais leve. O que houve, se houve, foi uma tapetada, enquanto lá um homem foi queimado vivo. Mas os ecos da morte de Galdino não nos deixam considerar proporções.

Depois o caso Geisy, que foi expulsa por sua faculdade. A mente imperfeita rumina: "ora, se uma minissaia rendeu expulsão, por que não um ato de racismo?" (há ódio e ranger de dentes sublinhando a palavra racismo).

O que ninguém parece perceber no bate-pino precário das sinapses é que uma coisa não tem nada a ver com a outra. O caso Geisy aconteceu dentro da faculdade e o que estava em jogo era a questão de a menina poder ou não usar os trajes dentro da faculdade.

O caso do suposto racismo não foi na faculdade, não tem nada a ver com ela e querer privar de estudo os jovens (que ainda não foram condenados pela Justiça, vamos repetir) me parece uma atitude fascista, para não dizer demoníaca.

Como a grande maioria — sim, a grande maioria — das pessoas guarda o racismo entranhado na mente, a fúria com que se condena os jovens só pode ter algo de projeção psicanalítica.

É muito tentador apontar nos outros defeitos que temos em nós. O problema com o qual nos debatemos chama muito a nossa atenção quando manifestado em outra pessoa, é praticamente irresistível apontar o dedo para o problema, como se assim não tivéssemos nada com ele. Tantos dedos apontados para os jovens, neste caso, só podem vir de uma sociedade mal resolvida em seu próprio racismo, a última no mundo, aliás, a abolir a escravidão de negros.

O segundo e sem dúvida o maior componente nessa gritaria geral é a crueldade das pessoas. Muita gente, se pudesse, cuspiria na cara dos suspeitos, gostaria de vê-los cair no chão e chutar suas cabeças, não porque tomaram para si as dores do trabalhador negro agredido (na verdade, estão pouco se lixando para ele), mas porque nessa hora são desumanas.

Reclamam que os jovens não viram o ser humano no trabalhador negro, mas elas também não veem qualquer humanidade nos acusados, querem emboscar e matar a pauladas os suspeitos, mesmo que simbolicamente, porque move-se em suas tripas uma crueldade brutal.

Dirão elas que os estudantes também foram cruéis com o trabalhador, como se um erro anulasse o outro, como se pudéssemos nos entender em meio a grunhidos de bestas feras que somos, como se elas pudessem me convencer de que estão de fato preocupadas com o homem agredido.

Algo que me parece imaturo e contraproducente é brigar com o pecador em vez de combater o pecado. O caso nos traria oportunidade de debatermos a fundo nosso próprio racismo enrustido, buscar porquês, ver onde estamos errando, verificar o que é feito nas escolas para ensinar a tolerância racial, mas não.

O negócio é pegar carona no caso para posar de indignado e sair na foto pedindo mais uma vez a expulsão da faculdade. Aqui o terceiro motivo da gritaria se anuncia, a vontade das pessoas de se mostrar, de aparecer, a egotrip básica e eterna, sempre ela. Na moda do politicamente correto, nada melhor do que fazer a pose de alguém muito indignado com o racismo.

O problema, como disse, é que as pessoas em sua maioria são preconceituosas, inclusive muitas daquelas que hoje estufam o peito para falar dos rapazes. Percebo também que Ribeirão, ela mesma, é uma cidade racista. Mudei-me para cá há três anos, vindo de outro lugar. Hoje até me acostumei, mas logo que cheguei me surpreendi com a quantidade de comentários e piadas racistas que ouvi de pessoas bem educadas formalmente, algo que seria considerado atitude de mau gosto ou no mínimo gafe em outros lugares.

Nascido da cultura racista nacional e local, o ato dos estudantes de medicina, se confirmado, me parece coerente com o que lhes foi ensinado por toda uma multidão de mentes preconceituosas. Assim como o álcool que eles teriam tomado aos montes naquele dia, já que a propaganda da TV lhes disse que a suprema felicidade está na lata da cerveja.

Mas ai de nós. Para que pensar na nossa parte de culpa? É doloroso e dá trabalho. Mais fácil crucificar os tais dos estudantes sem rosto e sem humanidade, recipientes de tudo o que quisermos jogar sobre eles, nosso ódio, nosso fracasso, nossa inveja feia e recalcada, nossa vontade de ferir e matar, de exercitar nossa maledicência, de vomitar toda nossa frustração, toda a loucura desse mundo insano e sem perdão, em que os verbos matar e morrer são os hits infalíveis das manchetes dos jornais. Melhor abrir uma cerveja e pedir logo que a faculdade os expulse. Dormiremos mais tranquilos.

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Quem é racista?

Postado por Adriano Quadrado em 15 de Dezembro de 2009 às 14:09

 

Há muito racista por aí — contente e ignorante — condenando com fúria os estudantes de medicina acusados de agredir um trabalhador negro.

Racismo é algo que quase todas as pessoas traz profundo na mente, mesmo que não assumam, mesmo que nem saibam.

Há um teste interessante da universidade de Harvard na internet. Ele exibe flashes de rostos de pessoas negras e brancas e pede que o internauta os relacione com palavras positivas e negativas. A ideia é fazer a pessoa testada relacionar rostos e adjetivos sem ter tempo para pensar.

A quem se acha livre de preconceito e se apressa em apontar o dedo para o racismo alheio, sugiro o teste. Você pode se surpreender com a frequência com que relaciona automaticamente rostos de africanos com palavras como "mau" e "feio". O teste fica neste link aqui. Boa sorte.

 

 

PS - O Conrado, nos comentários, deixa este link de um vídeo  muito interessante (e triste). Traz crianças negras frente a duas bonecas - uma negra, outra branca - tendo que apontar qual a boa e a má boneca. Adivinhe o que dá.

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