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Blogs e Colunistas \ Adriano Quadrado \ Janeiro 2010

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Blog de Adriano Quadrado

Me propaga, Gabriel

Postado por Adriano Quadrado em 13 de Janeiro de 2010 às 02:16

 

Fazer blogue é sina pra coitados porque blogue é coisa que ninguém lê. Quando batuco as mal digitadas sei que escrevo pra niguém. Ok, exagero. Tem sempre uma meia dúzia que lê. Digo isso pelos comentários nos meus posts. Quando rolam dois comentários, as lágrimas nos afogam de felicidade.

Mas vou lá no post de estreia do meu colega de site. Não conheço Gabriel Pereira, fui lá conhecê-lo. Eis que encontro, senhores e senhores, 26 comentários no primeiro post dele — agora são 2h04 da madrugada de quarta. Leio os posts e me convenço sem susto de que o Gabriel é o cara mais conhecido de Ribeirão, região e toda a grande Las Vegas. Quiçá de todo o costado andino latino-americano. Calcutá e arredores com certeza. E me pergunto: por que não arriscar uma patrocínio?

Ô, Gabriel, me passa pra tua lista, pô.

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Dentro e fora de você

Postado por Adriano Quadrado em 05 de Janeiro de 2010 às 19:24


Quando conheci o álbum mais famoso dos Beatles, o Sgt. Pepper's, estava na faculdade, no começo dos 1990. Nem era meu predileto, mas naquela época o escutei muito, em looping. Gostava de todas as músicas, menos uma. Sempre pulava a faixa 8 do meu CD (primeira do lado B do vinil de 1967). Não gostava de Within You Without You, a música indiana e —então, para mim esquisita— de George Harrison. Ia direto para When I'm Sixty-Four.

Pois bem, o tempo passa, a gente muda e, anos mais tarde, Within You Without You se tornou minha preferida daquele álbum histórico. Daí em diante, pus o CD várias vezes só para escutá-la e compensar pelas ocasiões em que ela foi pulada. A música é fruto do interesse de Harrison pelo hinduísmo, primeiro com Maharishi, depois via movimento Hare Krishna.

Um dia, lembro de ter feito uma tradução da letra, que imprimi e dei de presente para minha irmã. Ela manteve espetada na parede do quarto por um tempo. Não tenho mais aquele texto, mas segue aí uma nova tentativa de tradução da música, que pode ser escutada aqui —inclusive com legendas da letra em inglês e fotos dos Beatles na Índia e de Harrison com Ravi Shankar.


Dentro e fora de você

Falávamos do espaço entre nós
E daqueles que se escondem
Atrás de uma parede de ilusão
Nunca vislumbram a verdade
E quando a morte chega
Já é tarde demais

Falávamos do amor
Que poderíamos compartilhar
Quando o encontrássemos
Tentar de tudo para
Mantê-lo conosco
Com nosso amor
Ah, com nosso amor
Poderíamos salvar o mundo
Se eles soubessem...

Tente perceber
Tudo está em você
Ninguém mais o fará mudar
E tente ver o quão
Verdadeiramente
Minúsculo você é
E que a vida flui dentro
E fora de você

Falávamos desse amor
Que tão frio se tornou
Falávamos daqueles
Que ganham o mundo
E perdem a alma
Eles não sabem
Eles não veem
Você é um deles?

Quando puder ver além de si
Talvez então descubra
Que a paz da mente lá o espera
Tempo virá e você verá
Que todos somos um
E que a vida flui dentro
E fora de você

 

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O ataque dos peludos

Postado por Adriano Quadrado em 04 de Janeiro de 2010 às 00:19

 

A tarde da véspera do ano novo é surreal. Um congestionamento monstro nas estreitas ruas da pequena vila praiana. Carros enormes como tanques de guerra, de dezenas de milhares de reais e muitíssimos quilos, pretos, com vidros escuros fechados, ar ligado, ventoinha girando, todos parados zumbindo numa fila que não se move sob o sol do aquecimento global. Quem passa ao lado, a pé e sem pressa, vence fácil a breve distância, mas os tanques de guerra de muitos cavalos só podem zumbir impotentes, sujando o ar da praia.

A noite do último dia chega e nada parece indicar que aquele seja um bom jeito de se terminar o ano. Mas há a "mega da virada", senhoras e senhores. Lá vai o peludo de sunga e lata de alumínio na mão, vermelho de sol e cervejas várias, grunhindo de excitação porque é hora do sorteio na tevê. Trancado na alucinação da mente, que o mantém separado da unidade da vida, o peludo acha que a loteria o salvará de seu inferno. A natural satisfação interior foi abafada pelo barulho incessante da mente símia e agora só lhe resta a esperança idiota de que coisas externas possam tapar o buraco que ficou. De preferência muitas coisas, que só milhões podem comprar. O diabo é que na mega só há uma chance em 50 milhões e obviamente o macaco não leva a bolada. O ano escoa em suas últimas horas como correu em todos os seus dias, em pesada angústia.

Mas sorriamos, aproxima-se a meia-noite. O peludo joga um pano branco sobre sua carne quente, com os olhos trincados depois de tanto beber. Fogos intermináveis assustando todo o ser que não os macacos humanos, cuja festa tem o mesmo som da guerra. Só que a chuva vem cedo e a horda que tomou como peste a praia agora se apressa em deixar a areia. As mesmas vielas antes tomadas pelos tanques de guerra agora são invadidas pelo exército em retirada de símios apressados, vermelhos e de branco. O álcool fez bem seu serviço e desligou o córtex. Deixou o primata à mercê da porção reptiliana do seu cérebro, que já é curiosamente ativa nessa espécie peluda. Ele está mais violento e mais inconsciente do que de costume. As muitas ruelas que saem da praia para a vila fluem em rios de macacos bêbados e perigosos, soltando mais bombas ensurdecedoras em becos e urrando para céu.

Uma volta pela praia revela o cenário de devastação. Montanhas de lixo deixadas pelos peludos na areia: cascos fedidos de morteiros, pedaços de roupa, velas, embalagens de comida, flores esmagadas e montes de garrafas, copos plásticos e latas de alumínio. Sobre os escombros, muitos ainda resistem, ouvindo altíssimas as músicas com letras cretinas, ainda berrando, ainda vermelhos, sempre reptilianos-primatas, macacos-lagartos. Mentes equivocadas e dancinhas infames sobre a praia suja. O som da consciência trazido pelo movimento gentil do mar é massacrado pelo popozão.

Na volta ao bangalô praiano, o peludo vermelho de branco, todo macaquito-serpente-calango-bugio, liga a tevê com a enésima latinha na mão. Na tela, a velha notícia da tragédia, desta vez na tempestade da mudança climática. Muitos mortos, o ano novo será tão trágico, sem sentido e angustiante como todos os outros. Muitos e muitos mortos: calamidade. Haverá assunto para se encher páginas e grades televisivas, que bom. Muitos mortos e o babuíno acha que não se assombra: antes eles do que eu, sopra-lhe o ego insano em sua alucinação de separação.

De fundo, aquele constante zumbido que o macaco, se prestasse atenção, pensaria ser dos fogos ou da cerveja, mas são do ranger das placas tectônicas de angústia que se movem dentro dele, a enorme massa de insatisfação e negatividade mal escondidas pela celebração barulhenta da virada, pela promessa canalha de felicidade da propaganda que passa agora na tevê, logo depois do show dos mortos. E são muitos os mortos, que bom, haverá assunto de sobra para ocupar os buracos entre as propagandas. Afinal, a mente que se pensa separada da unidade terá de consumir muito no ano novo para tentar silenciar o zumbido incômodo de sua desgraça autocriada. Muitas compras de coisas inúteis, muitas embalagens tóxicas e muita cerveja, minha gente, para fazer deste um brasil grande.

Inconsciente e equivocado, o macaco capota fedido e rubro sobre o beliche para acordar de ressaca no ano novo. A tempestade-resposta da terra contra o exército barulhento de peludos alucinados inunda o primeiro dia do ano. É assim o dia inteiro, galões de litros de água jorrando do céu. No planeta dos macacos —que ironia— falta água. A vila praiana está com as torneiras secas depois do assalto da horda. Não houve reservatório que chegasse para o consumo pornográfico dos gorilas. O dilúvio despencando do céu e o macaco sem água para escoar seus dejetos de ressaca boiando fedorentos no vaso.

O peludo urra para o céu porque a vida é cruel: aaaaahhhrrrgggunóffgruurrhr. Ressacado, sem banho, aviltado por seus próprios excrementos, errando feio os números da "mega da virada", o bugio-lagartixa-suricato-gibão-mangusto vai mais cedo para casa, pegar oito horas de congestionamento preso em seu tanque de guerra de duas toneladas. Mas há a cerveja, há o shopping, ufa! Ele quase se convence de que abafará as placas rangendo de angústia dentro de si quando pensa que ainda pode fazer compras e tomar um pifão no domingo. Pobre bichinho.

 

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