

Aguarde um momento...![]()
Ribeirão Preto, 30 de Julho de 2010
Blogs e Colunistas \ Adriano Quadrado \ Março 2010
RSSPostado por Adriano Quadrado em 24 de Março de 2010 às 12:30

Postado por Adriano Quadrado em 23 de Março de 2010 às 01:27
Senta-se o creme do jornalismo brasileiro para discutir o problema do momento: aumentou o número de gentes que dizem que o jornalismo é outra coisa e não aquilo. De pé o temível Linhares, comandante-em-chefe da Bonitinha de S.Paulo, famoso em todo o país pelo recorde de demitir cento e doze repórteres num mesmo dia. Pigarreia e diz:
- Senhores, estão querendo funfar com o jornalismo brasileiro. Toda a teologia da objetividade que construímos com fúria e suor agora foi posta em cheque pelas gentes. É mister que nos sacudamos!
Doutor Olegário, vovô de 213 anos e patriarca do jornal O Ombrinho de S.Paulo, levanta-se sobre o andador e todos já esperam por frases de antão.
- Concordo, querido Linhares. Temos de deter as gentes antes que elas ponham a perder o patrimônio jornalístico nacional. Lembremo-nos de Alberto Queijinho e de sua cruzada pelos bons costumes na tevê. As gentes nos tomam por cobardes, estão muito enganadas. Esmoreceríamos fôssemos uns tangas frouxas, mas não o somos. Vamos pôr nos vãos das gentes!
A plateia de terninhos ensaia o aplauso, mas não dá tempo. Assim que termina de falar, doutor Olegário dá um arroto e corcoveia pra frente como se tivesse tomado um coice no estômago. Cospe e urra, a baba escorrendo pela boca, as unhas fazendo trilhas na mesa de mogno escuríssimo.
É quando salta de sua boca um enorme bagre fosforescente, desabando sobre a mesa como só um peixe molhado de saliva poderia fazê-lo: plau! O peixe dá dois ou três saltos, treme o bigodinho lustroso e diz com voz cavernosa olhando para os olhos de Olegário:
- A realidade não existe, vovô.

Postado por Adriano Quadrado em 21 de Março de 2010 às 22:50
Setenta e três vírgula quarenta e nove por cento das porcentagens gostariam de ser pelo menos 34,23% maiores do que os 80,64% que não o querem. Quase 4% dos 20,87% restantes (dentro de ao menos 98,45% do total avaliado de porcentagens) prefeririam mesmo era estar entre no máximo 66,45% e 66,49% das frações percentuais. Ao todo, 11,65% de todos os sinais de por-cento usados nas porcentagens prefeririam ser citados em ao menos em 28,87% das frações.
Purça Porcentino, chefe da divisão regional de porcentagens em frações percentuais, afirmou que algo entre 4,76% e 51,08% das frações seriam mais bem alocadas se ao menos 45% dos 3,21% referentes aos 76,1% restantes do total analisado dos 4% iniciais tomados como base da pesquisa (com margem de erro de dois pontos percentuais para cima ou para baixo) fossem considerados como estando no máximo entre 2% e 4% do universo pesquisado. "Pra mim, se rolar uma comissão de 10% já vai ser 100%", afirmou Purça.
Postado por Adriano Quadrado em 13 de Março de 2010 às 22:16
Estive com Glauco duas vezes em trabalhos do Santo Daime. A primeira delas não esqueço. Foi numa igreja que não existe mais, chamada Flor das Águas, numa cidadezinha da Grande São Paulo. E não me esqueço pelo primeiro impacto do contraste entre o imaginado autor do Geraldão e aquele homem ali compenetrado em seu papel de líder religioso.
Eu lá tomando as doses de Daime, viajando forte, e o Glauco tocando com competência sua sanfona, acompanhando o hinário do Cruzeiro. Alucinado que estava, várias vezes sendo arrastado para muito longe dali pela miração do Daime, eu ficava impressionado como ele e os outros músicos conseguiam ficar firmes e ainda por cima tocar instrumentos.
No intervalo, vi Glauco discutindo com mais dois líderes se haveria ou não missa depois do hinário. A cena que não esqueço: as marcas pretas da correias da sanfona deixadas nos ombros da farda branca de Glauco, ele ali muito sério e eu tentando ainda, no refluxo da miração, entender como o cartunista escrachado e o religioso dedicado conviviam em paz na mente daquele homem.
No dia seguinte ao trabalho, lembro de uma menina vestida de camiseta branca com a estampa da mãe de Jesus e uma frase que dizia assim: "Viva o amor, viva a alegria, viva o Céu de Maria". A frase se referia à igreja fundada por Glauco no Pico do Jaraguá, que eu conheceria tempos depois, na segunda e última vez em que o vi, de novo de sanfona e farda branca conduzindo o hinário.
Dizia-se na época que os trabalhos no Céu de Maria muitas vezes eram difíceis porque ali muitos jovens dependentes de drogas buscavam sua cura. O astral ali, portanto, seria pesado e causaria bad trips durante a miração. Para mim, porém, foi no Céu de Maria a mais agradável da meia dúzia de vezes em que tomei o Daime. Só boas viagens.
Depois dessas experiências no final da década de 1990, só tomei o Daime mais duas ou três vezes, separadas por anos de intervalo, e já faz muitos deles a última vez. Acabei entrando pelo hinduísmo onde bem ou mal estou até hoje. Prefiro que o caminho espiritual prescinda de aditivos. Mas respeito o Daime. Cada um na sua.
Anos atrás, entrevistei Pelicano, o irmão do Glauco, também cartunista e também daimista. Passamos uma hora e pouco conversando agradavelmente sobre o Cruzeiro de dois braços na chácara do Pelicano, em Ribeirão. Ele me deu impressão parecida com a que tive de Glauco, um ex-doido, digamos, que descobriu seu norte na busca espiritual. E, da mesma forma, firme no trabalho com cartum, sem deixar que a vida religiosa o afastasse do mundo civil, como acontece com quem vira fanático.
Agora, essa notícia do assassinato, que coisa, na casa ao lado do Céu de Maria. Eu aqui pensando no astral pesado com que se dizia que Glauco lidava em seu trabalho religioso, essa coisa tendo saído num momento do controle, ricocheteado de forma fatal, fazendo rombo desse tamanho numa família talentosa. Pensando também no que dizem os espíritas sobre a passagem para o lado de lá em situações violentas, do medo e da raiva que isso pode envolver. Mas quero crer que qualquer entrevero astral agora se resolva muito rapidamente.
Que Glauco e seu filho estejam já ou muito em breve na mais brilhante e amorosa das mirações do Céu de Maria. Amém.
Postado por Adriano Quadrado em 11 de Março de 2010 às 14:02
A piaba que Avatar tomou da ex-mulher foi mote mais uma vez para a crítica de uma nota só que se faz sobre o filme. Na terça, dois textos na Ilustrada sentaram a lenha no filme de James Cameron, seguem trechos.
"[Avatar] foi um sucesso até maior que o esperado, recebeu uma penca de indicações e uma pecha de filme 'sério', quando é só um besteirol 'new age', que só vale pelos efeitos" - André Barcinski.
"Não nego que Avatar fascina os incréus com a utilização engenhosa do 3D. Mas a questão passa por saber se o 3D resiste à vulgaridade da história. Não creio." - João Pereira Coutinho.
A crítica de uma nota só é esta e é a mesma: o 3D é bão, a história é babaca, boboca, pueril, previsível, ingênua, por aí vai. Minha tese é bem outra, porém.
A história de Avatar é o embate entre o espírito e o ego do homem, usando a estrutura narrativa da boa e velha jornada do herói, que vem sendo contada desde os tempos arcaicos. A estrutura é muito parecida, por exemplo, com o primeiro filme da saga Guerra nas Estrelas. Senão, vejamos.
1) O herói é colocado na jornada pelo destino/acaso: a morte dos tios de Luke Skywalker, a morte do irmão do protagonista de Avatar, Jake Sully.
2) Ele entra no território fantástico onde a aventura de dará: o espaço sideral para Luke, Pandora para Jake.
3) O herói conhece seu mentor e é treinado por ele: Obi-Wan Kenobi para Luke, Neytiri para Jake.
4) Torna-se o maior dos guerreiros, capaz de fazer o que ninguém mais seria capaz: Luke faz ressurgir a linhagem dos cavaleiros Jedi e derrota o aparentemente invencível Vader, Jake faz ressurgir a linhagem dos Toruk-Macto (cavaleiro da última sombra, esta sendo o dragão alado e feroz que só os antepassados mitológicos podiam montar) e reúne o povo Na'vi contra os invasores.
5) Por fim o herói enfrenta seu maior desafio e sai transformado de sua batalha com a morte, voltando para seu povo como o salvador, o restaurador da ordem ameaçada: Luke explode a Estrela da Morte, Jake lidera a coalisão de seres de Pandora na vitória contra a máquina militar do mal.
Enfim, a história é a mesma, só que Guerra nas Estrelas é tido como um filme ótimo e Avatar, um filme boboca e retardado. Agora, veja, o primeiro é do já vetustíssimo ano do Senhor de 1977 e o segundo é 33 anos mais velho, agora de 2010, nesta alta pós-modernidade galhofeira, era em que nenhuma bandeira mais pode ser erguida sem que joguem ovo ou cocô em que se atrever.
Nestes tempos em que vivemos só se pode ser cínico, blasé, só se pode fazer piada. Contar uma história "com mensagem" é proibido. Não há mais mensagem, não há mais ideologia, não há mais nada em que se acreditar. Qualquer tentativa nesse sentido será vista como brega ou ingênua.
A década de 1970 já se dava na era chamada de pós-moderna, mas esta ainda era muito menos radical do que hoje. Naquela época o mundo ainda apresentava alguma ordem, o muro de Berlim ainda não havia caído, as pessoas ainda tinham seus ideais. Hoje só têm sonhos de consumo.
Quando Guerra nas Estrelas foi lançado você ainda podia contar essa história sobre a luta da porção espiritual, intuitiva, transpessoal do homem contra sua porção egoísta, bélica, materialista. É disso que o filme de 1977 trata, assim como o de 2010.
Em Guerra nas Estrelas, Luke desliga o computador e confia que a Força o guiará contra a máquina militar do Império. Em Avatar, Jake confia que Eiwa (o espírito de Pandora) o guiará contra a máquina militar do império americano. Em Matrix, para citar outro filme, o herói Neo em sua jornada confia que o Oráculo o guiará contra a máquina que dominou a raça humana. O mesmo Neo que também é colocado na jornada pelo destino, recebe treinamento de um mentor (Morpheus), supera a todos, se torna o escolhido e lidera os últimos humanos despertos contra a Matrix.
Ao contrário do que opina João Pereira Coutinho em seu texto, Avatar não fala do homem ocidental contra as culturas primitivas e indígenas, como se estivéssemos expiando a culpa de ter massacrado índios na conquista da América. Não é essa a história do filme, me desculpe.
Não se trata de uma luta de civilizações, mas uma fábula sobre o embate que ocorre no interior do homem, entre seu ego e seu espírito. Enfim, a mesma que está lá em Guerra nas Estrelas, e ambas costuradas ao longo da mesmíssima saga do herói. O problema é que Avatar foi feito numa era cínica e descrente.
Na verdade, Avatar só não é tão bom quanto Guerra nas Estrelas — e aí vem a bomba — justamente por causa da tecnologia. É muito difícil ter verdadeira empatia por um palhacinho azulado de píxel que ainda exige uns óculos escuros sobre meus óculos de míope para que eu o enxergue numa imagem artificialmente entortada para provocar uma alucinação em três dimensões. Muito mais fácil ter empatia pela interpretação de um Alec Guinness em suas roupas monásticas de Jedi.
Ao contrário do que todo mundo disse, a história de Avatar é boa, ruim é o 3D. E ficou fácil de entender como a tecnologia pode matar a graça de um filme quando, 22 anos depois, George Lucas retomou a saga e fez A Ameaça Fantasma (1999), o episódio I de Guerra nas Estrelas, perdendo a mão justamente nas longas sequências feitas exclusivamente no computador. Também por causa do excesso de tecnologia (e aqueles atores meio com cara de bunda contracenando com telas azuis de Chroma Key), o episódio I da saga é muito inferior ao filme de 1977.
Antes de terminar, lanço aqui ainda a suspeita de que se Paulo Coelho tivesse publicado seus livros, digamos, na década de 1930, ele seria hoje considerado um escritor importante e não o analfabeto vil que a crítica pós-moderna vê nele. No mais, O Alquimista é um bom livro, e pode xingar à vontade aí nos comentários. Tchau.