Estive com Glauco duas vezes em trabalhos do Santo Daime. A primeira delas não esqueço. Foi numa igreja que não existe mais, chamada Flor das Águas, numa cidadezinha da Grande São Paulo. E não me esqueço pelo primeiro impacto do contraste entre o imaginado autor do Geraldão e aquele homem ali compenetrado em seu papel de líder religioso.
Eu lá tomando as doses de Daime, viajando forte, e o Glauco tocando com competência sua sanfona, acompanhando o hinário do Cruzeiro. Alucinado que estava, várias vezes sendo arrastado para muito longe dali pela miração do Daime, eu ficava impressionado como ele e os outros músicos conseguiam ficar firmes e ainda por cima tocar instrumentos.
No intervalo, vi Glauco discutindo com mais dois líderes se haveria ou não missa depois do hinário. A cena que não esqueço: as marcas pretas da correias da sanfona deixadas nos ombros da farda branca de Glauco, ele ali muito sério e eu tentando ainda, no refluxo da miração, entender como o cartunista escrachado e o religioso dedicado conviviam em paz na mente daquele homem.
No dia seguinte ao trabalho, lembro de uma menina vestida de camiseta branca com a estampa da mãe de Jesus e uma frase que dizia assim: "Viva o amor, viva a alegria, viva o Céu de Maria". A frase se referia à igreja fundada por Glauco no Pico do Jaraguá, que eu conheceria tempos depois, na segunda e última vez em que o vi, de novo de sanfona e farda branca conduzindo o hinário.
Dizia-se na época que os trabalhos no Céu de Maria muitas vezes eram difíceis porque ali muitos jovens dependentes de drogas buscavam sua cura. O astral ali, portanto, seria pesado e causaria bad trips durante a miração. Para mim, porém, foi no Céu de Maria a mais agradável da meia dúzia de vezes em que tomei o Daime. Só boas viagens.
Depois dessas experiências no final da década de 1990, só tomei o Daime mais duas ou três vezes, separadas por anos de intervalo, e já faz muitos deles a última vez. Acabei entrando pelo hinduísmo onde bem ou mal estou até hoje. Prefiro que o caminho espiritual prescinda de aditivos. Mas respeito o Daime. Cada um na sua.
Anos atrás, entrevistei Pelicano, o irmão do Glauco, também cartunista e também daimista. Passamos uma hora e pouco conversando agradavelmente sobre o Cruzeiro de dois braços na chácara do Pelicano, em Ribeirão. Ele me deu impressão parecida com a que tive de Glauco, um ex-doido, digamos, que descobriu seu norte na busca espiritual. E, da mesma forma, firme no trabalho com cartum, sem deixar que a vida religiosa o afastasse do mundo civil, como acontece com quem vira fanático.
Agora, essa notícia do assassinato, que coisa, na casa ao lado do Céu de Maria. Eu aqui pensando no astral pesado com que se dizia que Glauco lidava em seu trabalho religioso, essa coisa tendo saído num momento do controle, ricocheteado de forma fatal, fazendo rombo desse tamanho numa família talentosa. Pensando também no que dizem os espíritas sobre a passagem para o lado de lá em situações violentas, do medo e da raiva que isso pode envolver. Mas quero crer que qualquer entrevero astral agora se resolva muito rapidamente.
Que Glauco e seu filho estejam já ou muito em breve na mais brilhante e amorosa das mirações do Céu de Maria. Amém.



Se realmente alí fosse realizado um trabalho sério com os dependentes de drogas, talvez muitas tragédias teriam sido evitadas.
Sou jornalista e estou produzindo um documentário sobre o Santo Daime.
Como faço para entrar em contato contigo?
Por favor, me mande um email com seus contatos.
Obrigada,
Regiane Stella
De onde vc tirou isso?
Que outro caso "explosivo" vc tem para nos contar?
Gostaria de saber porque não conheço.
e a Veja ainda diz que a culpa é da sagrada Ayahuasca...
o estado de PAZ em que a pessoa fica quando toma ayahuasca não pode ser culpada por um crime como esse ... só quem já provou sabe como é
Abraços
como sempre seus posts estão de parabéns !
ô, fabi, ;-)
abs