Senta-se o creme do jornalismo brasileiro para discutir o problema do momento: aumentou o número de gentes que dizem que o jornalismo é outra coisa e não aquilo. De pé o temível Linhares, comandante-em-chefe da Bonitinha de S.Paulo, famoso em todo o país pelo recorde de demitir cento e doze repórteres num mesmo dia. Pigarreia e diz:
- Senhores, estão querendo funfar com o jornalismo brasileiro. Toda a teologia da objetividade que construímos com fúria e suor agora foi posta em cheque pelas gentes. É mister que nos sacudamos!
Doutor Olegário, vovô de 213 anos e patriarca do jornal O Ombrinho de S.Paulo, levanta-se sobre o andador e todos já esperam por frases de antão.
- Concordo, querido Linhares. Temos de deter as gentes antes que elas ponham a perder o patrimônio jornalístico nacional. Lembremo-nos de Alberto Queijinho e de sua cruzada pelos bons costumes na tevê. As gentes nos tomam por cobardes, estão muito enganadas. Esmoreceríamos fôssemos uns tangas frouxas, mas não o somos. Vamos pôr nos vãos das gentes!
A plateia de terninhos ensaia o aplauso, mas não dá tempo. Assim que termina de falar, doutor Olegário dá um arroto e corcoveia pra frente como se tivesse tomado um coice no estômago. Cospe e urra, a baba escorrendo pela boca, as unhas fazendo trilhas na mesa de mogno escuríssimo.
É quando salta de sua boca um enorme bagre fosforescente, desabando sobre a mesa como só um peixe molhado de saliva poderia fazê-lo: plau! O peixe dá dois ou três saltos, treme o bigodinho lustroso e diz com voz cavernosa olhando para os olhos de Olegário:
- A realidade não existe, vovô.



