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Bezerrinhos de durepóxi

Postado por Adriano Quadrado em 03 de Agosto de 2009 às 19:01

 

Deu o que falar a coluna de Juca Kfouri, na Folha, sobre o proselitismo no futebol, que, entre outras, desenca a "enlouquecida pastora casada com Kaká, uma mocinha fanática, fundamentalista ou esperta demais para tentar nos convencer que foi Deus quem pôs dinheiro no Real Madrid para contratar seu jovem marido em plena crise mundial". A citação entre aspas é literal.

Acabei de checar. O post no blogue do jornalista tem agora 452 comentários de internautas, aplaudindo ou criticando o ataque. A coluna dos leitores da Folha recebeu outro monte de cartas motivadas pelo artigo.

Eu, se fosse clicar na caixinha de comentários, aplaudiria o texto. Também acho um saco essa história de I belong to Jesus etc, que certas igrejas evangélicas (não todas) insistem em berrar por aí.

Para começar, acho esses religiosos vergonhosamente contraditórios. Estão sempre com a bíblia debaixo do braço, citam versículos de cor e se orgulham de seguir ao pé da letra "a palavra de Deus". Ao mesmo tempo, fazem vista grossa sobre a palavra e passam o tempo todo falando de bens materiais. Ah, porque Zezinho aceitou Jesus e hoje tem um carro importado, glória a Deus.

Não sou evangélico - aliás, nem cristão sou - e também não sei citar o versículo. Mas me lembro bem de uma passagem em que Jesus diz ao fulano que dê todos seus bens materiais aos pobres e que o siga sem nada levar. Termina a história dizendo que é mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha do que o rico entrar no reino dos Céus.

Não é assim? Mas o evangélico (não todos) passa convenientemente por cima dessa parte, até porque o dono igreja vive na opulência graças às doações dos fiéis e, portanto, precisa justificar como "Deus está atuando na vida daquela pessoa" ao arrumar pra ele um carro bacana com opcionais de fábrica.

Outra que não vou saber citar, mas lembro. A de que o fulano deve fazer sua prática espiritual em silêncio, discretamente, e que deve passar perfume e ser todo sorrisos quando jejuar, em vez de fazer show da austeridade. Mas o fanático adora se anunciar crente e relatar suas atividades na igreja.

Acho também uma religião triste em alguns aspectos. Três exemplos:

Uma vez um menininho crente me mostrou um gibi da Mônica e disse que aquilo - as formas humanas dos personagens - era obra do demônio, já que não haviam sido feitas por Deus. Ou seja, ele condenava por tabela todo tipo de arte ou criatividade humana.

Depois a birra com imagens, coisa mais chata e constipada. O homem sempre fez imagens de deuses para se sentir próximo deles, para poder tocar, beijar, adorar. Não para reduzir Deus a um bonequinho infame, mas para poder percebê-lo com os sentidos. A imagem do Cristo não é obra do demônio, de idólatras, essa cantilena toda. É só um símbolo do Cristo e que pode, como tal, ser adorado, por que não?

(já ouço o fanático citando aquelas passagens na segunda pessoa do plural: não farás imagens de bezerrinhos de durepóxi etc...)

Por fim, a desgraça retumbante do crente cinturinha dura, a inexistência da Mãe Divina. Que coisa mais triste não poder se aproximar de Deus na forma de mãe, como Nossa Senhora para os católicos, como Durga ou Kali para os hindus, como Tara para os budistas.

A fúria fanática e desrespeitosa contra essas duas coisas - imagens e Mãe Divina - foi materializada pelo episódio daquele pastor que chutou a santa.

Com essa tristeza toda, explica-se o proselitismo, enfim. O fanático só está tentando convencer a si mesmo de que aquela filosofia repressora, careta, fanfarrona e burra é a coisa certa a se acreditar.


O fanático não entende que esta palavra de cinco letras, J-E-S-U-S, também é um símbolo, uma "imagem acústica", como diria o semiólogo...

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Bonequinha russa*

Postado por Adriano Quadrado em 30 de Julho de 2009 às 14:42

 

- Então você quer me dizer que eu não existo?
- Mais ou menos isso. Na verdade, não há nada que prove que você realmente exista.
- Eu penso.
- Ah, não me venha com Descartes! Descartes é um mito, é que nem saci, que nem curupira.
- Cala a boca!
- Juro. Talvez você e o mala do Descartes sejam apenas o sonho de uma lontra. Quem garante?
- Pelo menos eu existo enquanto sonho.
- E se a lontra não se lembrar do sonho depois que acordar? Você sonha várias vezes todas as noites e só de vez em quando se lembra. Onde foram parar seus sonhos, eles existem de fato, chegaram a existir?
- Bem, segundo sua teoria, tanto faz. É só o sonho do sonho de uma lontra, aliás, o sonho do sonho que a lontra sequer lembrou.
- Isso, um nada! Você não é nada, nem existe se marcar. É que nem um personagem de ficção. Como se eu inventasse qualquer coisa agora... como se eu dissesse "o cachorrinho Antrax estava muito a fim de desonerar os intestinos, mas, quando chegou perto do poste, pisou numa mina terrestre da Segunda Guerra e explodiu multicor". Tipo isso.
- Que loucura é essa?
- Tanto faz o que é. O cachorrinho Antrax não existe. É só um sonho de ficção dentro da cabeça de sonho do sonho da lontra, entendeu?
- Então a gente é um personagem de ficção? Um cachorrinho Antrax?
- É!
- Como se a gente fosse só a invenção de uma lontra?!
- É. Ou o texto de alguém.
- Como assim?
- Assim mesmo. Você já pensou na hipótese de que a gente é só um texto? Ouve, presta atenção. De repente a gente escuta o barulhinho de alguém teclando, inventando a nossa história.
- Pára com isso, dá até medo de pensar!
- Haha. O medo de mentirinha do personagem de ficção do escritor que só existe no sonho esquecido de uma lontra qualquer dentro do universo que nunca houve...
- Ah, vá à merda, cara! O que você anda tomando?!
 

* Um dos contos reunidos num livro meu, chamado Os Nomes e nunca publicado. O livro foi vencedor da categoria ficção do Projeto Nascente, da USP, em 2004.

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Cross food

Postado por Adriano Quadrado em 28 de Julho de 2009 às 12:08

 

Mui lindas as cousas: pizza de sorvete, esfiha de catupiry, feijoada de proteína de soja, caviar de sagu, macarrão de arroz. Niqui pregunto aos cross chefs se eles não encarariam testar minhas sugestões: estrogonhoque, baião de dois queijos e, sobretudo, o incomparável temaki de pizza de chocolate branco de soja orgânica transgênica - um paradoxo em si mesmo, tal qual o xis tudo.

Agora, o que não entendo é a obediência dos verdes à tradição carnívora: hambúrguer de soja, frango de soja etc. Se é de soja, pô, por que não tiranossauro de soja, mangusto de soja, ornitorrinco de soja? Povo mais sem criatividade...

No mais, não consigo escrever posts sobre rangos sem lembrar que x-frango em Santos (SP) se chama "x-goleiro". E que, em Cananéia (SP), há um boteco que vende, atenção, o "x-misto", sanduba  que - apesar do anglófono querer achar que é uma fatia de ham para duas de cheese (a do "xis" e a do "misto") - é composto na verdade de hambúrguer (xis), mais presunto e queijo (misto). Muita criatividade desse povo!

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A coisa mais superestimada do mundo

Postado por Adriano Quadrado em 23 de Julho de 2009 às 19:53

 

O futebol, claro. O futebol é a coisa mais superestimada do mundo.

Não que não seja legal, veja bem. É bacana. Não dá para negar que pode ser divertido curtir uma copa do mundo, uma final de campeonato. Assim como é divertido, digamos, assistir à maratona de Nova York.

Mas por que tanto tempo, teoria e tinta gasta com futebol? Tem gente que se mata por causa do futebol, meu deus.

Tudo em relação a ele é superestimado. Por exemplo, a importância dada à experiência do jogo ao vivo, no estádio. Tratam a coisa como se fosse sublime, sagrada, falam em deuses da bola, catarse das massas.

Mas ir ao estádio para mim, na meia dúzia de vezes em que o fiz, sempre foi algo entre angustiante e deprimente, aquele monte de homem falando palavrão sem parar, mijando em copos de plástico, arrumando briga.

Não vou mais a estádios, dificilmente vejo um jogo inteiro na TV e não ligo mais para o time que meu avô me ensinou a gostar. Se ele perde ou ganha, não faz diferença alguma na minha vida.

Mas, veja, insisto, até gosto quando o time do meu avô ganha. Sou capaz de curtir um jogo de vez em quando, tive e ainda tenho admiração por alguns craques.

Não é que o futebol seja ruim. À distância e sem peludos gritando palavrão entre perdigotos, dá pra ser feliz com ele. E definitivamente é muito divertido jogá-lo. Ele só é assim... superestimado. É isso.

A segunda coisa mais superestimada do mundo é o sexo. Mas sobre isso eu falo outra hora.


ps - e não é q o time do meu vô umberto deu um chocolate no clássico... ;-)

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Dalit

Postado por Adriano Quadrado em 21 de Julho de 2009 às 18:28


Outro dia vi matéria na TV sobre os intocáveis indianos. Mostrava em tom de crítica como os meninos sem casta não podiam ir à escola, coisas do gênero. De fato, a história é triste e vale a crítica. Duas observações a fazer, porém.
 
Primeira é que, no sistema de crenças dos hindus, existem a reencarnação, o karma e o dharma.

Eles acreditam que as ações (karma) da pessoa na vida anterior determinam as condições do nascimento da atual vida. Daí a pessoa nascer sacerdote, comerciante ou sem casta, podendo perfeitamente mudar de status em encarnações subsequentes.

Acreditam também que cada pessoa tem sua função e seu caminho na vida (dharma). E que cada um está certo a seu modo, em seu devido lugar, desempenhando o trabalho que lhe cabe, seja ele lavrador, guerreiro ou limpador de latrinas.

A filosofia está muito bem colocada no ótimo livro chamado Bhagavad Gita, o equivalente hindu ao novo testamento cristão. O texto é, da mesma forma, o relato dos ensinamentos de uma encarnação divina. Só que, em vez de Cristo, Krishna.

Isto posto, é claro, a teoria na prática é outra. Na Índia, os arianos, ao conquistar outros povos, colocavam o pessoal na canga para fazer o que ninguém queria fazer, como limpar latrina ou trabalhar de açougueiro.

Os dominados ficavam fora do sistema hindu-ariano e, portanto, não tinham casta. A ignorância, o preconceito e a superstição acabaram por tornar os sem casta e seus descendentes em intocáveis, verdadeiras aves do mau agouro.

A segunda e óbvia observação a se fazer é que ignorância, preconceito e superstição infelizmente são trecos muito democráticos e afligem a todos os povos, inclusive aos brasileiros.

Sempre levo meu filho para brincar no parque Luiz Carlos Raya, no Jardim Botânico. É o playground da burguesia que mora ali perto. No parque, só há gente branca e rica, crianças bem nutridas e bem vestidas, com brinquedos vários e caros.

Ali os dalits não entram. Ou melhor, entram, e novamente para fazer o serviço que ninguém quer fazer: limpar os banheiros, alimentar os patos, fazer a segurança.

Entram também como as babás acanhadas, vestidas de branco, que largam o filho em casa para cuidar dos bebês da burguesia. Cuidam dos bebês, mas não beijam as crianças. Beijo de dalit nem pensar. É sujo ou dá azar.

 

 Dalits em Jaipur, India. Foto: Thomas Schoch/GFDL

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