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Blog de Adriano Quadrado

O ataque dos peludos

Postado por Adriano Quadrado em 04 de Janeiro de 2010 às 00:19

 

A tarde da véspera do ano novo é surreal. Um congestionamento monstro nas estreitas ruas da pequena vila praiana. Carros enormes como tanques de guerra, de dezenas de milhares de reais e muitíssimos quilos, pretos, com vidros escuros fechados, ar ligado, ventoinha girando, todos parados zumbindo numa fila que não se move sob o sol do aquecimento global. Quem passa ao lado, a pé e sem pressa, vence fácil a breve distância, mas os tanques de guerra de muitos cavalos só podem zumbir impotentes, sujando o ar da praia.

A noite do último dia chega e nada parece indicar que aquele seja um bom jeito de se terminar o ano. Mas há a "mega da virada", senhoras e senhores. Lá vai o peludo de sunga e lata de alumínio na mão, vermelho de sol e cervejas várias, grunhindo de excitação porque é hora do sorteio na tevê. Trancado na alucinação da mente, que o mantém separado da unidade da vida, o peludo acha que a loteria o salvará de seu inferno. A natural satisfação interior foi abafada pelo barulho incessante da mente símia e agora só lhe resta a esperança idiota de que coisas externas possam tapar o buraco que ficou. De preferência muitas coisas, que só milhões podem comprar. O diabo é que na mega só há uma chance em 50 milhões e obviamente o macaco não leva a bolada. O ano escoa em suas últimas horas como correu em todos os seus dias, em pesada angústia.

Mas sorriamos, aproxima-se a meia-noite. O peludo joga um pano branco sobre sua carne quente, com os olhos trincados depois de tanto beber. Fogos intermináveis assustando todo o ser que não os macacos humanos, cuja festa tem o mesmo som da guerra. Só que a chuva vem cedo e a horda que tomou como peste a praia agora se apressa em deixar a areia. As mesmas vielas antes tomadas pelos tanques de guerra agora são invadidas pelo exército em retirada de símios apressados, vermelhos e de branco. O álcool fez bem seu serviço e desligou o córtex. Deixou o primata à mercê da porção reptiliana do seu cérebro, que já é curiosamente ativa nessa espécie peluda. Ele está mais violento e mais inconsciente do que de costume. As muitas ruelas que saem da praia para a vila fluem em rios de macacos bêbados e perigosos, soltando mais bombas ensurdecedoras em becos e urrando para céu.

Uma volta pela praia revela o cenário de devastação. Montanhas de lixo deixadas pelos peludos na areia: cascos fedidos de morteiros, pedaços de roupa, velas, embalagens de comida, flores esmagadas e montes de garrafas, copos plásticos e latas de alumínio. Sobre os escombros, muitos ainda resistem, ouvindo altíssimas as músicas com letras cretinas, ainda berrando, ainda vermelhos, sempre reptilianos-primatas, macacos-lagartos. Mentes equivocadas e dancinhas infames sobre a praia suja. O som da consciência trazido pelo movimento gentil do mar é massacrado pelo popozão.

Na volta ao bangalô praiano, o peludo vermelho de branco, todo macaquito-serpente-calango-bugio, liga a tevê com a enésima latinha na mão. Na tela, a velha notícia da tragédia, desta vez na tempestade da mudança climática. Muitos mortos, o ano novo será tão trágico, sem sentido e angustiante como todos os outros. Muitos e muitos mortos: calamidade. Haverá assunto para se encher páginas e grades televisivas, que bom. Muitos mortos e o babuíno acha que não se assombra: antes eles do que eu, sopra-lhe o ego insano em sua alucinação de separação.

De fundo, aquele constante zumbido que o macaco, se prestasse atenção, pensaria ser dos fogos ou da cerveja, mas são do ranger das placas tectônicas de angústia que se movem dentro dele, a enorme massa de insatisfação e negatividade mal escondidas pela celebração barulhenta da virada, pela promessa canalha de felicidade da propaganda que passa agora na tevê, logo depois do show dos mortos. E são muitos os mortos, que bom, haverá assunto de sobra para ocupar os buracos entre as propagandas. Afinal, a mente que se pensa separada da unidade terá de consumir muito no ano novo para tentar silenciar o zumbido incômodo de sua desgraça autocriada. Muitas compras de coisas inúteis, muitas embalagens tóxicas e muita cerveja, minha gente, para fazer deste um brasil grande.

Inconsciente e equivocado, o macaco capota fedido e rubro sobre o beliche para acordar de ressaca no ano novo. A tempestade-resposta da terra contra o exército barulhento de peludos alucinados inunda o primeiro dia do ano. É assim o dia inteiro, galões de litros de água jorrando do céu. No planeta dos macacos —que ironia— falta água. A vila praiana está com as torneiras secas depois do assalto da horda. Não houve reservatório que chegasse para o consumo pornográfico dos gorilas. O dilúvio despencando do céu e o macaco sem água para escoar seus dejetos de ressaca boiando fedorentos no vaso.

O peludo urra para o céu porque a vida é cruel: aaaaahhhrrrgggunóffgruurrhr. Ressacado, sem banho, aviltado por seus próprios excrementos, errando feio os números da "mega da virada", o bugio-lagartixa-suricato-gibão-mangusto vai mais cedo para casa, pegar oito horas de congestionamento preso em seu tanque de guerra de duas toneladas. Mas há a cerveja, há o shopping, ufa! Ele quase se convence de que abafará as placas rangendo de angústia dentro de si quando pensa que ainda pode fazer compras e tomar um pifão no domingo. Pobre bichinho.

 

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Blogue é fado

Postado por Adriano Quadrado em 28 de Dezembro de 2009 às 11:32

 

Agora os blogues têm dessas de categorias. Que inferno. O fulano, além da tarefa ingrata de manter um blogue (isto é, algo que ninguém lê), ainda fica queimando a pestana para enquadrar seus posts em categorias. Tudo culpa do sangue ruim do Aristóteles de Estagira, o primeiro caso crônico de transtorno obsessivo-compulsivo da história, ele e as malditas categorias-gavetinhas-virginianas dele, aquele fio dua égua. E eu boto este meu post em que categoria? Na categoria "Filósofos que sofrem de TOC", na categoria "Óteles, óteles, óteles, pau no couro do Aristóteles", ou na categoria "Blogue é fado"? Sugestões serão bem vindas.

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Eat bananas all day

Postado por Adriano Quadrado em 28 de Dezembro de 2009 às 00:06

 

Relaxar ou tensionar os ombrinhos, eis a questã (sic). Porque, comparado com bichos e aranhas e sóis, passarinhos e flores e piupius, sempre serei um macaco.

Aí a verdade, me acho tão sofisticado mas não sou melhor que os animais sentados no zoo. A única hora em que me sinto bem é quando subo e desço do coqueiro, humpf... (não me sinto seguro neste mundo no more, nem quero morrer num cogumelo atômico, socorro).

Acho que sou muito bacana porque vivo minha vida como um bom homo sapiens. Acho que sou educado e civilizado porque sou um vegetariano. Mas —eis tudo, eis tudo— se tu topares ser minha moça-mico tudo se ajeitará: te esquento, me sanas, voilà.

E ouviremos a cançã (sic). E cantaremos juntinhos a letra da cançã. Chuque-chuque-baibai.

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O construtor de casas*

Postado por Adriano Quadrado em 11 de Dezembro de 2009 às 00:05

 

Quando Sidarta tornou-se o Buda, conta a tradição, ele finalmente pôde se ver livre do que poeticamente foi chamado de o "construtor da casa", isto é, os resquícios de desejo e aversão, os condicionamentos mentais não superados que provocavam a sucessão de encarnações. A cada morte seguia-se um novo nascimento, um nova casa para apriosionar a alma, forjada a partir dos apegos e repulsas colecionados na vida anterior.

Anos depois de ter saído de seu palácio em busca do fim do sofrimento, Sidarta, agora Buda, cumpria finalmente a missão a que se propôs, de se libertar de todas as amarras, de todos os condicionamentos, de tornar impotente o construtor de casas. Assim segue a música, contando o que teria dito o Buda após a iluminação:

Tantos nascimentos tive neste mundo,
Buscando em vão pelo construtor desta casa,
Procurando e procurando,
Tomei novo nascimento, novo sofrimento.

Ó, construtor de casas, agora te vi,
Não podes mais erguer uma nova casa para mim.
Todas as vigas foram quebradas, a cumeeira foi despedaçada,
Minha mente está livre de todo o condicionamento do passado
E não tem mais qualquer desejo pelo futuro.



* O post anterior me inspirou a fuçar no velho hd em casa e achar este texto publicado em 5/12/05, num antigo blogue chamado yoga & meditação.

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Buda mimado

Postado por Adriano Quadrado em 08 de Dezembro de 2009 às 17:56

 

Aí o povo diz que não devo dar moleza ao meu guri pra ele não ficar manhoso e infeliz quando crescer, com "baixa resistência à frustração". Finjo que sou brabo e brigo de brincadeirinha com ele. Na verdade, não ligo quando meu filho me dá um murro nos ovos, acho bacana e tudo, atitude afirmativa e o carvalho, mas não posso. Então penso em Buda, o cara mais mimado da história, que não se fez de rogado.

Diz  a lenda que o pai do príncipe Sidarta mimou o filho pra estragar mesmo. No palácio, só gente jovem e bonita, rango à vontade, cerveja Guinness, baladas intermináveis, pamonha da lata e mulheres seminuas fazendo guerra de travesseiros de seda. Todo traço de velhice, doença e morte foram mantidos longe da vista do pequeno príncipe.

Mas ele, segue a lenda, certo dia conseguiu furar o bloqueio imposto pelo pai e foi além dos muros do palácio. Viu velho, doente e cadáver, todos pela primeira vez na vida, que ele descobriu ser ingrata. Largou tudo disposto a encontrar o remédio para o sofrimento e assim o fez, tornando-se talvez o homem mais perfeito a andar sobre a terra.

E eu vou cá ficar chateado com um peteleco nos ovos? Pô, deixa o moleque.

 


O Iluminado prestes a me dar um peteleco pelo post infame

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