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Ifá

Postado por Adriano Quadrado em 16 de Novembro de 2009 às 11:39

 

Quando atravessou o portal da realidade-geleia, Tanidíase era moça de dezessete anos, coitada. Não pelo tempo de vida, claro, mas pelo nome: Tanidíase. Um certo som de moléstia infecciosa no nome, um desgosto, um dessabor de falar essa palavra esquisita.

Num domingo, nasceu para ser registrada Tanidíase de Oliveira Spuns. O Spuns por si só já era um caso à parte, por causa do mulher-colher, mas a bronca mesmo era com o Tanidíase, jeito, som de coisa estranha, absolutamente sem razão. Preferia ser chamada de Dani. Era perguntar seu nome e ela dizia Dani. O problema é que era frequente alguém dizer "adoro Daniela", ou então perguntar "Daniela ou Daniele?", e aí a confa constrangedora se instalava.

"Poxa, meu nome nem é Daniela, é Tanidíase", dizendo quase como pedindo desculpas, encolhendo os ombros e apertando os olhos, como quem espera por uma paulada nas costas. Pobre Tani, digo, Dani.

A senhorita Spuns compartilhava sua sina com outros dois irmãos: Claustério e Mofagom. Mas, sabe como é, homem tem direito de ser estranho. É, homem pode se vestir mal e ter pança, sempre haverá alguém que o queira assim mesmo. Mas mulher não. Mulher sempre tem de andar bonita, cheirosa, bem vestida, cabeluda, feliz. Sempre tem de ter nomes que despertem felicidades, sons como Renata, Paula, Flávia, Lucila, Cristina. Então os irmãos Claustério e Mofagom se constrangiam, mas nem tanto, mesmo porque o primeiro era chamado de "Piu" e o segundo de "Louro", como se fossem dois pássaros da fauna tropical, pois pareciam mesmo uns passarinhos na leveza de cabelitchos esvoaçantes.

E se alguém perguntasse "por que Piu?", o menino-sanhaço dizia "porque sim, ué", com a despreocupação autossuficiente que os machos da espécie são treinados a demonstrar. Só que a senhorita Spuns desgraçadamente não desfrutava da mamata: ensinaram-lhe que mulher tinha de se justificar.

Uma coisa ela adorava fazer: inventar nomes gozadinhos. Havia, na verdade, duas coisas que ela adorava fazer: "campeonato de cabelo" com as amigas e inventar nomes esquisitos para os soldadinhos do irmãos Piu e Louro. O campeonato de cabelo, elas faziam quando se empamonhavam. Eram todas cabeludas e, quando chapadas, ficavam em frente ao espelho da cômoda da mãe da Clarinha bolando penteados malucos. Ganhava o que provocasse mais risadas nas meninas. O outro passatempo era solitário e secreto. Abria o velho baú de brinquedos dos irmãos e ficava conversando com os bonequinhos, inventando nomes para eles, palavras bem diferentes e engraçadas: Tidó, Mitufo, Tadisleu, Minotauro Jones, Fulipamanacã, Tat-Sum-Dum, Camicase dos Pobres, Milho Chicago, Bisgotinho, Tendeiro de Dona Mufá, Minuto Secreto, Pimbum Dourado, Sagiquinho, Dodão e também Alberico, disparado o nome mais comum de todos.

Dani era mesmo uma mulher muito inteligente, criativa e sensível. Gostava muito de morar dentro de seus pensamentos e sonhos, sendo para ela um choque voltar ao mundo onde as pessoas a chamavam de Tanidíase. Era como uma pancada violenta. O nome, quando dito pelas pessoas que o estranhavam, isto é, quase todo mundo, provocava um peso, uma pressão na nuca, na medula. Era horrível. Mas no mundo dela, onde os bonecos tinham nomes mais estranhos ainda, tudo estava bem e a salvo da sanha gozadora de Alessandras, Pedros, Marianas, Mários e Andreias, pessoas que tinham a sorte de ter um nome ordinário.

Um momento transformador na vida da jovem Spuns foi quando ela descobriu os nomes dos orixás do candomblé. Eram tão lindos, absolutamente maravilhosos, sonoros, coloridos e saborosos: Iansã, Ogum, Ogunjá, Xangô, Oxumaré, Tempo, Oxalá, Iemanjá e, principalmente e acima de todos, Ifá, o nome do jogo de búzios da Umbanda. Como era lindíssimo esse: Ifá.

Ela repetia com toda a intensidade dentro de seu coração e de sua mente: Ifá, Ifá, Ifá. Que maravilhoso esse som! Como ela adorou tudo aquilo, como quis morar na nação iorubá dos sons perfeitos.

Mas sempre tinha de voltar para o mundo dos sons comuns, onde estranhamente se chamava Tanidíase. Por isso, acabou optando por Dani mesmo. Muitas vezes passava batido, nem todos lhe diziam que gostavam de "Daniela" e ela não precisava encolher os ombros esperando pela paulada.

Se era bonita ou feia, não se permitia tanto conjeturar, pois o nome Tanidíase a dominava por completo com uma força tirana, sólida de aço eterno. Há força no nome. Aprendera que o mundo todo fora criado depois que o Criador moveu seus lábios. O som Tanidíase moldou-lhe, portanto, a vida e as experiências fundamentais da sua existência. Até o dia em que tudo isso mudou.

Foi como o nada, o inesperado, algo que poderia nem ter acontecido, mas que aconteceu. Foi ouvindo o álbum branco dos Beatles, bem na música Rocky Racoon, que ela entrou no mundo da realidade-geleia.

A música contava a história de uma menina que tinha três nomes. E naquela hora o tempo prendeu o fôlego:

Her name was Magill
And she called herself Lil,
But everyone knew her as Nancy

Quando Dani escutou isso, ah, ela voou. Entendeu que aquilo era um déjà-vu que tinha anzol no passado, na cabeça do Paul, através de um esquema quântico qualquer que permitiu a ela, antes de ter nascido, entrar na cabeça dele e soprado a moral da história, no caso da sua própria história: a da menina dos nomes.

Quando entendeu isso, houve um estalo no tempo, como as vigas de madeira que se ajeitam na madrugada de uma velha casa. As paredes começaram a brilhar de forma diferente aos olhos da jovem Spuns. Todo o mundo parecia que começava a se liquefazer. Começou a virar geleia, tudo: parede, armário, cd player, espelho, cômoda, cama, porta-retrato, luzes, chão, ar.

Dani então percebeu que poderia moldar a realidade como quisesse, nada havia que não fosse inteiramente modelável, como geleia, como os infinitos sons dormentes na língua do Criador. Aí, feito o feiticeiro Juan, ela parou o mundo e mudou seu nome, portanto sua história.

Decidiu se chamar Ifá.

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Wikipedia de papel

Postado por Adriano Quadrado em 26 de Outubro de 2009 às 16:55

 

Saiu daqui.

PS - Penso nos e-books como o Kindle e vejo meus livros na estante como futuras peças de museu, como já são meus vinis empoeirados, minhas fitas cassete e as de VHS.

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Gaia e Curupira

Postado por Adriano Quadrado em 20 de Outubro de 2009 às 17:02

 

Minha mulher, vira e mexe, chama de "Gaia" o parque "Doutor Luís Carlos Raya". Isso porque ela se confunde com o proximidade dos sons Gaia e Raya. Erra, mas acerta. Acho Gaia um nome muito mais legal.

Não sei nada sobre o Doutor Raya, mas Gaia é o nome da mãe Terra. Muito mais apropriado para um parque, portanto. Assim como Curupira, a entidade indígena que vive nas matas.

De novo, não conheço muito sobre Luiz Roberto Jábali. Quando me mudei para Ribeirão, o ex-prefeito já havia morrido. Não sei se seu governo foi bom, se ele era querido na cidade.

Mas acho chato terem trocado o simpático nome do parque "Curupira" para o prolixo e sóbrio "Prefeito Doutor Luiz Roberto Jábali".

Agora querem tirar o nome "Presidente José Sarney" do viaduto. Antes nem tivessem dado o nome. Se o viaduto se chamasse "Tarde de Sol", por exemplo, não precisariam mudar.

Mania essa de pôr nome de gente nas coisas, sobretudo se for político ou doutor. Por que não Gaia, Curupira? Ou Lua Cheia, Tarde de Sol, Amor Eterno, sei lá. Hippie talvez. Só que eu prefiro a lua cheia a um político. Infinitamente mais.

 


Uma imagem da deusa Gaia pescada na internet...

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Descubra por que você não existe*

Postado por Adriano Quadrado em 21 de Setembro de 2009 às 17:32

Na aula da última quarta (mestrado em jornalismo), discutimos mil cousas, várias sobre o quanto nada existe. Explico.

Contou-se lá a história de uma experiência que fizeram com uma planária. A planária, talvez você saiba, é um platelminto precariíssimo; um escargot comparado a ela é gênio. Segundo o cara que contava a história, a planária tem apenas dois, leia bem, dois neurônios. Se se chamam Tico e Teco, como os da loura burra, não se sabe. Sabe-se apenas que são dois. O bicho é tão básico que se você cortá-lo no meio ele se transforma em duas planárias.

Não obstante, o bicho é capaz de abstração simbólica, por incrível que pareça. A experiência foi pegar a protolesma e lançar sobre ela um flash luminoso, dando na seqüência um choque elétrico. O choque faz o bichinho estremecer, coitado. E assim foi se fazendo sucessivamente até que, uma hora, o bicho já começava a tremer só com o flash, mesmo sem dar o choque, como um cachorro Pavlov do mundo dos bichos asquerosos.

Isso quer dizer que a planária conseguiu substituir simbolicamente o choque pela luz do flash. Fez uma representação simbólica com apenas dois neurônios. O ser humano tem 100 bilhões, então daí já se começa a sentir o drama: vá pensando quantas representações simbólicas você consegue fazer.

Entretanto a questão não é nem quantas se pode fazer. A questão é que você faz representação em cima de representação, uma sobre a outra, sucessivamente, afastando-se cada vez mais do "real".

Um exemplo que o cara deu na lousa. No início você concebe as quantidades com "pauzinhos", assim pode fazer montinhos com um, dois ou três unidades, assim: I, II, III. Isso já é uma representação simbólica dos números naturais, mas você continua: 1, 2, 3, algo mais ambicioso semiologicamente falando. E assim segue, chegando a abstrações como um número ao quadrado, do tipo: 10². Até que uma hora se chega a signos para coeficientes como "delta", simbolizado como um triângulo. E dá-lhe representação sobre representação sobre representação.

É como a linguagem de máquina, composta de zeros e uns, sobre a qual há a BIOS, depois talvez o DOS, depois o Windows, depois os aplicativos, de forma que o programador nunca escreve o código com zeros e uns, mas com signos que depois serão traduzidos nas entranhas da máquina. O "real" é apenas o sinal 0 e o sinal 1. Aliás, estes também são signos. O real é só o passar ou o não passar da corrente elétrica pelo circuito, mais nada.

O homem constrói sua concepção de mundo sobre cadeias extremamente complexas de representações simbólicas. Isso não é tudo, pois elas se combinam e se cruzam entre si, muito além do ground zero do real. Tal é o que fazemos agora, eu transmitindo impressões ao seu cérebro através de um código simbólico de 23 símbolos gráficos, as letras do alfabeto usado no código lingüístico chamado português.

Então tudo o que você pensa é representação simbólica. O que você valoriza, curte, despreza, venera, inveja, almeja, ama, tudo, tudo é só uma cadeia vertiginosa de representações semiológicas entrecruzadas a se retroalimentar sucessivamente num processo infinito.

Assim as pessoas passam por "fases", ouvem um tipo de som, depois passam para outro. Andam com uma turma, depois acabam achando que aqueles colegas estavam com nada. Entram em seitas, depois saem achando tudo um sonho irreal. Isto porque tudo é construído sempre muito acima do "real". E ainda há gente que diz que talvez nem o mundo físico seja real, apenas um plano de sonho dentro das infinitas possibilidades da mente universal.

Ou seja, meu amigo, você não existe! Se isso é bom ou ruim, não sei. Há um modo otimista e outro pessimista de se olhar para a impossibilidade do real. Mas elas também serão sempre representações simbólicas.

* Post publicado originalmente no blogue quadrado.com às 21h20 de 29 de abril de 2004

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Loucuras inofensivas

Postado por Adriano Quadrado em 17 de Setembro de 2009 às 18:34

Edito a coluna do Morandini no jornal. No espaço, não cabem todas as notas que ele nos manda. Todo dia, então, guardo o que sobra num TXT e jogo na pasta "morão para domingo", notas que, como se imagina, serão publicadas na coluna extra do domingo. Esses TXTs sempre ganham nomezinhos engraçadinhos e/ou idiotinhas que crio para minha própria folgança e facécia. Neste momento, estão lá na pasta do desktop os seguintes ficheiros: "depois que mataram a jiboia sem acento.txt", "nananinanílson.txt", "nosocômio pouco meu pirão primeiro.txt" e "zie e zii.txt".

Nunca tomei remédio pra cabeça. So far.


 

 

PS - A coluna me é enviada diariamente pelo Play.

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