Abaixo, trecho do meu livro no qual Tiri teve o seu destaque.
Poucos profissionais têm uma identificação tão
forte com o Botafogo, como Milton Bueno, o popular
Tiri. A sua história se confunde com a própria
história do Botafogo. Foram 37 anos dedicados ao
clube, dos quais sete como jogador e 30 como auxiliar
técnico, supervisor de futebol e treinador.
Tiri nasceu em 15 de março de 1936 em Jaú,
onde começou a jogar futebol no XV de Novembro.
De lá foi para o Jaboticabal Atlético Clube, ficando
até 1959, quando então foi comprado pelo Botafogo
por Cr$ 500,00, um valor alto para os padrões da
época. Tiri chegou ao clube indicado pelo massagista
Cláudio Mascaro, que o conhecia de Jaboticabal.
Tiri integrou-se oficialmente ao Pantera em 5
de outubro de 1959, com 23 anos. Como jogador
sempre foi um guerreiro em campo. Apesar de não
ter sido dotado de grande técnica, se superava com
muita disposição e virilidade, sem ser violento. A
regularidade era sua marca.
Teve a oportunidade de jogar ao lado de grandes
nomes como Veríssimo, Da Silva, Alex e Rezende.
Integrou o timaço de 1960, em companhia dos irmãos
Antônio e Benedito Julião, Machado, Zuino,
Henrique, Antoninho, Géo e Laerte, entre outros.
Com o Botafogo participou da primeira excursão
internacional, em 1962.
Infelizmente para ele, a sua carreira como atleta
também ficou marcada pelo fatídico jogo de 21 de
novembro de 1964, quando o Botafogo perdeu para
o Santos por 11 a 0 na Vila Belmiro.
Naquele dia, o lateral Tiri teve a missão inglória
de marcar o Rei Pelé. Mas o endiabrado camisa 10
do Santos aprontou para cima do Botafogo e fez oito
gols. Só não fez mais porque Machado evitou.
"Ganhamos deles de 2 a 0 no primeiro turno e depois
fomos para lá. No jogo no Luiz Pereira, o Zuíno
ou o Alex, até sentou na bola. Vencemos e deixamos
os caras enfurecidos. No jogo da Vila, o Brandão era
nosso treinador e nos concentramos em São Paulo para
a partida. Foi aquela catástrofe que todos sabem. Na volta, saímos de Santos para São Paulo e tínhamos
duas Veraneio com a Pantera e o escudo do Botafogo
estampados na porta. Subimos a avenida São João e
com o trânsito parado todo mundo fazia brincadeira
com a gente porque sabiam que tínhamos perdido de
11. Foi uma esculhambação desgraçada que começou
lá em São Paulo"
"Quando chegamos em Ribeirão, e morávamos em
um casa perto de Luiz Pereira, tinha um cavalo preto
amarrado dentro da nossa república. O cavalo é 11
no jogo do bicho, então algum torcedor aborrecido
colocou o cavalo lá dentro. Além de tomar de 11 a
0, ainda tivemos que agüentar aquilo. Ou foi alguém
que torcia pelo Botafogo e ficou revoltado com a
derrota ou foi algum comercialino que quis debochar
da gente" relembra Tiri.
Os jogos contra o Santos sempre foram marcantes
para Tiri. Às vezes marcantes até demais,
ao ponto de se tornarem pesadelos e renderem histórias
pitorescas e que são lembradas até hoje.
"Quando ia jogar contra o Santos era sempre
difícil e mexia com todo mundo. Lembro que uma vez
eu tive um pesadelo nesta república onde moravam
os jogadores e o pessoal falava que eu estava marcando
o Negrão até no sonho. Eu dei um pontapé no
guarda-roupa e quebrei o pé. Dizem que me machuquei
porque tava sonhando com o Pelé"
A feliz carreira como jogador terminou sete
anos após ter chegado ao Botafogo. De 1959
a 1966 Tiri foi jogador de um clube só, até ser
emprestado ao Barretos. No seu retorno ao
Tricolor assumir a função de auxiliar técnico,
trabalhando com José Carlos Bauer.
Iniciava-se ali uma nova fase na vida de Tiri
no Botafogo. O ex-jogador se tornaria tempos
depois o recordista em dirigir a equipe como
técnico. Conseguiu a proeza de comandar o clube
por 22 vezes. O auxiliar técnico, que se tornou
supervisor, constantemente se via de volta aos
gramados para assumir a lacuna deixada por
algum treinador.
"Sempre que precisavam de um treinador, me
chamavam. Eu atendia porque já conhecia os jogadores
e sabia tudo sobre o clube. Foi assim muitas vezes"
Mas se engana quem pensa que Tiri foi apenas
um treinador-tampão. Nas vezes em que teve
tempo para executar um trabalho mais elaborado,
Milton Bueno conseguiu resultados. Como as
duas vezes em que ganhou o Paulistinha e em
1976, quando foi campeão do Torneio Vicente
Feola.
"Eu nunca quis ser técnico. Eu já sofria demais.
Em dia de Come-Fogo, por exemplo, eu nem comia.
Não conversava, ficava tenso. Os clássicos Come-
Fogo são as minhas maiores lembranças. No meu tempo
saíamos da cidade quatro, cinco dias antes de um jogo
contra o Comercial. Uma rivalidade indescritível"
Foi Tiri quem deixou aquele que pode ser
considerado o maior legado ao clube, que foram
os três maiores craques que já vestiram a camisa
tricolor. Tiri teve participação fundamental
no surgimento de Sócrates, Zé Mario e Raí na
equipe principal.
"Me orgulho muito disto. Na época do Sócrates
e do Zé Mario eu tinha dois meias praticamente. O
Zé tinha mais velocidade e eu coloquei ele na ponta
direita. Na meia não podia jogar porque tinha o
Sócrates e como eu tinha o João Motoca na direita,
fiz um esquema passando o Motoca para a esquerda,
fazendo o terceiro homem de meio campo pela
esquerda. As opções eram muitas e excelentes"
"O Raí foi comigo para uma excursão na América
Central e lá se firmou. Voltou com moral, titular e
depois deslanchou".
Como técnico Tiri também se tornou uma
figura folclórica por causa das suas frases
de efeito e de seu jeitão todo peculiar. Ao
ser perguntado sobre a escalação da equipe,
costumava responder aos repórteres que antes de
dar a escalação iria consultar seus "guias".
Os guias conduziram Tiri de forma brilhante
até 1992, quando deixou o Botafogo. Tempos
depois voltaria a convite do presidente Laerte
Alves. Encerrou sua trajetória no Botafogo no
início de 1998 e deixou seu nome escrito com letras
maiúsculas na história botafoguense


