Postado por Júlio Chiavenato em 14 de Julho de 2009 às 08:08
Moendas de fogo
Quem já manejou um lança-chamas abastecido por botijão de gás sabe como é perigoso, principalmente ao ar livre e se há vento. Foi manejando um desses que morreu o trabalhador Sidnei dos Santos, sábado, em Pontal.
Usa-se essa "ferramenta" para incendiar os canaviais. A prática é irregular e já causou acidentes. Foi preciso morrer um operário para que o fato viesse aos jornais. "Pequenos" acidentes que não matam são desprezados: para quê incomodar os usineiros? Quando os abusos aparecem põe-se a culpa nos "gatos".
Trabalho ilegal e práticas irregulares que causam a morte dos trabalhadores nunca são culpa do dono do negócio, mas dos "gatos", essa reminiscência escravocrata que adquiriu legalidade e permite aos donos do negócio consolidarem o sistema secular de exploração. As moendas moem cana, trituram e assam seres humanos. Se pesquisarem a fundo de quem é a culpa, talvez descubram que é minha...
Incendiar enormes áreas, mesmo se não houvesse perigo à vida humana e nem acontecesse a chuva de fuligem nas regiões urbanas, já é um crime ecológico. Os responsáveis (que lucram com o processo) desculpam-se afirmando que não há outro jeito de garantir milhares de empregos. Eles não pensam nas suas contas bancárias, no luxo e nos charutos cubanos, nem no uísque envelhecido, pensam nos trabalhadores.
Nas minhas andanças de bicicleta pela zona rural já fiquei preso entre chamas (aconteceu perto da colônia abandonada da Fazenda Santa Maria), quase não pude escapar de tanto respirar fumaça. Vi bichos mortos, assados. Ainda não há um balanço das espécies animais nativas aniquiladas. Porém, há mais um cadáver humano nessa trágica contabilidade.
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Postado por Júlio Chiavenato em 12 de Julho de 2009 às 10:34
Hasta cierto punto
Os últimos acontecimentos no Senado revelaram tanta maracutaia que os mais distraídos podem pensar que o roubo é legal no Brasil. Legal não é, mas é livre, "hasta cierto punto". Porém existem táticas, estratégias, leis e reis.
Deveríamos aprender com os argentinos, que são radicais "hasta cierto punto": socialistas, desde que não percam seus privilégios; solidários com os pobres, desde que não lhes peçam esmolas; nem um pouco racistas, desde que nenhum negro, índio ou judeu entre no salão. Precisamos aprender com eles, hasta cierto punto.
Voltemos à roubalheira, pois é o que mais temos no Brasil. Se pensarem bem, o político ladrão é um revolucionário com tintas evangélicas. Não sei se foi o doutor Marx quem disse: "De quem tem, de acordo com suas possibilidades; aos que não têm, de acordo com a sua necessidade".
Os senadores, com o doutor imortal Sarney à frente, seguem o lema comunista: quem tem (Sarney) supre de acordo com sua possibilidade as necessidades de quem precisa (filhos, netos, sobrinhos, irmãos et caterva). E aí, como a caterva quer sempre mais embora tenha muito mais que a plebe, cumpre-se então o preceito evangélico: "Pois àquele que tem, lhe será dado e lhe será dado em abundância, mas ao que não tem, mesmo o que tem lhe será tirado" (Mateus 13,12).
Resumindo: os senadores são comunistas, por dividirem a grana; e cristãos, por tirarem de quem não tem para dar a quem tem. Tudo feito dentro da lei, cumprindo as regras estratégicas e táticas do Rei. Assim caminha a humanidade. Sem motivo para chiadeira. Acontece que pobre é besta, pensa que só se pode roubar jabuticaba e melancia. Mesmo assim, hasta cierto punto.
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Postado por Júlio Chiavenato em 11 de Julho de 2009 às 11:08
Sabeis?
Já é folclórico político pego com a mão na massa dizer que não sabia que estava com a mão na massa. Lula não sabia do mensalão (& otras cositas mas). Sarney não desconfiava dos atos secretos (nem da grana que caía na sua conta).
Se a moralidade da politicanalha é mais elástica do que suspensório de palhaço, passou da hora de achar que o povo elege os figurões que assaltam o Estado porque "não sabia".
Até há pouco tempo explicava-se que o povo votava mal porque não sabia que os políticos eram o que são. Ainda não se destacava por exemplo, a ambígua ética do senador Suplicy, nem a capacidade de adaptação moral do seu colega Mercadante. Isso só para lembrar os "éticos", considerados acima de qualquer suspeita. Com o andar da carruagem descobre-se que eles também "são humanos" (quem diria!), mudam de opinião conforme os interesses da hora e passam do ataque à defesa do indefensável, para depois voltarem a rodopiar como galos tontos no picadeiro do Senado. Se os respeitáveis são assim, imaginem o resto.
Voltando ao povo-eleitor que "não sabia". Como não sabia? Sempre soube. Historicamente o povo sempre soube que o ladrão era ladrão, porém... rouba mas faz. Em Ribeirão Preto todos sabem quem é quem nesses canaviais. Alguém desconhece o DNA dos doutores vereadores da nossa admiradíssima Câmara Municipal?
Prefeitos, deputados, vereadores, a politicanalha em geral, é mais que conhecida e está há tanto tempo nos engrupindo (e sempre com o mesmo discurso) que nenhum eleitor tem o direito de ser enganado. O "não sabia" só vale para os assaltantes do Estado, pois para eles "não sabia" é meio de vida. Mas quem vota, por que vota, se sabia?
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Postado por Júlio Chiavenato em 10 de Julho de 2009 às 12:16
Distraia-se
De repente alguns problemas desaparecem. Depois voltam, enquanto outros esperam a vez. Nos últimos 50 anos os jornais dizem que as tubulações do DAERP estão podres, desperdiçam metade da água retirada dos poços e a qualquer momento podem arrebentar. Os técnicos dão entrevistas, os políticos prometem resolver. Providencialmente acontece um crime, mais uma corrupção e adia-se o problema.
O lixo também vai e volta. Geralmente aparece durante os períodos eleitorais. Descobre-se (que argúcia!) que vem do lixo a grana para as campanhas dos principais candidatos. Está certo: se vem do lixo, vai pro lixo. As manchetes gastam a palavra lixão. Denunciam a poluição, rastreiam-se maracutaias, preços abusivos, serviços indecentes, interligação e interpenetração com políticos de várias cidades, avisa-se que o processo é mafioso.
Mas certo deputado ou senador esquece de declarar ao Leão (sem trocadilho) alguns milhões de dólares ou o palácio nos grotões da fome. Os vereadores contribuem: ficam mais curiosas as notícias sobre os filhos, irmãos e cunhados nomeados para as bocas livres do que as mortes nos postos de saúde e os bondes nas escolas.
Outras misérias nem chegam aos jornais. Por exemplo, o distinto leitor não lerá que algumas escolas dos bairros da periferia precisam negociar com o tráfico, para impedir que os traficantes cortem a energia elétrica e suspendam as aulas noturnas. Os traficantes têm interesses que não podem ser contrariados. Determinam onde passam linhas de ônibus em algumas regiões, como os postos de saúde devem trabalhar e agora, qual o horário das escolas.
Relaxe: há muita e variada notícia sobre os maiquejaquisons.
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Postado por Júlio Chiavenato em 10 de Julho de 2009 às 12:09
Afluente fluente
Hitler e Mussolini conseguiram manipular o lumpensinato (se é que alguém se lembra o que é isso). Perón usou Evita para controlar o pessoal mais moreno.
Porém, em certos momentos o lumpensinato, essa "categoria" que flutua entre a marginalidade política e a infração social, tornou-se perigosa e se rebelou. Ameaçou conservadores e progressistas, pois era difícil manobrar a plebe semi-proletarizada, mas sem salários ou recursos econômicos e destituída de consciência de classe.
Como é o lumpensinato hoje? Em Ribeirão Preto existe uma população proletarizada, sem salários, mas com alguns recursos econômicos, embora sem consciência de classe. Proletarizada não no sentido tradicional, mas por representar a base da exploração de classes. Sem salários, sobrevive dos bicos. Proletarizada, porque os parcos recursos econômicos vem da "prole": às vezes dos jovens mal pagos que trabalham no comércio, das mães exploradas como domésticas ou, invertendo a tradição da "prole", das pensões e aposentadorias dos avós. O salário do "chefe de família" (se existe) não basta, daí, a "proletarização". Boa parte dos jovens vivencia sexo precoce, gravidez extemporânea e drogas. A soma de tudo caracteriza mais o lúmpen do que ressalta a proletarização das famílias (vide Bonde do Capeta).
Esse povo tem celular, televisão de tela grande, acesso à mídia. Adoram ídolos, têm uma cultura específica com ideologia refogada no rap e no pagode, cerveja e churrasco de vez em quando. É pobre, analfabeto, alienado, porém experiente. Eles ouvem tanto os pastores evangélicos como os chefes do tráfico. Criam outra moral. Acalentam novas ilusões.
Aonde vai desembocar?
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