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Ribeirão Preto, 02 de Setembro de 2010

Blogs e Colunistas \ Júlio Chiavenato \ Junho 2009

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Blog de Júlio Chiavenato

Perdemos o bonde

Postado por Júlio Chiavenato em 17 de Junho de 2009 às 23:42

A "evolução humana" nunca foi tão rápida. Atos impensáveis há poucos anos hoje são comuns. O mal uso da tecnologia afeta o comportamento: antes de se assumir como ser o homem degrada-se ao não racionalizar a pressão do "progresso".

Bonde do Capeta: adolescentes que agridem meninas loiras e boas alunas. Para entrar no bando as meninas precisam "tirar sangue" de uma vítima. Preferem bater na rua, pois podem usar pedras como armas. Comunicam-se pelo Orkut, essa baboseira de crianças e adultos que contribui para o fim da privacidade. Já não há um conceito de privacidade no Brasil informatizado: é o passo inicial para perder a decência.

Meninas semianalfabetas, que mal rabiscam o nome, sabem lidar com o computador e criar uma página no Orkut. Nunca leram um livro, mas trocam mensagens pelos "torpedos". O que dizem no Orkut e nos torpedos? Pais menos descuidados sabem: não só as bobaginhas próprias da idade, mas a truculência que vai do comportamento violento, próximo da criminalidade, ao sexo precoce.

Só um distraído não saberia que seria assim. A disparidade entre informação e formação, oferta e capacidade de consumo, facilidade do prazer e incompetência para gozá-lo, que vai da inexperiência, desestruturação familiar, educacional e social, até a cooptação pelas drogas, desemboca na desorientação que abala o ser. Meninas que seriam anjos inocentes transformam-se em potenciais transgressoras. E não vai parar aí, as coisas "evoluem".

Especialistas falam e falam. A mídia continua oferecendo tudo o que não pode dar. Em troca, crianças, pobres e ricos, burros e espertos, reagem com a cobiça exacerbando o comportamento. O que fazer?

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Cumbuca alheia

Postado por Júlio Chiavenato em 17 de Junho de 2009 às 00:45

Tenho sorte de não ser escritor local: não perco 30% da venda dos meus livros. Como A Cidade informou sábado, os escritores locais devem pagar 30% do preço dos livros para comercializá-los na Feira do Livro.

Deveriam reivindicar a lei dos hortifrutigranjeiros para a literatura. Os pequenos produtores de hortaliças e frutas praticamente não pagam impostos ou taxas e podem vender nas ruas e feiras livres. Sem qualquer conotação pejorativa ou juízo sobre suas obras, os escritores locais são pequenos produtores de literatura. Por algum motivo não conseguem publicar pelas editoras e pagam a impressão dos seus livros.

Assim, se a maioria não visa lucro e apenas difunde suas ideias, mereceria pelo menos o apoio que têm os produtores rurais. Mas eles pagarão mais para venderem seus livros na Feira do que pagariam às livrarias. E as livrarias ganham menos ao venderem livros, do que a intermediária dos escritores locais.

As livrarias ficam com cerca de 30% do preço de capa dos livros, mas desse "lucro" saem os impostos, salários, aluguel, custeio etc. Sobram uns 10% ou menos. O mesmo que ganha um escritor publicado pelas grandes editoras, sem outro incômodo a não ser, se der sorte, viver de direitos autorais e dar umas escapadas pela Europa. Não precisa alimentar "divulgadores da literatura" nem dar bom-dia a cavalo.

Mas se tenho a sorte de não ser escritor local, tenho o azar de viver no século do conformismo: Plínio Marcos armava o maior barraco do lado de fora das Bienais. Se ainda houvesse espírito rebelde os escritores locais estenderiam uma lona e exporiam os livros no chão. Chamariam a atenção e ganhariam uns trocados a mais.

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Democracia no cocho

Postado por Júlio Chiavenato em 15 de Junho de 2009 às 23:09

O Senado recusa-se a entregar à Polícia Federal documentos sobre as transações de empréstimos consignados, realizados secretamente, usando uma "laranja" e com propinas recebidas por um ex-diretor de Recursos Humanos.

O Congresso prepara-se para aprovar a Lei da Mordaça, que pune os promotores públicos que, na visão dos congressistas, produzam "investigações políticas".

Tradução: a politicanalha quer "legalizar" a impunidade. Senadores e deputados, salvo raríssimas exceções, engordam com o dinheiro público. Cuidam de manter o cocho. É um processo: possivelmente também conseguirão aumentar o número de vereadores, como já aumentam o de municípios. Quanto mais vereadores e prefeitos, mais aliados para perpetuarem as mutretas e garantirem os currais eleitorais.

Qual a novidade? Nenhuma. E aí está o pior: a maioria do eleitorado (é difícil negar, basta analisar o resultado das eleições) apoia com votos a corrupção ativa e passiva que grassa firme na política brasileira.

Explica-se a cumplicidade popular por vários fatores, geralmente com uma visão paternalista, isentando de culpa os eleitores. Os políticos exploram de vários modos essa cumplicidade culposa, fruto da ignorância e alienação das massas.

Essa é a democracia brasileira, que tem muita "kratía" da elite política e pouco "dêmos". Democracia, como os dicionários ensinam, vem do grego, "demokratía" (demos, povo; kratía, força). No Brasil a força do povo é enfraquecida pela miséria social e econômica e substituída pela astúcia das raposas que nos assaltam com a "legalidade" que lhes garante a impunidade e eterno poder. São raposas, cevadas como porcos no cocho da corrupção.

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Absurdidades

Postado por Júlio Chiavenato em 13 de Junho de 2009 às 18:22

Como hoje é domingo (pé de cachimbo ou pede cachimbo?) é preciso falar de coisas amenas. Domingo não é sábado, que permite certa irreverência. Vinicius de Moraes poetava que no sábado "há um padre passeando à paisana". Coisa antiga: hoje é difícil ver padre de batina até na semana santa. Nem padre de passeata existe mais. Nem Nelson Rodrigues.

Desconfio de uma amenidade: Audrey Hepburn, aquela de "Bonequinha de luxo", que usava um vestido preto que parecia cor-de-rosa (ou qualquer cor do gênero). Minha amenidade desconfiada é que desconfio que a doutora alcaidessa inspira-se na Audrey Hepburn.

Quando ela tomou posse da nossa alcaidaria, sei não, mas estava com um modelito tipo Audrey Hepburn. Assim de relembrança, vendo a cena que não vi, de miragem imaginativa, parece que um George Peppard (de chapéu e terno de listra) compunha o quadro no Palácio Rio Branco. Não havia Truman Capote para escrever o roteiro nem Blake Edward para dirigir a cena. Então, melhor acordar.

Fiquemos com o cachimbo, que é de barro, mas brigão, pois bate no jarro. O jarro é de ouro e bate no touro. O touro é valente e chifra a gente. A gente é fraco e cai no buraco. O buraco é fundo e acabou o mundo.

Vejam o que é a natureza: uma coisa leva à outra. Se juntar as pontas até que achamos o sentido. Mas tudo é enigma no mundo. Melhor não desvendar os sonhos, pois Freud já tentou e complicou mais. Alguns sonhos dão certo e errado: vejam o Martin Luther King. Tinha um sonho, assassinaram-no. O sonho sobreviveu. Barack Obama não seria possível sem o sonho que empolgou os negros norte-americanos. Mas nos canaviais o sonho dá insônia e pode virar pesadelo. 

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