Tenho sorte de não ser escritor local: não perco 30% da venda dos meus livros. Como A Cidade informou sábado, os escritores locais devem pagar 30% do preço dos livros para comercializá-los na Feira do Livro.
Deveriam reivindicar a lei dos hortifrutigranjeiros para a literatura. Os pequenos produtores de hortaliças e frutas praticamente não pagam impostos ou taxas e podem vender nas ruas e feiras livres. Sem qualquer conotação pejorativa ou juízo sobre suas obras, os escritores locais são pequenos produtores de literatura. Por algum motivo não conseguem publicar pelas editoras e pagam a impressão dos seus livros.
Assim, se a maioria não visa lucro e apenas difunde suas ideias, mereceria pelo menos o apoio que têm os produtores rurais. Mas eles pagarão mais para venderem seus livros na Feira do que pagariam às livrarias. E as livrarias ganham menos ao venderem livros, do que a intermediária dos escritores locais.
As livrarias ficam com cerca de 30% do preço de capa dos livros, mas desse "lucro" saem os impostos, salários, aluguel, custeio etc. Sobram uns 10% ou menos. O mesmo que ganha um escritor publicado pelas grandes editoras, sem outro incômodo a não ser, se der sorte, viver de direitos autorais e dar umas escapadas pela Europa. Não precisa alimentar "divulgadores da literatura" nem dar bom-dia a cavalo.
Mas se tenho a sorte de não ser escritor local, tenho o azar de viver no século do conformismo: Plínio Marcos armava o maior barraco do lado de fora das Bienais. Se ainda houvesse espírito rebelde os escritores locais estenderiam uma lona e exporiam os livros no chão. Chamariam a atenção e ganhariam uns trocados a mais.


