
Depois de vinte dias de férias, longe de tudo, a primeira notícia que recebo é a da morte de um grande amigo, o cenógrafo Cyro Del Nero.
Trabalhamos juntos em dois grandes eventos no prédio da Bienal, em São Paulo, o Vídeo Trade Show, lá pelo final dos anos 80.
Seu caminho profissional foi longo e muito rico. Cyro passou pela TV Record e TV Excelsior, criou as grades de programação, as vinhetas, os intervalos desenhados e até clipes. Também foi Diretor de Arte da Globo, onde fez, entre outras coisas, a abertura do Fantástico, e de novelas da emissora. Trabalhou também na TV Tupi do Rio e ganhou prêmios, entre eles, o de Melhor cenógrafo nacional, na IV Bienal de Artes Plásticas de São Paulo. Também foi professor da Universidade de São Paulo, onde ainda dava aulas , ministrou palestras e fez cenários memoráveis no Brasil e no exterior.
Ficamos muitos anos sem nos ver até que no ano passado ele veio à Ribeirão para uma palestra e lançamento de seu livro "Máquina para os Deuses: anotações de um cenógrafo e o discurso da cenografia" , no SESC.
Passamos o dia juntos. Levei-o para conhecer o artista plástico e também cenógrafo Jaír Correa em sua casa-estúdio e ele ficou impressionado com o trabalho das máscaras. Em seguida fomos para o Theatro Pedro II onde estava agendada uma reunião com o então diretor do teatro, Luchesi Junior.
Na época o maestro Zubin Mehta acabava de "chocar" Ribeirão quando fez duras críticas quanto a qualidade da acústica do Teatro, publicada na coluna Giro. Minha idéia era apresentar Cyro del Nero á direção do teatro para que ele fizesse uma análise do prédio e de suas condições de acústica e assim ajudar a resolver os problemas apontados por um dos mais conceituados maestros da autualidade.
Chegamos pontualmente à reunião e demos com a porta "na cara". O Sr Luchesi não deu a menor atenção ao artista, nos comprimentou secamente e seguiu em reunião com seus funcionários . Ficamos esperando no corredor até que decidi levar Cyro para conhecer o espaço .
Com todo o seu conhecimento e humildade Cyro foi me mostrando os pontos problemáticos do teatro. O tipo de madeira usada nas cadeiras, o formato do palco, a estrutura do forro, enfim, ganhei uma verdadeira aula.
Assim como entramos, saímos. Fiquei sem graça e me desculpei em nome da " santa ignorância" do funcionário.
Depois da palestra Cyro ainda teve fôlego e entusiasmo para me acompanhar a um vernissage na Adearte Galeria. Entre os artistas que expunham suas obras, um chamou a atenção do mestre e ele fez questão de conhecer: Renato Andrade.
Se hoje eu sinto a perda do amigo sinto ainda o gosto amargo da perda desta oportunidade rara para a cidade. A de poder contar com a opinião de um dos maiores profissionais da área para ajudar a sanar os problemas do teatro. Mas vale o ditado, não há como dar luz a um cego.



dignas nos espetáculos que viessem.Mas, não esmoreça, continue lutando pelas boas causas, voces tem a ferramente pra isso.
Bete Pepe.