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Blog de Rosana Zaidan

Querido Johnny

Postado por Rosana Zaidan em 05 de Março de 2010 às 08:54

Johnny Alf,  precursor da bossa-nova, iria fazer 81 anos em maio. Morreu ontem. Deixou uma obra linda, saborosa, que inclui clássicos como "Ilusão à Toa" e "Céu e Mar" - duas obras-primas da música popular. E o maior sucesso, "Eu e a Brisa", do tempo dos festivais. Johnny, sujeito a ostracismos apesar do grande talento de compositor e pianista, viveu em Ribeirão Preto por um tempo. Era amigo, aqui, de Altamir e Edinho Penha, cuja casa frequentava com outra amiga, a genial cantora Leny Andrade.  Nesse período, nos 1980 e alguma coisa, compôs Dilema,  em parceria com o então estudante de agronomia e músico diletante José Márcio Castro Alves. Como falava pouco, a música era seu único canal de comunicação. Para sobreviver em Ribeirão com dignidade, fez temporadas na extinta boate Brulihart, do cabeleireiro Bruno de Lacerda, que também já faleceu. A morte de Johhny Alf encerra um período de ouro da música pipular brasileira. Ainda bem que  podemos ouvi-lo em disco. É a grande vantagem dos artistas: a obra deles não morre.

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Adeus, Mindlin

Postado por Rosana Zaidan em 28 de Fevereiro de 2010 às 17:56

 

Estive com José Mindlin em 2009 (foto). Preparava o livro "O Diário de JB" e fui ouvi-lo, já que ele havia sido colega de José Bonifácio Coutinho Nogueira no secretariado de Paulo Egydio. Encontrei um homem sereno, alto, esguio, que vivia com seus livros e suas recordações numa casa grande porém singela, sem nenhuma ostentação. Sobre José Bonifácio ele pouco me disse. A não ser que seu pai, o artista plástico e dentista Mindlin, havia sido o clínico da família- inclusive dos avós de JB. No consultório de Mindlin pai, na época no Centro de São Paulo, JB, adolescente, não só cuidava dos dentes, como também conversava muito sobre artes plásticas. José Mindlin era um homem bom e útil, porque colecionava livros. Chegava a fazer viagens para a Europa, só para resgatá-los. Assim, com sua mulher, Guita, guardou raridades. A maior parte desse acervo precioso foi doada para a Universidade São Paulo e hoje pertence à comunidade estudantil, que pode usufruir dos esforços e da generosidade do bibliófilo. Ele se foi, neste domingo, aos 95 anos. Cumpriu sua missão.  

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No peito do desafinado

Postado por Rosana Zaidan em 25 de Fevereiro de 2010 às 14:50

Não tem ninguém mais "desafinado" - no sentido de jamais fazer coro em uníssono, especialmente com os "contentes" - que o jornalista  Júlio Chiavenato. E como reza a música (Desafinado,claro),  no peito do nosso Barão Von Julius também bate um  coração. Ou ele não teria me enviado um DVD  do filme "Fados", que completa a trilogia do cineasta espanhol Carlos Saura (autor também de "Flamenco" e "Tangos"). Ele me mandou não só porque gostou, mas também porque sabe que gosto muito de música e cinema. O filme começa com a manifestação do folclore mais legítimo - com danças que lembram as marujadas, os congos, as umbigadas e as folias de Reis. Deságua, depois em fados  e artistas, Chico e Caetano, inclusive. É bom de ganhar, mas principalmente, bom de ver e de ouvir. Fica a dica. E, de presente, um link para ouvir Antonio Chainho, uma espécie de Piazzolla do fado - digamos assim. Boa audição.

     http://www.youtube.com/watch#v=JKlUvOot-h0&feature=related

Na ilustração, um quadro clássico de José Malhoa sobre as origens do fado, num bordel

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Clair de Lune

Postado por Rosana Zaidan em 22 de Fevereiro de 2010 às 20:36

 

 Tive um grande amigo musical. Antes de ser empresário, era um fantástico compositor e violonista. Ele se chamava  Altamir Penha (1934-2003). Era na casa dele que nos reuníamos para ouvir música, às margens do rio Pardo. A favorita, nessas audições, especialmente em  noite de lua cheia,  era a imbatível Clair de Lune, de Debussy. Hoje, Clair de Lune é também a favorita de minha netinha de onze dias. O pai coloca a música e ela, que mal vê, e só ouve e sente os odores do mundo, entra em alfa. Deve-lhe soar como a linguagem dos anjos. Para quem quiser experimentar essa maravilha, coloco o link abaixo. Boa viagem.

http://www.youtube.com/watch?v=bINSmhssRRs

OBS: na foto, o próprio: Claude Debussy, diga-se de passagem, uma cópia do rosto de  Antônio Seara, amigo, jornalista e artista gráfico que nasceu em Santa Catarina, mas vive hoje em Minas Gerais.

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O sr. H.

Postado por Rosana Zaidan em 19 de Fevereiro de 2010 às 23:56

Vamos chamá-lo assim.  Estava numa fila de banco, quando ele entrou. De bermudas, chinelo confortável, camisa polo e pequenos sacos de compra nas mãos. Eram remédios. Já beirando os 80 anos - quem sabe mais - tem os cabelos cortadinhos, brancos, e graves óculos sobre os olhos. Mas o andar é solto, desenvolto. Ele chegou, colocou os remédios em cima do balcão e já o cumprimentaram: Bom dia, seu H! A moça do cafezinho veio lhe trazer uma xícara e já colocou o adoçante. Os dez ou 15 que estavam em pé na fila, viram-no passar à frente, com a maior naturalidade, usufruindo do seu direito natural de idoso. Pagou uma conta e sacou dinheiro para o fim de semana enquanto tomava o café. A moça do caixa, gentil, perguntou pelo filho dele, e deu pra perceber  que era ele quem sustentava o moço. Deu pra ver, também, que era viúvo, porque usava duas alianças na mão esquerda. Deu pra ver, ainda, como seria bom se todos pudessem envelhecer assim, com saúde, pagando as contas, sendo tratado com respeito - e mais que isso: com calor humano. Por um minuto, me senti num país bom, desenvolvido, bem provido. Mas só até sair daquela agência e andar a pé na rua. Na esquina de baixo, um outro velho, este descalço, maltrapilho e sujo, estendia a mão, esperando uma esmola. Ninguém lhe deu bom dia. 

Obs- Na ilustração, o pai de Candido Portinari, seu Torquato, desenhado pelo artista

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