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Quinta, 11 de Março de 2010 - 23h35

Gênio Centenário

Os Demônios da Garoa apresentam nesta sexta-feira em Ribeirão Preto os sucessos de Adoniran Barbosa, compositor que faria 100 anos em 2010

Régis Martins

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Um Adoniran Barbosa já moribundo, deitado na cama do hospital, recebe a visita do médico. "O senhor ainda bebe álcool, não é?", pergunta o doutor. "Só quando falta a cachaça", responde o paciente de voz rouca e mansa.

O médico baixou a guarda e caiu no riso. Mesmo no leito de morte, o maior dos sambistas paulistas não perdia a piada. Adoniran, batizado João Rubinato, iria falecer naquele ano de 1982 por causa do enfisema que corroia seus pulmões.

A história é contada por um músico sortudo que conheceu o cantor, ator e compositor de perto e esteve com ele dias antes de Adoniran se despedir deste mundo. "Era uma figura exótica, com aquele chapeuzinho e bigode. Sempre sério, mas a gente achava graça de tudo que ele falava", conta Roberto Barbosa, o Canhotinho, integrante mais antigo da formação atual dos Demônios da Garoa.

Canhotinho entrou no grupo em 1962, a tempo de desfrutar do sucesso que "Trem das Onze" traria para os Demônios e para Adoniran, o autor da música. O mais incrível é que ninguém esperava que esse verdadeiro hino a São Paulo se tornaria tão popular, ainda mais naquele ano de 1964. E em terras cariocas. "Nós gravamos e nada aconteceu, até que nos apresentamos no Chacrinha, no Rio de Janeiro, e a música estourou. A canção ganhou o Carnaval do 4º Centenário no Rio", lembra Canhotinho.

O músico, considerado um dos mestres do cavaquinho no Brasil, tinha 23 anos quando entrou no grupo. Antes, era contratado da Rádio Record, onde começou ainda jovem. "Aos cinco anos eu já tocava cavaquinho, porque me apaixonei pelo som de "Brasileirinho", recorda.

Os Demônios da Garoa se apresentam nesta sexta-feira em Ribeirão Preto num show que promete trazer em seu repertório os maiores sucessos de Adoniran, que faria 100 anos no próximo mês de agosto. "Não adianta aparecer com coisa nova. O povo quer ouvir as músicas dele", garante.

Português incorreto

E dá-lhe "Trem das Onze", "Iracema", "Tiro ao Álvaro", "As Mariposa", "Samba do Arnesto" e, claro, "Saudosa Maloca". Aliás, Canhotinho tem outra história curiosa sobre essa canção, um dos mais belos sambas sobre o drama dos sem teto.

A música já havia sido gravada por Adoniran num português correto, mas não teve muita repercussão. Foi preciso que Os Demônios a regravassem em 1955 para que se tornasse um clássico.

O grupo resolveu fazer uma nova versão cheia de erros de português e onomatopeias. Adoniran ficou possesso. "Ele disse que estavam estragando a música dele", comenta.

Mas com o sucesso, o autor resolveu mudar de ideia e adaptou o estilo dos Demônios em composições posteriores. "Adoniran era um amor de pessoa. Cantava São Paulo em todas as suas músicas porque amava a cidade", diz o músico.

Serviço

Demônios da Garoa
Sexta-feira, na Recreativa de Ribeirão Preto
Av. Nove de Julho, 299
Ingressos: pista a R$ 30 e mesa para quatro pessoas a R$ 250. Inf.: (16) 3623-4731

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