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Sábado, 13 de Março de 2010 - 00h35
Geraldão está órfão
Quatro disparos tiraram a vida de Glauco, criador do solteirão mais famoso dos quadrinhos nacionais
Glauco está morto. E com ele, boa parte do humor das tiras e cartuns produzidos no Brasil vai embora. Nascido há 53 anos, em Jandaia do Sul, interior paranaense, o cartunista foi assassinado na madrugada desta sexta-feira, na porta da casa onde morava, em Osasco, na Grande São Paulo. Seu filho, Raoni, de 25 anos, também morreu, vítima dos disparos. Glauco comemorou aniversário um dia antes de morrer.
A princípio a polícia acreditou ser um caso de reação a uma tentativa de assalto. Depois, a suspeita recaiu sobre o estudante universitário Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, 24 anos, que seria conhecido da família e frequentador da igreja Céu de Maria, da qual Glauco foi fundador e era coordenador. O cartunista era adepto da doutrina do Santo Daime, criada nos anos 1930 pelo seringueiro brasileiro Raimundo Irineu Serra, ou simplesmente, Mestre Irineu.
De acordo com a investigação da polícia, Carlos Eduardo teria procurado Glauco para levá-lo até a casa da mãe e convencê-la de que o filho era ninguém menos do que Jesus Cristo. "Testemunhas disseram que Carlos Eduardo estava totalmente transtornado", disse o delegado Arquimedes Cassão Veras Júnior, que investiga o caso. O suspeito do crime ainda não havia sido encontrado pela polícia até o fechamento desta edição.
Glauco e o filho Raoni levaram quatro tiros cada um. Eles chegaram a ser socorridos, mas não resistiram e morreram a caminho do hospital. O velório é realizado na igreja Céu de Maria, em Osasco, e o enterro está previsto para este sábado, no cemitério Gethsêmani Anhanguera, também em Osasco. A família pretende fazer uma cerimônia reservada e não divulgou o horário do enterro.
Em Ribeirão
Glauco veio ainda adolescente para Ribeirão Preto, seguindo os passos do irmão mais velho, César Augusto Villas-Boas, o também cartunista Pelicano, que cursou Engenharia na cidade. "Ele ia prestar para Engenharia também, mas já fazia umas tirinhas bem interessantes, que retratavam Ribeirão Preto, e acabou entrando para a imprensa como cartunista", lembra o jornarlista Fernando Braga, que trabalhava como diagramador no Diário da Manhã quando Glauco apareceu por lá, em 1976. "Eu via as histórias que ele criava na tira ‘O Rei Magro e Dragolino’ e ficava incentivando sua visita ao jornal, mas ele era muito tranquilo. Demorou até para ele aparecer no Diário", recorda Braga.
Mas um dia, aos 19 anos, Glauco resolveu pisar na redação, que ficava na rua Duque de Caxias, na região da Baixada, e foi recebido pelo editor José Hamilton Ribeiro. "O Zé Hamilton abriu um sorriso largo e já foi logo apelidando o
Glauco de ‘o novo Jaguar’, se bem que eu acho que o traço dele lembrava mais o Henfil", avalia Fernando Braga.
Ribeiro não perdeu tempo e foi logo contratando o rapaz, sem antes delegar uma missão à então editora do Escolha, o caderno de cultura do Diário da Manhã, a jornalista Rosana Zaidan, editora executiva do A Cidade. "Cuida do menino", pediu o jornalista. E ela cuidou tão bem que, anos mais tarde, já consagrado no mundo dos quadrinhos, Glauco não desperdiçou a oportunidade de assinar uma dedicatória à "madrinha Rosana" em um de seus álbuns.
Profecia
Assim que começou a trabalhar no jornal, Glauco foi tema de uma nota nas páginas do Diário da Manhã. Sob o título "Prestem Atenção neste Nome: Glauco Villas-Boas", o texto apresentava o cartunista aos leitores. Em um trecho, o texto diz - "ligado em todas as publicações de humor e em cartunistas como Ziraldo, Henfil, e, naturalmente, Millôr Fernandes, Glauco assimilou a forma de dizer as coisas, os traços e a sutileza dos gênios do cartum brasileiro".
Não demorou muito e Glauco se encheu de coragem e foi para São Paulo, mostrar seus trabalhos para Henfil. Se já tinha uma madrinha em Ribeirão, ganhou um padrinho na capital. Vieram os prêmios no Salão de Humor de Piracicaba, em 1977 e 78. Daí a conhecer Angeli e Laerte foi um pulo, e assim surgiam Los Três Amigos e o trabalho na Folha de S. Paulo, iniciado regularmente em 1984. Nasciam ali personagens clássicos, como Netão, Doy Jorge, Zé do Apocalipse, Dona Marta, Casal Neuras, Faquinha e o mais famoso, e por que não, o mais querido de todos, o Geraldão, um solteirão de uns 30 anos, virgem até hoje, que mantém uma relação neurótica com a mãe. Com certeza, Geraldão não verá muita graça nos ataques que faz à geladeira e diminuirá o ritmo louco de suas pernas em movimento. O dia é de despedida. Descanse em paz, Glauco. (Com agências. Colaborou Francine Micheli)
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