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Sábado, 22 de Outubro de 2011 - 19h52 ( Atualizado em 22/10/2011 - 20h09 )
Boa viagem: Trilha das Cachoeiras na Serra da Canastra
Cidades da Serra da Canastra, como Delfinópolis, atraem turistas em busca do contato direto com a natureza
Foto: Divulgação
Cachoeira Zé Carlinhos: recanto de águas tranquilas; veja mais fotos
No Sudoeste de Minas Gerais, a Serra da Canastra abrange as cidades de Delfinópolis, São João Batista do Glória, Capitólio, Sacramento, Vargem Bonita e São Roque de Minas. Uma paisagem de serra que permite avistar e desfrutar das cachoeiras, das nascentes e quedas d’água, percorrer trilhas e observar a rica fauna e flora locais.
"A Serra da Canastra é um ótimo lugar para desfrutar a natureza, descansar ou praticar esportes", comenta a jornalista Síntia Peixoto.
Berço de rios das bacias hidrográficas do rio Paraná e São Francisco e isolada por conta da precariedade das estradas de terra que davam acesso à região, por muito tempo as belezas da Serra da Canastra foram pouco exploradas pelo turismo. Mas hoje está na rota dos que apreciam ecoturismo e contato direto com a natureza.
O Parque Nacional da Serra da Canastra é a maior atração da região. Criado em 1972, com o objetivo de proteger as nascentes do rio São Francisco, ele possui quedas d’água e cachoeiras com mais de 100 metros, como a Casca D’Anta, que beira os 190 metros de altura.
A cidade mais próxima ao Parque, São Roque de Minas, fica a menos de oito quilômetros da sua entrada principal. Mas, nos arredores da Serra da Canastra, uma cidadezinha guarda os encantos das mais de 150 cachoeiras e muitas trilhas para motociclistas, jipeiros e ciclistas. Delfinópolis é um lugar em que se pode viver momentos de tranquilidade e se hospedar em antigas fazendas ou residências que foram transformadas em pousadas.
"A principal atração de Delfinópolis é possuir centenas de cachoeiras. A cidade mantém algumas ruas de paralelepípedos e arquitetura rústica do século 19. Além do acolhimento típico do povo mineiro", define Síntia.
A Serra da Canastra também é uma grande atração para apreciadores da fauna. A região típica de cerrado é uma oportunidade para avistar espécies de animais em extinção como o tamanduá-bandeira, o lobo-guará, o tatu-canastra e o pato mergulhão. "O cerrado é um bioma muito aconchegante porque tem na diversidade de plantas e animais silvestres uma forma prazerosa de se viver e que reflete na própria natureza das pessoas que nasceram na região. Frutas, pássaros, cantos, cores, flores e a água em abundância permitem que tudo flua naturalmente", define Mariângela Paiva Sampaio, dona da Pousada Rosa dos Ventos.
Para Mariângela, o maior atrativo de Delfinópolis é resgatar o contato com a natureza, com a tranquilidade de observá-la longe do estresse do dia a dia. "Ter o prazer de acordar às cinco horas da manhã com o cantarolar dos pássaros, como o trinca-ferro, sabiá e canário-da-terra. Isso permite o despertar diferenciado a quem visita à cidade, uma maneira verdadeira de se ver o mundo".
Apesar da natureza propícia, hoje não existem agências que proporcionem grupos de esportes de aventura em Delfinópolis, mas é permitido praticar, desde que a pessoa tenha equipamentos e conhecimento.
Trilhas, cachoeiras e animais silvestres
Atualmente, as trilhas a pé, o trekking de curta e longa distância, que vão de um a 50 quilômetros, são o grande atrativo da Serra. "Em todos os passeios a jipe, 4x4 ou a pé, o destino final é uma cachoeira", revela a dona de pousada Mariângela Sampaio. Como todas as cachoeiras estão em propriedades particulares, são cobradas taxas de manutenção ambiental que variam de R$ 3 a R$ 15 por pessoa.
O percurso até a Casca D’Anta, primeira queda do Rio São Francisco, é feito em três dias. Nele os turistas têm a oportunidade de dormir em uma fazenda e é possível desfrutar de paisagens como corredeiras, cachoeiras e espécies da flora e fauna, que deixam os visitantes deslumbrados. "Conseguimos encontrar tucanos, tamanduás e até patas de onça na trilha". Próximas a Delfinópolis existem nove fazendas em que se pode passar o dia. "Em um único dia de passeio dá para fazer até sete cachoeiras, dentro de uma mesma propriedade. E ainda desfrutar da comida caseira dessas fazendas", ressalta Mariângela. Na cachoeira da Água Quente, onde a temperatura da água gira em torno de 28 graus, são sete quedas de uma beleza indiscutível e os visitantes são recebidos pela proprietária, dona Maria Concebida, que ainda mantém a rusticidade e o modo de viver dos seus avós. "É um passeio cultural, além da paisagem da Serra da Gurita, uma das mais belas da região", diz.
A Cachoeira do Luquinha é conhecida pelas suas águas cristalinas, chova ou faça sol, e pela queda d’água em uma parede de pedra. Já as cachoeiras do Claro e a do Ouro são pontos excelentes para fazer rapel, além do saboroso restaurante de comida típica mineira do Baiano, com pão de queijo assado na hora e recheado com carne de porco conservada na lata. O dono, Adelber Lopes, apesar do apelido Baiano, é nativo de Delfinópolis e serve o mais famoso pão de queijo da região. "Todo mundo vem saborear. Fica no caminho da trilha dos motoqueiros, em plena Serra da Gurita", explica.
Diante de tanta beleza natural e tranquilidade, a única preocupação do turista deve ser chegar cedo à balsa, 30 quilômetros depois de Cássia de Minas, para atravessar a represa em horários de pouco movimento, até 17 horas, nos fins de semana e vésperas de feriado, já que à noite costumam formar filas para o embarque.
Telhado de pedra é referência para trilheiros
Bom de prosa, simpático e prestativo, Tio Zezico, de 81 anos, é uma das figuras mais conhecidas da região da Serra da Canastra. Não há motoqueiros que não conhecem a casa de telha de pedra, em pleno Vale da Babilônia, que se tornou ponto de referência para os trilheiros, distante 100 quilômetros de Delfinópolis. Nascido e criado na Fazenda Boa Vista, a 42 quilômetros de São João Batista do Glória, ele mesmo construiu a sede de 12 cômodos, em 1951. "Eu puxava as pedras com carro de boi. Levei dois anos para terminar". A fama começou há 20 anos, quando os motoqueiros descobriram a trilha que passava pela fazenda e paravam para pedir informações ou socorro por conta de acidentes.
"Ele dava comida e conversava com todos. Hoje muitos param só para dar um abraço. É conhecido por muita gente", diz a filha Elicene Almeida. José Portunato Guimarães, embora muitos desconheçam o nome verdadeiro, ganhou o apelido ainda na infância. A pouca estatura, por volta de 1,60 metro, e com um irmão também chamado José, logo virou Zezico. Embora seis dos sete filhos tenham se mudado para a cidade e, como ele faz questão de dizer, as camas ficaram vazias, Tio Zezico nem pensa em abandonar o sossego, as paisagens e as águas do local onde nasceu, cresceu e adora viver.
"Aqui passamos a conviver com tantas pessoas que nem damos conta da quantidade de amigos que fizemos. Daqui até o Japão eu tenho conhecido. Todo fim de semana tem gente diferente", diz ele, que passa horas na janela da casa e ajuda a mulher a vender combustível em galões para os trilheiros.
O patrimônio da Canastra
A riqueza da culinária mineira é reconhecida por todos. Entre os pratos e sabores de Minas, um se tornou patrimônio nacional: o queijo da Canastra. A produção artesanal, mantida por mais de 200 anos, da iguaria feita a partir do leite cru, lhe rendeu em 2008 o registro de patrimônio cultural imaterial brasileiro, pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Hoje, sua fabricação genuína, do queijo maturado e com a casca amarela, está concentrada nas mãos de pouco mais de 20 produtores.
Em Delfinópolis, a fabricação e venda de doces caseiros, queijos, farinha de mandioca, rapadura e pinga são outros atrativos da gastronomia local. A jornalista Síntia Peixoto sugere experimentar a farinha de mandioca da Dona Bidiquinha. "A fabricação é na casa dela, que adora quando chega turista para conversar".
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