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Sábado, 17 de Julho de 2010 - 20h06

Especial: Supermulheres do lixo

São nove coletoras entre 160 homens; elas enfrentam trânsito, carregam peso e correm até 25 km por dia atrás de um caminhão

Sidnei Quartier

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Foto: F.L.PITON / A CIDADEA ribeirão-pretana Gisele Pallandri, 24;  a alagoana Maria Damiana, 28; e a  ribeirão-pretana Aline Carolina Pires, 27 anosA ribeirão-pretana Gisele Pallandri, 24; a alagoana Maria Damiana, 28; e a ribeirão-pretana Aline Carolina Pires, 27 anos

Terça-feira, 8h30. A temperatura é de 17 graus. No Jardim Botânico, zona Sul de Ribeirão Preto, o caminhão de lixo cumpre sua rotina, percorrendo lentamente as ruas do bairro. A novidade é quem recolhe o lixo: três moças, duas delas mães.

É o segundo dia de trabalho de Aline Carolina Pires, 27 anos; Gisele Pallandri, 24; e Maria Damiana, 28. Desempenham uma função rara no cotidiano das mulheres. São chamadas, na Leão Ambiental, de agentes de limpeza. Resumindo: coletam lixo. Seguem o caminhão atentas, cuidando para não cometer erros. Calçam botinhas especiais, meiões, bermudas e usam luvas. Ainda com alguma dificuldade, pegam os sacos de lixo e lançam na caçamba. O Jardim Botânico é um bairro com muitas ladeiras e prédios, o que torna o trabalho mais cansativo.

Barricas

Em alguns edifícios, o lixo é acumulado em barricas. As moças sofrem com o peso, mas dão conta do recado. Faz parte do aprendizado. São guerreiras e solidárias. 

A jornada de trabalho é de oito horas, com uma hora de almoço. Elas iniciaram a coleta às 7h e só pararam às 15h. O turno da noite é das 18h à uma hora, com direito a adicional noturno.

O setor do Jardim Botânico, Santa Cruz do José Jacques e parte do Irajá tem 12 quilômetros de extensão. É menor em razão do número de edifícios.

5 Km/hora

Divino Pereira Borges, 47 anos, 12 na lida da coleta de lixo, garante que as meninas estão no mesmo ritmo dos homens.

"Não tirei o pé do acelerador. Tô andando média de cinco quilômetros/ hora".

Divino explicou a elas que não quer ninguém perto da caçamba quando ele aciona a prensa hidráulica.

"É perigoso, pode estourar uma garrafa, escapar algum pedaço de ferro, pedra. Fora disso, é tomar cuidados com os carros e ir em frente".

Aline Carolina Pires tem três filhos. Mora no Jardim Aeroporto, zona Norte, e vai de bicicleta para o trabalho.

"Chego lá aquecida. Tomo café com leite, pão com margarida e estou pronta para o trabalho", diz. Gisele Pallandri, um filho, e Maria Damiana preferem esperar o ônibus da empresa, no Parque Ribeirão, zona Oeste. 

As três estão animadas com a oportunidade e garantem que os empregadores não vão sentir falta dos homens.

Se depender de torcida, elas já ganharam o jogo. Ao passarem pela rua Noboro Nisiyama, defronte a uma grande obra, ouviram incentivos dos trabalhadores da construção civil.

"É isso, mulheres vencedoras", gritou um do sexto andar.

"Vamos lá, mulheres, raça", bradou outro.

Elas agradeceram com sorrisos e acenos, recolheram o lixo e seguiram em frente. Estão "vivendo e aprendendo a jogar".

O salário, de mais de mil reais e os convênios de saúde e odontológicos, animam as meninas.

A alagoana Maria Damiana, a mais baixinha das três, menos de 1m70, está animada. Há quatro anos em Ribeirão, vinda de Olho D´Água das Flores, cidade do interior alagoano, a 208 quilômetros de Maceió, diz que o emprego lhe fez muito bem. " Na rua, correndo".

Contratação

No mês passado, informa a Leão Leão Ambiental, dos 165 coletores, 73 deles, mediante apresentação de atestado médico, ficaram afastados do trabalho durante seis dias. A empresa contabilizou 447 dias de faltas. A coleta, prejudicada, deixou de ser feita em vários bairros. Outros trabalhadores foram sacrificados, ao dobrar a jornada de trabalho. Gastou-se muito com hora extra. Foi então que a Leão Leão decidiu investir em mão-de-obra feminina. Em dois dias, nove moças foram contratadas.

A empresa também optou por contratar homens mais velhos - acima de 30 anos - na esperança de diminuir o uso de atestados.

Se as mulheres derem conta do trabalho, explica o diretor Comercial Nilton César Barrico, as contratações vão avançar.

Motoristas

Na semana passada, a Leão anunciou que também vai admitir mulheres para dirigir os caminhões.

"Se for o caso, vamos montar equipes inteiramente femininas", disse.

A Leão aposta na pontualidade, dedicação e assiduidade das mulheres.

"Nós estamos convictos que as mulheres vão fazer o serviço muito bem feito. São caprichosas, não vão deixar lixo para trás. E a mulher também não tem o perfil de faltar muito ao trabalho, são bem mais responsáveis".

A empresa não exige teste físico e nem prova intelectual para fazer as contratações.

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