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Domingo, 13 de Novembro de 2011 - 16h58 ( Atualizado em 13/11/2011 - 17h04 )

Filhos do crack nascem com má formação e crise de abstinência

Em Araraquara, nove em cada dez pessoas internadas em clínicas de reabilitação são usuárias de crack; 10% dividem-se entre álcool, cocaína e óxi

Marco Antonio/Araraquara.com

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Foto: Ilustração / Arte Studio Lucas LimaTudo o que a gestante consome é transmitido para o bebê, os efeitos da droga também passam para a criançaTudo o que a gestante consome é transmitido para o bebê, os efeitos da droga também passam para a criança

Na Maternidade da Santa Casa de Araraquara, repousa em uma incubadora um menino com três meses de vida, filho de dois usuários de crack.

A criança nasceu prematura, ainda no sexto mês de gestação, pesando 900 gramas. O peso ideal para um recém-nascido, em gestação normal, é três quilos. Não bastasse estar fora do peso, a criança é cega de um olho, possível consequência da gravidez embalada pela fumaça da droga inalada pela mãe.

Quando os médicos revelaram a frágil saúde de menino, os pais preferiram trocar acusações sobre quem dos dois tinha fumado mais crack durante a gravidez.

Quem revela o caso é o coordenador do curso de Medicina do Centro Universitário de Araraquara (Uniara), Valter Curi Rodrigues, que revela que o drama vivido pelo recém-nascido não é inédito na cidade. "Este ano, fizemos os partos de três crianças filhas de mães usuárias de crack e todas apresentam comprometimento de saúde", diz.

Especialista em pesquisa genética, Rodrigues estuda os efeitos de drogas pesadas como cocaína e crack sobre a gestação. Segundo o médico, como tudo o que a gestante consome é transmitido para o bebê, os efeitos da droga também passam para a criança. "Cocaína e crack são aceleradores do metabolismo e aumentam a pressão sanguínea, mas imagine o estrago disto em bebês que nem estão com o sistema circulatório pronto."

Observação comprovada em crianças nascidas em Araraquara mostram que os filhos de usuários sofrem de microcefalia, alterações no sistema nervoso, degeneração ocular e cardiopatia congênita, também apresentada em filhos de alcoólatras. "As crianças desenvolvem síndrome de abstinência fetal. Elas se tornam viciadas nos entorpecentes consumidos pelas mães", garante. Isso significa que têm tremores contínuos e convulsão por falta da droga.

Na fase adulta, estas crianças são propensas a ter distúrbio de atenção, como hiperatividade. E, quando os entorpecentes não provocam má formação do feto, podem acelerar as contrações e causar aborto, explica o médico.

Em uma discussão polêmica, o médico defende a esterilização de dependentes da droga. "Uma jovem de 25 anos teve três filhos, todos com problemas, mas, por lei, não podemos ligar as trompas. Quantas crianças assim ela ainda vai gerar?", questiona.

Crianças têm distúrbio de atenção

A psicopedagoga Maria Carla Rodrigues Pereira trabalha diariamente com filhos de usários de drogas no Jardim das Hortênsias, Região Sudeste de Araraquara, e relata situações preocupantes. "As crianças são agitadas e não conseguem se concentrar em nenhuma atividade", revela a educadora.

O que mais impressiona Maria Carla são os relatos das crianças que assistem aos pais entorpecerem-se na frente delas com bebidas alcoólicas ou com crack. "Chegam a oferecer para os filhos e convidá-los para consumir junto."

Segundo a psicopedagoga, a maioria destas crianças abandona as escolas devido aos problemas que enfrentam em casa, tornando seu futuro ainda mais incerto.

Nove em cada dez pessoas internadas em clínicas de reabilitação em Araraquara são usuárias de crack. Os outros 10% dividem-se entre álcool, cocaína e óxi.

Casos são impressionantes

Há duas semanas, quando foi visitar seu filho recém-nascido na maternidade, o presidente do Conselho Municipal Antidrogas (Comad), Márcio William Servino, presenciou uma usuária de crack entregar para doação a criança que tinha acabado de ter. "Realmente, a situação está ficando cada vez mais triste."

Em Américo Brasiliense, a assistente social, Walkiria do Amaral trabalha em um abrigo para crianças onde quatro dos 11 meninos acolhidos vêm de famílias de usuários de drogas. "Dois têm chance de serem reintegrados às famílias, mas os outros dois, infelizmente, terão de ir para a adoção."

O delegado da Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise), Gerson Matiolli enxerga piora no quadro. "Estes dias flagrei uma menina com crack ao lado da filha de 2 anos, é muito triste."

Efeitos do crack nos bebês

- Tremores
- Má formação
- Metabolismo acelerado
- Aumento da pressão sanguínea
- Microcefalia
- Degeneração ocular
- Cardiopatia congênita
- Convulsão
- Hiperatividade
- Déficit de atenção
* As contrações durante a gestação também podem causar aborto
 

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