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Sábado, 28 de Maio de 2011 - 21h50

Construtores da Feira nunca leram uma obra

Maioria dos operários que montaram os estandes da Feira do Livro conta que a leitura é coisa rara

Sidnei Quartier

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Foto: Weber Sian / A CidadeTrinta e dois anos de trabalho na Prefeitura de Ribeirão Preto e o distanciamento do livroTrinta e dois anos de trabalho na Prefeitura de Ribeirão Preto e o distanciamento do livro

No meio da tarde de quarta-feira, operários agitados percorrem o recinto da 11ª Feira do Livro, nas praças XV e Carlos Gomes. São eletricistas, marceneiros e pintores. Eles dão os últimos retoques nos estandes que acolherão editoras, distribuidoras e livrarias até o dia 5 de junho. Sabem que trabalham num empreendimento importante, que receberá uma multidão e se orgulham disso. Mas por ironia, muitos deles nunca leram um livro. Um, até que tentou várias vezes, sem concluir a leitura. Não há vergonha na confissão. Apenas uma constatação. Os tempos eram outros, precisaram trabalhar cedo demais para ajudar a família e com isso a escola e a leitura foram deixadas de lado.

O pintor Aloísio Leão, 62 anos, é um deles. Em toda sua vida, o máximo que leu foi gibis. Funcionário da Secretaria Municipal de Infraestrutura, conta que cursou até o 4º ano primário. Tem três filhos e, dois deles, pararam de estudar ao concluir o segundo grau. Já trabalham. Ele diz que vai insistir para o mais novo continuar na escola.

"Nunca li um livro e não vou dizer que não fez falta. Em compensação, já tenho 32 anos de trabalho na Prefeitura e só não me aposentei por causa do limite de idade (65 anos)", diz Aloísio, francano de nascimento. Ele aprendeu com o pai que a aposentadoria é, na velhice, a única garantia de sobrevivência razoavelmente digna de uma família.

Jerônimo leu um

Seu companheiro de trabalho, Antônio Jerônimo de Souza, 55 anos, conta que fez apenas o primário, mas teve a felicidade de ler um livro. Ele ainda não tinha 18 anos quando familiares e amigos insistiram para que lesse uma "febre" chamada "Meu pé de laranja lima", escrito por José Mauro de Vasconcellos, traduzido em 32 línguas, e editado em 19 países. "Gostei, mas acabou sendo o único".

Cerveja e bola

Menos sorte teve o eletricista Luís Antônio dos Santos, natural de Lins, 42 anos e que há onze ajuda a iluminar a Feira do Livro. Ele diz que começou várias leituras, mas não teve paciência para terminar nenhuma delas.

"Eu me preocupava com outras diversões, como namorar, passear, tomar uma cerveja, jogar bola. Deixava a leitura para depois e nunca sobrava tempo".

João Eduardo Siqueira, 42 anos, morador do Simioni, é outro que jamais folheou um livro. "Nem gibi", admite. Conta que nunca levou jeito para a leitura. O ajudante João Eduardo e o eletricista Luís Antônio cumprem plantão na Feira, mas bem longe dos livros, preocupados apenas com apagões.

 

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