José Ap da Silva
Sabado, 28 de Julho 2007 - 19h46 Estudos recentes, ao sugerirem importantes relações causais entre habilidades cognitivas, mensuradas por testes de QI e de desempenho acadêmico, e condições econômicas, sociais, políticas e culturais de diferentes nações ao redor do mundo e, também, nos diferentes estados norte-americanos, evidenciam que tais relações podem ser esperadas pelo fato de o QI, em nível individual, estar altamente correlacionado com níveis educacionais, ocupacionais, produtividade, saúde e longevidade, salientando, com isso, que indivíduos inteligentes tendem a avaliar informações cognitivamente complexas de forma mais acurada e eficiente, tomando, por conseguinte, decisões mais precisas e adequadas para as mesmas.
Dentre estas correlações, as que se relacionam com diferentes atributos macro sociais, de diferentes países, principalmente a partir de 1990, mostram estritas relações entre habilidades cognitivas e variáveis educacionais. Em nações com jovens adultos de alto nível educacional, que aperfeiçoam seus conhecimentos através de grandes variedades de livros a domicílio, bem como, usufruem educação de alto nível nos seus aspectos quantitativo e qualitativo, os escores de testes de inteligência e de desempenho acadêmico mostram-se os mais elevados. Não obstante, o QI elevado também evidencia altas correlações com variáveis econômicas, sociais e políticas, dentre elas, qualidade e rapidez da burocracia, leis e regulamentos, produto nacional bruto (PNB), baixa corrupção, democracia, liberdade econômica e taxa de crescimento econômico. Neste contexto, a correlação entre o nível de habilidade cognitiva e PNB (r = 0,63) aumenta quando o logaritmo do PNB é usado (r = 0,70), e mostra-se ainda maior quando correlacionado com educação (nível educacional de adultos, r = 0,78; qualidade e quantidade da educação escolar, r = 0,74). Na prática, um aumento de 10 pontos no QI corresponde a duplicar o PNB. Similarmente, o índice de confiança interpessoal e a taxa de casos de homicídios solucionados são associados positivamente com inteligência. Por outro lado, o QI se correlaciona negativamente com taxas de homicídio, destruições causadas por guerra, incluindo guerra civil, taxas de infecção por HIV, elevado dispêndio governamental, coeficiente-Gini de desigualdade de renda e taxa de fertilidade total. Nestes casos, a desinformação e ausência de prevenção são os vilões responsáveis por tal negatividade.
Excluída a influência estatística com o PNB, variáveis educacionais ainda permanecem altamente correlacionadas com habilidades cognitivas. Entretanto, neste caso, os atributos políticos, sociais e econômicos das sociedades mostram correlações menos estáveis. As correlações positivas entre níveis de educação adulta e habilidades cognitivas permanecem estáveis em diferentes sub-grupos internacionais, a saber: nações desenvolvidas (r = 0,56) ou menos desenvolvidas (r = 0,55); na África sub-Sariana (r = 0,48) ou na Europa (r = 0,45); nos países tradicionalmente católicos (r = 0,62), países protestantes (r = 0,21), países ortodoxos (r = 0,95), países de religiões oriental (r = 0,73) e mulçumana (r = 0,71). Após controlar a distância do Equador, a correlação parcial entre educação adulta e habilidade cognitiva é 0,63. Logo, a habilidade para pensar e usar o conhecimento parece ser atribuível à educação. Diferenças em habilidades cognitivas em nível internacional refletem diferenças na educação e isto tem sido demonstrado em muitos estudos individuais, estaduais e nacionais, com correlações altas e estáveis entre medidas de habilidades cognitivas e educação escolar.
Desta forma, tal padrão de resultados revela que inteligência e conhecimento são indicadores, causas e/ou conseqüências de uma sociedade civil bem-sucedida e, primordialmente, que a educação formal só pode elevar a riqueza econômica por meio da revitalização cognitiva do capital humano. Entretanto, tal revitalização não deve ser feita apenas conferindo-se graus educacionais, como usualmente ocorre no Brasil, mas, fundamentalmente, mudando-se as atitudes e os comportamentos, bem como, elevando-se as habilidades cognitivas dos estudantes. Capacitar estudantes para entender e solucionar problemas através do pensamento e do uso do conhecimento alçaria a Educação Brasileira a um patamar sensivelmente superior ao que atualmente a mesma se encontra.
Portanto, elevadas correlações do QI com atributos macro sociais diversos validam a inteligência como um “link” na complexa rede causal da modernização cultural, política e econômica. O fato de medidas de escolaridade formal se correlacionarem positivamente com medidas de habilidade cognitiva, assim como, de diferenças internacionais nas habilidades cognitivas correlacionarem-se com diferenças nos níveis educacionais, valida comparações internacionais de inteligência entre nações. É a complexidade cultural, social e econômica das sociedades modernas reclamando um alto nível de habilidades cognitivas e, inversamente, é a inteligência elevando-se e desenvolvendo-se com esta complexidade.
*Prefeito do Campus
da USP-Ribeirão Preto