Jornal A CIDADE

José Ap da Silva

Sabado, 4 de Agosto 2007 - 19h17

SOCIOLOGIA DA INTELIGÊNCIA (1): A REDE DE COMPETÊNCIA SOCIAL


É do Papa Alexandre a afirmação, posteriormente tornada refrão popular, de que “errar é humano” Todavia, a possibilidade de falha em qualquer situação, independente da experiência, varia de indivíduo para indivíduo, de acordo com o QI ou com qualquer escore de teste de inteligência geral. No entanto, o reconhecimento desta probabilidade diferencial é mitigado pelo fato de a vida se diferenciar, originalmente, das normalizações e padronizações dos instrumentos psicométricos, usualmente utilizados. Mas, ainda que tais diferenças originais, em relação ao rigor de um teste psicométrico, sirvam para embotar o papel da inteligência geral, não podem, de modo algum, negá-lo.
Ingrediente ativo fundamental da grande rede de interconexões da vida social e profissional, a inteligência é um dos poucos constructos, nas ciências humanas e sociais, tão apoiado por amplas e variadas evidências. E, se contestada em discurso público, isto se deve ao fato de a mesma permanecer, para muitas pessoas, uma abstração não conectada às suas experiências pessoais, como se fosse, por exemplo, uma mera caixa preta a ser preenchida com qualquer coisa que estas imaginem. Não obstante, entre outras importâncias, a inteligência tem valor funcional na vida cotidiana dos indivíduos e da sociedade. Neste contexto, muitos são os pesquisadores que, em detrimento das percepções usuais que as pessoas têm sobre a existência, utilidade, ou valor moral da inteligência, se interessam em mostrar o impacto real das habilidades cognitivas para a Humanidade. A Inteligência, neste caso, não é entendida como uma virtude por si própria, mas como um meio para alcançar fins socialmente valorizados.
Na divulgação destes impactos reais, décadas de pesquisas sobre as habilidades mentais humanas têm demonstrado que, ao nível individual, os escores dos testes de inteligência são correlacionados positivamente com vários resultados desejáveis e negativamente com os indesejáveis. Tais demonstrações evidenciam, portanto, que inteligência é um determinante significativo da realização educacional, do status socioeconômico e das realizações ao longo da vida. A baixa inteligência, por sua vez, é um determinante significativo de várias patologias sociais, como, por exemplo, criminalidade, desemprego, dependência da previdência social e pobreza crônicas. Os efeitos da inteligência, ainda que de magnitude pequena, em alguns casos, quando acumulados no decorrer das inúmeras atividades que são realizadas ao longo da vida, sejam elas simples, complexas, técnicas ou socioemocionais, inclinam ao sucesso para os mais hábeis nas mesmas, produzindo, portanto, grandes ganhos a estes ao longo da jornada da vida, atuando como os pequenos efeitos que favorecem as casas de jogos de azar.
Por sua vez, a Sociologia da Inteligência envolve a análise do papel dos diferentes níveis de inteligência de subpopulações dentro das nações e sua relação com uma variedade de fenômenos culturais, sociais e econômicos, incluindo rendimento médio, empregabilidade, treinabilidade, realização educacional, letramento, numeramento, realização intelectual e outros similares. Em estudos desta natureza, as unidades de análise têm sido as populações das cidades, bairros dentro das cidades, regiões e mesmo estados de uma nação. Se considerarmos estas populações como agregados de indivíduos, podemos inferir que as mesmas relações, obtidas no nível individual, estariam presentes entre populações e que aquelas com altos níveis de inteligência seriam caracterizadas por altas taxas de atributos desejáveis e baixas taxas daqueles indesejáveis.
Assim considerado, nações cujas populações têm altos níveis de inteligência são mais prováveis de terem níveis mais altos de realização educacional e, relativamente, maior número de indivíduos capazes de contribuir, significativamente, para a vida nacional. É evidente que não se espera que todas estas contribuições tenham impacto econômico direto, mas, não é incorreto pressupor que muitas delas contribuirão, indiscutivelmente, para a condução do desenvolvimento econômico e da infra-estrutura social. Não obstante, estas nações também apresentarão baixos níveis de criminalidade, desemprego e dependência previdenciária. Inversamente, das nações com baixos níveis de inteligência são esperados baixos níveis de realização educacional e, conseqüentemente, poucos indivíduos contribuindo, positiva e significativamente, para o bem-estar social. Além disso, é elevada a posssibilidade de, estas mesmas nações, apresentarem altas taxas de criminalidade, pobreza e desemprego. Fatos este que, certamente, imporiam custos para a sociedade e atuariam como dragas do crescimento e desenvolvimento econômicos.
Logo, o impacto cumulativo da inteligência na vida, à semelhança de outros atributos, tais como, conscientização e afiliações sócio-emocionais, são integrantes de uma rede cognitiva que muito responde pelo desempenho, empregabilidade, saúde e longevidade de todo cidadão e nação em escala mundial.

*Prefeito do Campus
da USP-Ribeirão Preto

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