Jornal A CIDADE

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José Ap da Silva

Sabado, 11 de Agosto 2007 - 20h56

SOCIOLOGIA DA INTELIGÊNCIA (2): A REDE DAS PATOLOGIAS SOCIAIS


Vasta é a rede de resultados socioeconômicos, pessoais e ocupacionais que estão conectados positivamente com alta inteligência. Para tanto, muitos são os fatores que afetam estas associações, mas é indubitável que a probabilidade de sucesso nos mesmos amplia, consideravelmente, em níveis sucessivamente mais altos de inteligência. Tais resultados, na realidade, refletem o decatlo da vida socioeconômica numa sociedade livre - cidadãos competindo entre si numa longa série de eventos, objetivando alcançar, ganhar e manter uma posição destacada na escalada social. Por sua vez, ainda que as competições não sejam inteiramente imparciais e abertas, são suficientemente livres e abrangentes para que a competência e, conseqüentemente, o QI, façam considerável diferença para a obtenção de sucesso. Alcançar sucesso, seja este socioeconômico, pessoal e ocupacional, na grande e competitiva pirâmide social, não representa apenas o valor moral de uma pessoa, mas, principalmente, o valor comum mais perseguido e valorizado nas sociedades modernas. Por sua vez, o que dizer da outra face do sucesso econômico, isto é, dos resultados negativos, exemplificados pela evasão escolar, encarceramento, ilegitimidade dos filhos, dependência previdenciária e desemprego crônico, entre outros? Rede problemática de patologias sociais, pertinentes às políticas públicas, é a outra face do mesmo decatlo da vida adulta, observável numa sociedade livre e contemporânea.
Mostrar o papel do QI nesta rede intrincada de patologias sociais torna-se possível através da divisão do contínuo dos escores de QIs em cinco categorias, consistindo, estas, daqueles com QIs de 126 e superiores, bem como, daqueles com QIs entre 111-125, 90-110, 75-89 e 74 e inferiores, os quais indiquem, correspondentemente, as incidências, em porcentagens, de algumas destas patologias. Assim analisado, verifica-se que há amplas disparidades entre as diferentes categorias de QIs enquanto freqüências de fenômenos sociais. Um exemplo disto se verifica na constatação de que 75% daqueles com QIs de 126 e acima entram na Universidade, enquanto que nenhum daqueles com QIs abaixo de 74 alcançam tal resultado; 64% daqueles com QIs abaixo de 74 evadem-se da escola, enquanto que apenas 1% daqueles com QIs entre 111-125 o fazem e nenhum com QIs de 126 ou acima. Também, 26% daqueles com QIs abaixo de 74 vivem abaixo da linha de pobreza e apenas 1% daqueles com QIs de 126 ou acima se enquadram nesta patologia. Dados desta natureza, portanto, revelam que os níveis de inteligência se relacionam, sistematicamente, às diferentes proporções de incidência de várias espécies de patologias sociais. Não obstante, neste mesmo contexto, analisando o grau de associação dos escores de QIs com a incidência destes fenômenos sociais nas sociedades modernas também é possível demonstrar a importância da inteligência na determinação de tais patologias sociais. Dados de vários estudos, nos quais se analisaram cidades e estados Norte-Americanos, de Londres (Inglaterra), das Ilhas Britânicas, regiões distritais, municipais e provincianas da França e da Espanha, têm, claramente, indicados que QI tem estado fortemente correlacionado com a dependência crônica da previdência social (r =-0.50), delinqüência (r = -0,57; -0,69), taxas de mortalidade (r = -0,34; -0,43; -0,87), mortalidade infantil (r = -0,30; -0,46; -0,51; -0,54; -0,78; -0,93), desemprego por longo período (-0,20; -0,67; -0,82;) e pobreza (-0,73).
Certamente, todos estes fenômenos sociais são importantes no desenvolvimento econômico tanto de estados, quanto de nações, ocasionando custos para a sociedade. Logo, podem ajudar a explicar o porquê de algumas nações serem ricas e outras tão pobres. Complementarmente, pesquisas atestam que pessoas com alto QI também manifestam resultados negativos semelhantes. No entanto, o papel que o QI desempenha nesta rede de patologias sociais ainda é de difícil compreensão. Mas, é evidente que a probabilidade de fracasso eleva-se intensamente quanto mais inferior são os dos escores no contínuo do QI. Logo, o QI freqüentemente prediz resultados de patologias sociais tão bem quanto as variáveis que inúmeros cientistas sociais costumam mencionar para explicar o porquê de algumas pessoas sucumbirem e outras não na trilha de ascensão socioeconômica, pessoal e ocupacional. Podemos, todavia, entender melhor o papel do QI na incidência destes fenômenos indesejáveis se considerarmos cada patologia como uma longa bateria de testes a reclamar os mais habilidosos na execução dos mesmos. Isto significa que para entender o papel do QI na vida dos indivíduos e sociedades é necessário analisar os diferentes componentes cognitivos que as diferentes tarefas requerem ao longo da vida. Nestas, os diferentes níveis de complexidade requeridos, ao demandarem diferentes níveis de competência cognitiva, requerirão habilidades para diagnosticar e solucionar problemas usualmente mal definidos. Como os indivíduos mais inteligentes são os mais hábeis em avaliar e diagnosticar os riscos que se acumulam ao longo da vida, estes, provavelmente, são mais bem sucedidos ao se defrontarem com estas tarefas ao longo da vida.
Em outras palavras, inteligência tem este efeito porque QI determina eficiência e compreensão em todas as tarefas cognitivas.

*Prefeito do Campus da USP-Ribeirão Preto

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