Jornal A CIDADE

José Ap da Silva

Sabado, 18 de Agosto 2007 - 19h53

SOCIOLOGIA DA INTELIGÊNCIA (3): A CONEXÃO ENTRE QI E CAPITAL HUMANO


As desigualdades e disparidades humanas têm sido reconhecidas e discutidas, no mundo todo, ao longo de praticamente toda a história da humanidade. Entretanto, especialmente após a modernização, disparidades dentre e entre nações têm sobrepujado o interesse dos estudiosos do assunto, fazendo com que fatores históricos, culturais e vários outros proximais, como as estruturas sociais e condições genuínas de cada nação, sejam verificados como plausíveis explicações para o assunto. Neste contexto, explicações, adentrando à natureza humana, analisam características pessoais inatas enquanto variáveis causais, determinantes, das disparidades econômicas e afins que permeiam o mundo contemporâneo.
Muitos são os economistas que têm ampliado a definição da expressão capital humano ao aceitarem-na como sinônimo de fator contribuinte à renda tanto dentro das populações nacionais, quanto entre nações. Na inexistência de uma definição consensual do que consiste, exatamente, o capital humano, as habilidades que contribuem para um trabalho eficiente e que geram rendimentos mais altos têm sido relacionadas ao mesmo. Isto ocorre devido ao entendimento de que estas habilidades são, na maioria das vezes, adquiridas por meio da educação e mensuradas por diversos indicadores de medidas educacionais, como, por exemplo, dispêndios em educação, anos de escolaridade e taxas de matrículas nos ensinos básico, fundamental e médio. Além disso, consideram-se, também, os resultados acadêmicos refletidos nos escores dos testes de matemática, ciência e leitura, bem como, as taxas de letramento. Porém, a despeito da amplitude desta definição, ela omite a forte associação entre capital humano e inteligência.
Com a aceitação, por parte de economistas, de que todos estes indicadores estão relacionados à renda dentre e entre nações e, por conseguinte, com a argumentação de que diferenças no capital humano, a eles relacionados, constituem um fator contribuinte fundamental para as diferenças na riqueza nacional, o capital humano, e particularmente aquele obtido por meio da educação, tem sido constantemente enfatizado como um determinante crítico do progresso econômico. Fonte de crescimento ao longo de uma grande jornada, pois engendra inovação tecnológica, ao capital humano também se associa o fato de que mudanças nas taxas de crescimento econômico entre países são provocadas, primariamente, por mudanças em suas taxas de acumulação. Entretanto, muitos são os economistas que não têm, até o momento, entendido o porquê destas associações ocorrerem. Nestes casos, sugerindo que habilidade em matemática, ainda que não exclusivamente, capacita as pessoas a delinear produtos tecnologicamente avançados, que contribui para o crescimento econômico, não devem se esquecer de que tal habilidade é uma medida de inteligência, sendo esta, sim, o ingrediente ativo para a eficiência com que o trabalho é desempenhado em todas as ocupações, incluindo aquelas para as quais habilidade matemática, aparentemente, não é necessária. A habilidade matemática, similarmente ao capital humano, é, portanto, um espelho do QI.
Desta forma, ao priorizar indicadores fundamentais, em detrimento do QI presente no capital humano, muitas formulações econômicas fracassam. Reconhecer, portanto, que a inteligência humana é importante determinante do desempenho educacional e, conseqüentemente, do capital humano, orientaria economistas que militam nesta área a entenderem que grandes diferenças no desempenho educacional atuam, determinantemente, sobre taxas de crescimento econômico e de renda per capita. A correlação entre desempenho educacional e inteligência dentre as nações, invariavelmente, situa-se entre 0,60 e 0,70, enquanto que a correlação entre desempenho educacional e inteligência entre nações é, na realidade, mais alta, situando-se entre 0,79 e 0,89. Logo, com correlações desta magnitude, as medidas de desempenhos educacionais usadas pelos economistas e mostradas ser correlacionadas com crescimento econômico devem ser, provavelmente, produto das diferenças em inteligência dentre populações nacionais e entre nações. Portanto, a conexão entre QI e capital humano pode ser entendida como apenas um, dentre os muitos elos, da complexa rede de relações estabelecidas entre Inteligência e tantos outros indicadores.
Conexões entre QI e qualidade de vida, pobreza, grau de democracia, índice de eficiência e transparência governamentais, corrupção, bem como, de mortalidade infantil, status de saúde, expectativa de vida e longevidade, ampliam a abrangência de nossa abordagem e deixam claro que o núcleo comum, que emana de todas estas correlações, é que, qualquer que seja a direção da causalidade, esta reconhece, indiscutivelmente, a contribuição fundamental da inteligência, expressa pelo QI e seus correlatos, no desenvolvimento econômico. Esclarecer a forte associação entre capital humano e inteligência será discutir uma das chaves-mestra deste século.

*Prefeito do Campus da USP-Ribeirão Preto

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