Jornal A CIDADE

José Ap da Silva

Sabado, 25 de Agosto 2007 - 18h22

SOCIOLOGIA DA INTELIGÊNCIA (4): QI COMO UMA MEDIDA DA


Desde Aristóteles, e com relevância a Montesquieu, Rousseau, Adam Smith, Malthus, Tocqueville, Marx e Engels, até a modernidade, cientistas sociais e historiadores divergem quanto à justificativa da existência e persistência da grande lacuna na renda per capita, desigualdades globais e condições humanas mundiais. Na contemporaneidade, estudos publicados nos domínios da Economia e Psicologia, revelam que, a despeito de todos os esforços para mitigar tais disparidades, bem como, da crescente ajuda econômica e desenvolvimento social aos países pobres, estas ainda persistem. Para tanto, aventam que a principal causa destas disparidades reside na diversidade das habilidades e aptidões humanas e, especialmente, nas diferenças significativas das habilidades mentais nacionais mensuradas pelo QIs. Entendendo-se assim, espera-se que a qualidade das condições humanas seja tanto mais alta, quanto mais elevado for o nível médio inteligência de uma nação, fato este que explicaria as diferenças entre países ricos e pobres tanto no desenvolvimento e crescimento econômico, quanto em outras desigualdades globais nas condições humanas. O principal argumento é que as diferenças nas habilidades mentais médias das populações, mensuradas pelo QI nacional, fornecem a explicação teórica e empírica mais robusta, ainda que incompleta, para a maioria das desigualdades nas condições humanas.
Partindo desta suposição, estes estudos correlacionam vários indicadores das condições humanas, tais como, renda per capita, taxa de letramento, taxa de matrículas no ensino superior, expectativa de vida no nascimento e nível de democratização com os QIs nacionais médios das nações. Estas variáveis, que são usadas como componentes combinados do Índice da Qualidade das Condições Humanas (QHC), medem as desigualdades globais a partir de diferentes perspectivas. As análises estatísticas efetuadas entre QHC e QI nacional, bem como entre QI e os indicadores isolados da qualidade das condições humanas, revelaram altas correlações entre QI e estes indicadores compostos ou isoladamente. Exemplificando: na correlação entre QI e indicador composto de qualidade de vida, o QHC foi 0,79; entre QI e PDB-2002 foi 0,62; entre QI e letramento-2002 foi 0,66; entre QI e taxa de matrículas no ensino superior foi 0,75; entre QI e expectativa de vida-2002 foi 0,75, e entre QI e índice de democratização-2002 foi 0,53. Tomados juntos, estes dados apontam três conclusões extremamente importantes.
Primeira, todos os componentes do indicador composto são importantes, isto é, eles medem o mesmo conceito teórico das condições humanas, a partir de diferentes perspectivas. Portanto, este indicador composto pode ser considerado como a melhor medida da qualidade das condições humanas do que qualquer indicador isoladamente. Segunda, a correlação mais importante é entre QI nacional e QHC, a qual é elevada e demonstra que QI explica quase 64% da variação na qualidade das condições humanas, mensurada através do indicador composto denominado QHC. Terceira, há grande residuais positivos e negativos, os quais indicam que muitos países possuem, e estão produzindo, qualidade de vida aquém do que se esperava de seus QIs nacionais médios. O Brasil, por exemplo, enquadra-se neste contexto. O que isto significa? Significa que o QI nacional médio brasileiro indica e revela que podemos produzir muito mais do que estamos produzindo, bem como, alcançar indicadores globais de qualidade de vida muito mais elevados se políticas e recursos públicos forem apropriadamente despendidos para melhorar o potencial cognitivo da nação. O que está faltando para alcançarmos este padrão? Não manter o que foi dito por São João, há dois mil anos, ou seja, que “a pobreza que você tem, você sempre a terá”. Mas, sim, investir no potencial cognitivo brasileiro, intensa e regularmente, para que a nossa riqueza alcance o nível esperado da inteligência que temos. Estes resultados, portanto, suportam o argumento de que diferenças nas habilidades mentais médias das nações, como mensurada pelo QI nacional, parecem explicar mais do que 60% das desigualdades globais nas condições de qualidade humana. Em outras palavras, QI é o fator que melhor explica as desigualdades globais nas diferentes dimensões das condições humanas, sem, no entanto, negar a influência de outros fatores explicativos.
Logo, uma vez que esta possibilidade de melhoria do padrão cognitivo brasileiro existe e as disparidades não são fixas, políticas públicas apropriadas podem, possivelmente, reduzir ou aumentar as disparidades globais nas condições humanas. Sendo as diferenças nas condições sociais, em muitos casos, independentes dos QIs nacionais, é certa a possibilidade de melhoramento da qualidade das condições humanas brasileiras por meio de reformas econômicas, sociais e políticas coerentes com este intuito. Portanto, adotar o QI como medida da diversidade humana, se por um lado expõe as fragilidades das nações, por outro, abre-lhes portas concretas de um futuro crível e esperançoso. E o Brasil precisa disto.

*Prefeito do Campus
da USP-Ribeirão Preto

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