José Ap da Silva
Sabado, 8 de Setembro 2007 - 20h18 Nos textos precedentes, procuramos esclarecer que a significância do QI deriva de sua relação causal com a diversidade da condição humana, representada, esta, por uma complexa rede de condições reais tanto pessoais quanto sociais de existência e sobrevivência do cidadão no mundo. Estas relações, ao formarem nexos, enquanto estruturas de ligação, instituem o QI como núcleo central das correlações estabelecidas, ou seja, dos conexos. Entretanto, tais relações de interdependência e subordinação estabelecidas, devido a sua variedade, impedem o estabelecimento, definido e definitivo, das variáveis reais que compõem o nexo do QI. O que se pode afirmar, neste contexto, é que um grande número de elementos educacionais, sociais e economicamente críticos do nexo tem sido identificado e encontra-se, continuamente, sendo pesquisado. Nestes estudos, analisando e determinando a direção da causalidade entre diferentes elementos do nexo do QI, incluem-se significantes, e socialmente relevantes, variáveis pessoais, tais como, dificuldades de aprendizagem, níveis de realização educacional, letramento, pobreza, empregabilidade, renda, delinqüência, crime, ofensas criminais e integridade pessoal. Não obstante, limitações do QI, enquanto fatores explicativos de realização pessoal, também têm sido reconhecidos.
Assim considerado, procuramos esclarecer aos leitores que o nível de QI de uma pessoa atua, apenas, como um limiar variável, que especifica o nível mínimo de inteligência requerido para a realização de diferentes tipos de desempenhos. Vinculadas a estas, outros talentos e habilidades especiais, imbuídos de características de personalidade, tais como zelo, conscientização e perseverança, revelam-se determinantes críticos imprescindíveis ao sucesso vocacional e educacional. Neste contexto, uma vez que as bases psicométricas do QI são bem estabelecidas, futuras pesquisas poderão ampliar o conhecimento de tais nexos e conexos em duas direções. Considerando-as e definindo-as, para exemplificação, como horizontal, a elencar as várias áreas em que a inteligência pode ser localizada diacronicamente, ou seja, ao longo do tempo, e vertical, a indicar a profundidade de alcance sincrônico da mesma, ou seja, que se apresenta ao mesmo tempo, temos que, na horizontal, novos núcleos, enfocando as implicações para futuras tendências demográficas, demandas de emprego e estratégias de auxílio a países em desenvolvimento econômico, podem ser identificados. Por sua vez, na vertical, descobertas sobre as origens do QI, em termos de biologia evolutiva, e as causas das diferenças individuais, em termos da neurofisiologia do cérebro, poderão ser investigadas.
Portanto, torna-se fundamental compreender que o QI não é, meramente, um construto psicométrico. Ao contrário, o QI tem importância significativa no mundo real. Seus efeitos englobam, mais do que qualquer outro construto psicológico, uma vasta amplitude de fenômenos genuinamente humanos, direcionando as pesquisas acerca da inteligência para muito além da Psicometria, a saber, para o embasamento das mesmas em psicologia cognitiva experimental, cronometria mental, fisiologia e anatomia do cérebro, genética molecular e quantitativa e evolução dos primatas. Com isso, ao concentrar-se a pesquisa aplicada na importância do QI para a educação, emprego, desenvolvimento econômico, saúde, longevidade, dependência previdenciária e crime, os pesquisadores têm demonstrado que variação nos escores dos testes de QIs, especialmente aqueles que medem a inteligência geral, quaisquer que sejam as suas bases causais, fornecem informação vital para a interpretação de muitas variáveis sociais e comportamentais não-psicométricas. Intitulado “sociologia da inteligência”, este novo campo de pesquisas utiliza-se de diferenças individuais e coletivas em QI, bem como, em outras variáveis cognitivas, para explicar resultados sociais significativos.
Em adição, procuramos questionar o porquê de escores individuais, num simples teste, serem tão correlacionáveis com tantas variáveis fundamentais humanas. A explicação alcançada nos revelou que é a própria vida cotidiana que atua como um teste de inteligência, crescendo progressivamente quando a tecnologia se torna mais e mais integrante da mesma. Logo, os efeitos da Inteligência e do QI, similarmente a outros traços psicológicos, são probabilísticos, não determinísticos. Alta inteligência aumenta e melhora as possibilidades de sucesso escolar e profissional. Porém, ela é uma vantagem, não uma garantia. Muitas outras coisas importam. Invistamos também nestas, portanto.
Prefeito do Campus
da USP-Ribeirão Preto*