Jornal A CIDADE

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José Ap da Silva

Sabado, 6 de Outubro 2007 - 20h12

DE MEDIDAS E LINGUAGENS


Quando Lord Kelvin, físico inglês, afirmou que a capacidade de mensurar e expressar algo em números permite um conhecimento mais profundo sobre determinado assunto, foi inevitável, ao mesmo, afirmar que a incapacidade de expressar qualquer coisa em números é prova fidedigna de um conhecimento pobre e insatisfatório sobre as coisas. O ato de medir, presente, desde o início dos tempos, na cultura humana, ao ser relacionado à socialização dos costumes e ao estabelecimento de regras e normas sociais, tornou necessária a existência dos padrões iniciais de pesos e medidas. A princípio, baseando-se em dimensões do corpo humano, as unidades, utilizadas pelos viajantes e para o deslocamento de tropas, foram expressas através de polegadas, pés, côvados e braças, assim como, a partir de alguma atividade coletiva, como, por exemplo, a distância alcançada pela vista ou percorrida num dia de marcha. Nos dias de hoje, alguns destes padrões continuam a ser utilizados. Entretanto, como as dimensões humanas são bastante variáveis, tais unidades de medida se revelaram pouco confiáveis, diferentes umas das outras e não apresentando correspondência entre si. Por estes motivos, percebeu-se que o estabelecimento de parâmetros e referências, através dos quais se pudessem executar mensurações confiáveis, era algo indispensável.
A padronização e adoção do Sistema Internacional de Unidades (SI), no qual os nomes das grandezas, seus símbolos e suas unidades têm a mesma forma e entendimento, em todas as nações e regiões, resolveu o problema na maioria dos casos. Entretanto, no Brasil, a grafia errônea das unidades de medida em placas de trânsito, sinalização de ruas e em embalagens comerciais e domésticas, só tem aumentado a confusão. Cumpre, portanto, esclarecer, que os símbolos das unidades, quando por extenso, devem ser escritos com letras minúsculas, pois são considerados substantivos comuns; as exceções são para a unidade grau Celsius e para quando a palavra está iniciando uma frase ou fazendo parte de um título, todo ele escrito com letras maiúsculas. Sendo comum a grafia das unidades por extenso, deve-se, porém, ser cuidadoso ao utilizar-se o seu plural. Nestes casos, os prefixos são invariáveis. Os nomes de unidades, quando palavras simples, recebem um “s” no final como, por exemplo, ampéres. Quando compostas, sem hífen, o plural é feito flexionando as duas ou mais palavras, como, por exemplo, metros quadrados. Quando termos compostos, por força da multiplicação, variam independentemente e recebem um hífen por complemento, como, por exemplo, newtons-metros. Por sua vez, deve-se ter cuidados especiais com os plurais irregulares de becquerels, decibels, etc. Alguns nomes de unidades não recebem a letra “s” no final quando terminam em s, x ou z, como, por exemplo, siemens. Também não recebem o “s” quando representam o denominador em unidades compostas por divisão como, por exemplo, quilômetros por hora e em palavras compostas que são complementares de nomes de outras unidades e ligadas por hífen ou preposição como, por exemplo, anos-luz, quilogramas-força etc.
O símbolo de uma unidade não tem plural e, por isso, não se deve acrescentar “s” a ele; como, por exemplo, 1 kg de areia e 10 kg de areia. Após a última letra do símbolo não deve ser colocado ponto, a menos que represente o ponto final do período. Entre o prefixo e o símbolo da unidade não deve ser deixado nenhum espaço. O valor numérico e o símbolo devem ser escritos no mesmo alinhamento e não como expoente ou subscrito. No entanto, exceções existem, como o símbolo do ângulo plano, º, do grau Celsius, ºC e aqueles símbolos com expoentes, m3. Com isso, as principais recomendações a serem praticadas, são: 1) não colocar um ponto após o símbolo da unidade; 2) não usar o grau centígrado em lugar de Celsius; 3) não indicar o prefixo quilo com K (maiúsculo) em lugar de k (minúsculo); 4) não indicar metro com mts, mt ou Mtros em lugar de m (minúsculo); 5) simbolizar a unidade de tempo por s e não por seg; 6) usar a vírgula no lugar de ponto, para separar a parte inteira da parte decimal de um número e 7) não utilizar o símbolo cc para centímetro cúbico, porque não existe uma unidade de volume simbolizada por c.
As unidades de medida, ainda que discretas, também prezam uma boa gramática. Tal qual a Língua Portuguesa, sua linguagem e grafia, utilizadas erroneamente, também geram e multiplicam analfabetos funcionais. Convém, portanto, exercitá-la o mais adequadamente possível.

*Prefeito do Campus da USP de Ribeirão Preto

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