José Ap da Silva
Sabado, 20 de Outubro 2007 - 21h51 O segundo percalço educacional é saber como se deve ensinar. Um profundo e amplo conhecimento, embasado cientificamente, ainda que fecundo, nada nos diz sobre a metodologia do ensino, ou seja, o que fazer numa sala de aula para que o aluno, realmente, aprenda. É então que surgem questões como, “Se tratarmos os alunos de forma semelhante, é possível reduzir ou ignorar o pluralismo negativo do intelecto, ou seja, as defasagens de aprendizagem?”; “Se ensinarmos cada tópico de modos diferentes, ou ainda, se agruparmos todas as crianças de habilidades semelhantes, assim como, as menos habilidosas juntas, é possível fortalecer as primeiras e auxiliar o desenvolvimento cognitivo das segundas?”, entre outras. Neste contexto, o que entendemos ser possível fazer é identificar as facilidades e dificuldades em cada criança e personalizar sua educação tanto quanto possível.
Uma vez que ajudar os estudantes a entenderem melhor o mundo que os rodeia, seja este o mundo físico, biológico, social e das experiências pessoais, é o princípio cognitivo básico da educação, entendemos que, para alcançá-lo, devemos, inicialmente, ensinar os fundamentos básicos de leitura de si e do mundo. Norteadoras de nossa consciência, esta leitura, e sua compreensão, capacitam os Homens a encontrarem sentido nas coisas, assim como, a darem sentido no que fazem. Assim sendo, leitura, redação e cálculo e, muito apropriadamente, computação, afinados aos conteúdos fundamentais de ciência e utilizando poderosas ferramentas da matemática, compõem o segundo percalço educacional, que deve ser solucionado uma vez que, superado, auxilia o aluno na procura das verdades sobre o mundo físico, social e biológico. De modo similar, aplicados ao estudo da arte e da natureza, fornece ferramentas para que o aluno aprenda a produzir objetos pautados pela criatividade humana; aplicados ao estudo da arte e da natureza, diferencia as belezas do mundo natural em relação ao artificial; aplicados à história e à literatura, contam sobre o passado humano, documentando as escolhas boas e más feitas pelas civilizações, sem omitir as conseqüências destas escolhas no curso do tempo. Logo, sua importância é auxiliar o aluno, a saber, o que fazer quando deparado com situações semelhantes e esclarecer que a capacidade de pensar de modo inteligente é muito diferente da capacidade de, simplesmente, se informar. A primeira é crítica: oferece o conteúdo e cobra sua relação com o mundo. Enquanto que a segunda só ocupa espaço na memória. Disse-me certa vez, enfaticamente, meu antigo e eterno Professor, Paul Stephaneck, “Mais vale uma cabeça bem feita do que uma cabeça cheia”.
Hoje, diante da possibilidade de se colocar muitas das informações de que necessita num suporte digital, o aluno se encontra com espaço mental livre para priorizar a focalização de conhecimentos realmente úteis para sua formação. Certamente, não podemos clicar num “mouse” e repentinamente pensar científica e historicamente. Na verdade, devemos preparar os estudantes para o trabalho interdisciplinar e, também, prepará-los para uma vida numa sociedade global e internacionalizada em contínuas e rápidas mudanças. Devemos em essência, combinar o melhor das ciências físicas, naturais e sociais com os mais preciosos dos valores humanos. Parafraseando Molière, em cujas assertivas encontra-se que “Somos responsáveis não apenas por aquilo que fizermos, mas, também, por aquilo que não fizermos”, superar este percalço significa ensinar com responsabilidade e humanidade. Portanto, a única maneira de se operar uma transformação profunda na sociedade é através da educação. Isso é que é um milagre, isso é que é aperfeiçoamento genético de uma raça. O resto é pura conversa.
*Prefeito do Campus
da USP de Ribeirão Preto