Jornal A CIDADE

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José Ap da Silva

Sabado, 27 de Outubro 2007 - 16h29

A PANDEMIA DA VIOLÊNCIA (1): OCORRÊNCIAS E PREVENÇÕES


Característica da sociedade moderna e globalizada, a violência é um fenômeno complexo, de causas e conseqüências multidimensionais que vão além dos perpetradores e das vítimas. Independente do tipo de violência, seja esta urbana, doméstica/familiar, contra a mulher, escolar, no trânsito, política/religiosa ou instrumental, suas conseqüências são altamente prejudiciais à vida social, física e econômica, destruindo culturas, findando e fragmentando vidas e famílias, deslocando populações, conduzindo a profundos traumas e amplos problemas. Medo, dor, destruição, pesar, culpa, angústia, ódio, tristeza e dissolução das formas cordiais de sociabilidade, linguagem e experiência são o seu resultado.
Definida como ameaça ou uso real da força física contra alguém, resulta em ferimentos ou danos, tais como, ofensas, subdesenvolvimento e privação psicológica. Resultando em conseqüências fatais, como homicídios, e não-fatais, como assaltos, são de particular interesse enquanto mecanismos específicos da intenção de prejudicar. Definida como comportamentos ameaçadores, inclui comportamentos ilegais, como homicídios, assaltos, estupros e roubos, bem como, comportamentos menos severos, não previstos pelo código penal, assim como, síndrome diagnóstica ou psiquiátrica e demais problemas comportamentais, próprias da infância e adolescência, ocasionadas devido ao compartilhamento de influências e potencialidades de rompimento com a ordem social. Portanto, violência engloba (1) ações que podem ser reativas ou pró-ativas, criminais ou não-criminais, (2) ações que podem ocorrer dentro do contexto de outros comportamentos agressivos, e (3) ações que podem resultar em conseqüências letais e não-letais.
Usualmente, duas estratégias têm sido consideradas com o objetivo fundamental de impedir ou prevenir a ocorrência de comportamentos violentos. Estas podem ser reativas, isto é, em resposta a condições antecedentes, tal como provocação, ou pró-ativas, ou seja, conseqüências instrumentais ou antecipação de maiores ganhos. A primeira delas e, talvez, a mais comum, é responder ao problema da violência através de medidas reativas. A segunda seriam as preventivas, que buscariam reduzir fatores de riscos geradores de comportamentos violentos, visando enriquecer mecanismos protetores e fortalecer a resistência humana às influências negativas. Atuando ativamente sobre os comportamentos problemas, antes que estes se estabilizem em desordens de condutas crônicas, os programas de intervenção podem ter maior sucesso na redução da violência do que as medidas puramente reativas ou corretivas.
Não obstante, estas medidas reativas, ainda que necessárias, terão apenas efeitos e impacto imediato principalmente pela síndrome de ativação e características ostensivas que elas causam e carregam. Devido à homeostase dos diferentes padrões de comportamentos, sejam estes agressivos, violentos ou não, estas medidas reativas, em curto prazo, ou quando muito paliativas, serão inócuas caso não sejam integradas à medidas preventivas de grande alcance social e psicológico. Estas, de acordo com a literatura especializada, são, efetivamente, as que têm se mostrado promissoras em inibir ou adiar o início dos comportamentos problemas, incluindo a violência, pois, têm como propósito principal reduzir os fatores de riscos conhecidos, que geram comportamentos violentos.
A ciência evidencia que hábitos de assistir, continuamente, programas televisivos ou filmes violentos, assim como, de jogar videogames violentos estão diretamente associados a níveis mais altos de comportamentos violentos e anti-sociais, variando de triviais. Insensibilizando a percepção da excitação e perturbação emocional, geram apatia ou omissão do indivíduo em relação a comportamentos violentos ou violência no seu cotidiano. Adicionalmente, pensamentos obsessivos, pesadelos repetitivos e perturbações do sono reclamam intervenções preventivas apropriadas para eliminar, inibir ou adiar comportamentos violentos ou violências em cada estágio do desenvolvimento humano. Logo, é conhecendo os fatores que predispõem ou fomentam a violência que se pode determinar o foco, o escopo e a intensidade das intervenções preventivas que devem ser elaboradas.

*Prefeito do Campus Administrativo da USP de Ribeirão Preto

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