Jornal A CIDADE

Economia

Sabado, 3 de Novembro 2007 - 20h57

Cartões de crédito completam salário

Valeska Mateus
MATHEUS URENHA Cartões de crédito completam salário SÍLVIA HELENA Auxiliar de limpeza usa cartão para fazer compras e compromete 50% do salário

Todos os meses a auxiliar de limpeza Sílvia Helena Pimenta paga cinco faturas de cartões de crédito. Dois de bancos e três de lojas e magazines, com os quais ela compromete cerca de 50% do seu salário. O marido, o vigilante Willian Carlos tem outros quatro. Juntos eles têm uma renda de R$ 1.400. “Facilita na compra. Nem sempre temos o dinheiro e nesse caso o cartão resolve. Se não fosse isso, compraria menos”, fala.
Sílvia faz parte de um universo que detém 67% dos cartões de crédito circulantes no país. Os dados são do estudo “Baixa renda: o cartão como instrumento de crédito”, do Itaucard, divulgado na semana passada. Segundo a pesquisa, os consumidores dessa faixa (que ganham até R$ 1.499) devem terminar o ano com a posse de 61 milhões de unidades do apelidado dinheiro de plástico.
O volume de compras da baixa renda cresceu 135% nos últimos quatro anos, um índice bem superior as demais classes (85%).
“É um indicativo que esse público percebeu que pode controlar melhor os seu gastos rotineiros e obter mais crédito, sem juros, para compras de bens de maior valor”, afirma o diretor de marketing dos cartões Itaú, Fernando Chacon. Na opinião da economista e professora do curso de administração da Unaerp, Rosalinda Chedian Pimentel três fatores contribuem para esse cenário: uma mudança de hábitos, status e aumento da capacidade de compra.

Mudança cultural
Segundo ela, o percentual constatado na pesquisa não causa surpresa. “é sintomático de uma mudança de cultura”, diz. Ela afirma também que o crescimento de faturamento da indústria de cartões demonstra que as pessoas estão deixando de usar o dinheiro de papel para trabalhar com o dinheiro de plástico. Uma nova cultura que está sendo implantada na sociedade brasileira, mas que já é natural na economia norte-americana e em alguns países da Europa. Novos hábitos que estão sendo incorporados”, analisa.
O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Ribeirão Preto, Pedro Abrahão Além Neto comenta que o resultado é nítido no dia-a-dia dos lojistas. “O crescimento na participação dessa faixa é muito positivo para o comércio. É uma classe que consome muito. Além disso o cartão traz segurança para o comerciante”, argumenta.

Status e compras
O resultado da pesquisa reflete, na opinião da economista, um efeito social em que as pessoas procuram aparentar ter mais do que podem. Quando a classe média alta começou a usar cartões de crédito, eles se tornaram alvo de cobiça. É uma questão de status”, avalia Rosalinda. E equivale a uma “antecipação salarial”.

Alerta: cartão só é bom com controle
O estudo demonstrou que o poder de aquisição das pessoas é 4,5 vezes maior nas compras parceladas no cartão, do que nas compras à vista.
“Com a possibilidade do uso do cartão muitas vezes essas pessoas levam mais produtos e até de uma qualidade melhor”, informa Pedro Além.
Mas esse aumento na capacidade de aquisição é uma faca de dois gumes e pode levar ao empobrecimento dessa classe, na análise da economista Rosalinda Pimentel.
De acordo com ela, a população de baixa renda se tornou alvo dos bancos, por ser uma faixa que gasta em bens de consumo.
“Essa faixa não atingiu ainda um grau de satisfação das suas necessidades básicas”.
Apesar de consumir produtos de valores mais baixos, em termos de volume essa faixa extrapola o montante de compra da classe média alta.
“É uma população interessante para ser trabalhada por ter um potencial de gasto elevado com o passar do tempo”, afirma.
Mas é justamente essa população a que mais se coloca em risco com o uso de cartões de crédito. Por não ter a tradição do controle de gastos, pode entrar na lista da inadimplência. Se não fizer um acompanhamento efetivo de faturas e notas pagas, pode perder a visão global e entrar numa bola de neve de juros.
“Terá de recorrer a empréstimos para quitar a dívida e com isso estará retirando parte do seu orçamento. Mau utilizado o cartão de crédito pode ser tornar um fator de empobrecimento dessa faixa”, alerta.
A auxiliar de limpeza Sílvia Helena garante que mesmo tendo seis cartões anota todas as compras que faz e observa as datas de vencimento das faturas. “Faço isso para não me enrolar, nem tomar um susto quando a fatura chega. Tomo cuidado porque os juros são altos”, conclui.
“É preciso administrar muito bem o volume de compras e não agir por impulso”, alerta o presidente do Sincovarp.

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