Jornal A CIDADE

Classe A

Sabado, 10 de Novembro 2007 - 15h11

O Paizão do Basquete

MATHEUS URENHA O Paizão do Basquete

O paulistano Aloísio Elias Xavier Ferreira, o Lula, tem 56 anos, uma bela família e faz o que mais gosta: é técnico de basquete. Foi campeão várias vezes com o COC, fez bonito com o modesto time do Palmeiras e ganhou títulos sul-americanos e pan-americanos com a Seleção Brasileira. Mas duas tristezas ainda marcam a sua vida: uma delas poderá, no futuro, ser revertida: ele quer levar o Brasil a vencer uma Olimpíada. A outra, ele vai amargar para sempre, calado, no fundo da alma: a perda da irmã, estudante de filosofia da USP, torturada e morta com um tiro na nuca, nos anos de chumbo da ditadura militar.
Mas nem isso faz com que Lula Ferreira perca a ternura que o identifica como um dos mais solidários comandantes do basquete brasileiro.

Rosana Zaidan - Qual sua ligação com Cajuru?
Lula Ferreira - Meus pais e meus tios são de lá. Só não nasci em Cajuru por circunstâncias. Meu pai era dentista e decidiu ir para São Paulo.

Rosana - Cajuru era o paraíso para você?
Lula - Sim, passava as férias lá, todas elas. Minha infância, em boa parte, foi lá. Tenho pela cidade uma ligação afetiva muito grande.
Rosana - E São Paulo?
Lula - Morava no Alto da Lapa, na época um bairro afastado. Como nasci em 56, peguei a cidade ainda bem calma. Jogava bola na rua, pulava muro, roubava pneu velho. Ouvia rádio de pilha, os jogos transmitidos pelo saudoso Fiori Giglioti, narrador da rádio Bandeirantes. Tinha também a rádio Tupi do Pedro Luiz.

Igor Ramos – O apelido Lula é de infância?
Lula – Meu irmão me chamava de Alu (Aloísio) e acabou virando Lula. Meu pai morreu muito cedo, eu tinha nove anos. Nós éramos em quatro irmãos, três homens e uma mulher. Minha mãe era professora de Educação Física. Depois, minha irmã veio a falecer, morta pelo regime militar.

Rosana - Pelo regime militar? Como foi?
Lula - O Caco Barcelos (repórter da Globo) foi quem descobriu. Ela morreu em 68 e na época foi dado como acidente de automóvel. Ela tinha 21 anos. Ela e o marido dela, casados há pouco tempo.

Rosana - Ela morava onde?
Lula - Em São Paulo e morreu em Vassouras (RJ).

Rosana - E ela tinha mesmo militância política?
Lula - Ela e o marido. Eles estudavam Filosofia na USP. Ficou uma história mal contada mas isso foi um baque para minha mãe. Em 60 meu pai morreu, ela ficou sozinha com quatro filhos. Aí, em 68 morre minha irmã. Foi difícil porque houve um noticiário forte em cima da morte deles. Na época, tinha sido morto um capitão norte-americano e eles quiseram imputar essa morte à minha irmã e ao meu cunhado. Então, saiu nos jornais que eles eram assassinos do capitão. Minha mãe, todos nós sofremos muito.
Sidnei Quartier - A família entrou com pedido de reparação na Justiça?
Lula - Entrou, ganhou alguma coisa para dar ao meu sobrinho. Foi meio de repente. Eu estava no Palmeiras, trabalhando, e apareceu o Caco Barcelos. Eu assustei, o Caco não fazia esporte. Fui atendê-lo e ele explicou que tinha sido procurado por um praça fugitivo do Exército. Tratava-se de um pára-quedista que foi infiltrado no meio estudantil para fazer delações. Numa das delações, o Exército levou ele junto. O casal foi preso, torturado e morto. Ele ficou muito assustado, quis cair fora, o Exército não gostou, bateu nele, na cunhada dele que estava grávida. Ele foi obrigado a fugir do Brasil. Disse o Caco, que agora, de volta, ele estava processando o Exército e resolveu contar tudo. Pensei: A Globo não daria um notícia dessa se não fosse verdade. Então, o Caco disse que achava que o casal tinha parentesco comigo. Confirmei. Se vocês permitirem, disse, faremos um exame de balística porque na versão do ex-delator, ela foi a assassinada com um tiro na nuca. Minha mãe tinha falecido em (89). Falei com meus irmãos e eles concordaram. A família do meu cunhado (João Antônio Abi) não permitiu. E foram feitos todos os exames e tinha acontecido isso mesmo.

Rosana – Um tiro na nuca?
Lula - Morreu assassinada e forjaram o acidente automobilístico. Isso sem falar no sofrimento da minha mãe, as notícias plantadas nos jornais que ela tinha matado o norte-americano.

Rosana - Qual era o nome dela?
Lula - Catarina Helena Xavier Abi.

Rosana - Se vocês tivessem sabido isso na época, teriam tomado uma atitude política?
Lula - É difícil saber. Mataram muita gente. A ministra Dilma Rousseff foi uma das vítimas, que felizmente, conseguiu fugir.

Sidnei - Tem gente que por muito menos está recebendo indenização milionária. Sua irmã foi assassinada, comprovadamente, e sua família nada recebeu?
Lula - O Fernando Henrique, quando presidente, propôs uma lei que determinava o valor da indenização. Mas nós também não insistimos muito em ganhar dinheiro em cima da morte de um ente querido. Foi o suficiente para dar sustentação ao filho deles.

Rosana - E o basquete, como entrou na sua vida?
Lula - Minha mãe, professora de Educação Física, não queria saber de futebol e orientou a gente a jogar basquete. Ela me levou para o Palmeiras, eu tinha bom tamanho para a época, 1m80, era pivô. Meu irmão era melhor que eu mas não teve a mesma paciência. Como me empolguei, fiz Educação Física na USP. Antes, cursei dois anos de Propaganda e Marketing, estudei com a Bruna Lombardi. Casei com 22 anos, minha mulher era professora de matemática, morava em São José do Rio Preto. Com 27 anos, decidi parar de jogar, não ia dar nada. Virei técnico. Cheguei a trabalhar em quatro lugares ao mesmo tempo. Fui técnico do Palmeiras e gerente do Hebraica. Aí, o COC me chamou.

Rosana - O COC te chamou por quais motivos?
Lula - O Chaim Zaher quis mudar a filosofia na condução do time. Ao invés de gastar com jogadores estrangeiros e medalhões, ele resolveu investir no time de base. Além disso, quando o Palmeiras vinha jogar aqui, nós, um time modesto, dávamos um sufoco no COC.

Igor - Aí você fincou raízes aqui?
Lula - Vendi minha casa em São Paulo e construí aqui. Não tinha dinheiro, construí devagar porque fiquei um ano e meio sozinho.
Rosana - E como você conseguiu ser pentacampeão paulista?
Lula - O COC tem um modelo de sucesso porque é uma empresa exigente. Ela oferece condições mas exige resultados. E o time cresceu como uma família, unido. A maioria dos jogadores foi feita aqui. Cheguei em 2000, no meio do Campeonato Paulista. Em 2001 fomos vice-brasileiro, perdemos para o Vasco, um time milionário. Os jogadores foram ganhando confiança, Nezinho, Alex, Renato. Em 2002, ganhamos o primeiro campeonato paulista. Mantivemos a base durante muitos anos. Nunca trouxemos jogador de fora para ser o “cobra” do time e isso foi o pulo do gato.


Eu comentei cinco
anos na ESPN Brasil e sou convidado até hoje.
Tem que ter ética


Sidnei - Então me explica. Está tudo bem, ótimo, ganhando, perfeito e aí o time pára. O que houve?
Lula - Duas coisas, na minha opinião. Primeiro, foi o marketing. O time começou a ganhar e passou a ter a obrigação de ganhar todo ano. Isso pesou. Segundo: começamos gastando pouco e, com as vitórias e títulos, os jogadores foram se valorizando, multiplicando os salários até por dez vezes. E os adversários assediavam nossos jogadores, fazendo propostas milionárias, estabelecendo um valor muito alto na hora de renovar contrato.

Igor - Você não acha que isso frustrou toda a cidade, você não sentiu um vazio?
Lula - Eu fiquei muito triste. Quando acabou o time, eu deveria continuar no COC mas agradeci e continuei na seleção brasileira. Na época, os principais jogadores foram para Brasília. Eu também fui convidado para assumir o Brasília mas a CBB pediu que eu ficasse exclusivamente na seleção. Infelizmente, agora, saí do mercado de trabalho. Durante o Pré-Olímpico fui convidado pelo Brasília e o Uberlândia mas não pude aceitar.

Sidnei - Agora você ficou sem a seleção e sem clube. Está com dificuldade para voltar?
Lula - O mercado está mais restrito. Depois que você dirige o COC e a seleção, alguns clubes desistem de fazer proposta. Acham que sou caro demais. Além disso, com o campeonato em andamento, os clubes já estão com seus treinadores.
Rosana - Lula, eu sou leiga em basquete, mas soube que neste Pré-Olímpico a seleção teve muitos problemas por causa de estrelismo...
Lula - Não teve nenhuma questão de estrelismo.

Igor - Então porque o Nezinho se recusou a entrar num jogo?
Lula - A base da seleção hoje é de jogador da liga norte-americana. Então não é por dinheiro e nem para “aparecer” que eles jogam. Eles estão lá porque gostam.
O Nezinho cometeu um erro, não sei se primário ou grosseiro. Ele cometeu um equívoco até com ele mesmo. A gente ganhava por grande diferença do Uruguai e eu quis colocá-lo para se movimentar. Mas antes, ele tinha pedido para o Guerrinha, meu auxiliar, para não entrar. Mas não deu tempo do Guerrinha me avisar. Eu demorei uns 30 segundos para tomar conhecimento da realidade. Logo o Nezinho, que dizem ser é meu protegido. Mas nós iríamos decidir a vaga com a Argentina no dia seguinte e eu não quis falar nada. Mesmo assim, o Nezinho foi ao meu quarto e pediu desculpas.
Em relação a entrevista do Marquinhos, ele é que foi atingido na dignidade profissional. Não houve nada do que ele disse.
Na verdade, os jogadores ficaram muito irritados com a notícia de uma repórter do Estado de São Paulo que denunciou haver “grupos” na seleção. Eu sempre incentivei o jogador a falar, a dar opinião.

Sidnei - Você costuma fechar os jogadores no vestiários para que eles conversem?
Lula - Eles podem fazer isso a qualquer momento. Mas para garantir privacidade, depois da minha preleção, a comissão técnica sai e deixa eles sozinhos. Numa família tem coisa que o filho não fala com o pai, ou não fala com a mãe ou não fala com o irmão. Coisa deles.

Sidnei - A sua maior frustração, como técnico, foi não ter conseguido uma vaga olímpica?
Lula - Sem dúvida. Mas a Imprensa brasileira trabalha de maneira muito equivocada em suas cobranças. É muito difícil classificar-se para uma olimpíada. São apenas doze vagas. Aí você tira uma vaga para o país sede e outra o último campeão mundial, sobram dez vagas divididas em cinco continentes. É muito difícil. A Grécia, vice-campeã mundial, ainda não está classificada.

Sidnei - Lula, vamos ser sinceros! O Brasil, na maioria das vezes, sempre se classificou para as Olimpíadas porque nós éramos melhores que os argentinos. Ficávamos com a segunda vaga nas Américas. Agora, nós perdemos a hegemonia para eles. E eles são até campeões olímpicos. Quem é o culpado pela Argentina ter nos superado, em muito. Os técnicos, os jogadores, os cartolas ou todo mundo?
Lula - São todos. Seria injusto você jogar a responsabilidade nas costas de um só. É verdade, a Argentina nos superou. Fizemos um bom Pré-Olímpico, ganhamos quando deveríamos ganhar mas perdemos um único jogo decisivo para a Argentina.
Sidnei - Nosso problema chama-se Argentina...
Lula - Num jogo é normal uma equipe arremessar 24 lances livres. Em média entre 22 e 24. A Argentina arremessou 36 e o Brasil 18 ...

Rosana - Então você acha que houve proteção?
Lula - Misto de proteção, malandragem do jogador e tipo de jogo. Mas no Brasil, quando você perde, qualquer explicação soa como desculpa. O mal é que no Brasil caça-se culpados ao invés de buscar responsáveis. Eu sou o responsável pelo que o Brasil fez no Pré-Olímpico. Agora, culpado? Eu sou o único culpado, por tudo o que aconteceu, não ter classificado? Isso é o resultado de um trabalho coletivo.

Igor – Como é a sua relação com os outros técnicos, em particular o Hélio Rubens? Existe rixa entre os treinadores e você acha ético treinador comentar jogo de colega?
Lula - Minha relação com os técnicos é a melhor possível, não tem problema nenhum com o Hélio ...

Sidnei - Mas o Hélio Rubens te ofendeu ao vivo, pela televisão ...
Lula - Ele [Hélio Rubens] disse que eu não estava respeitando ele. Eu respondi que sempre o respeitei e depois disso nós conversamos. Ele reconheceu que estava chateado comigo por causa do corte do Helinho da seleção. Aí é problema de pai, não de técnico.

Igor - E sobre técnico comentar jogos?
Lula - Eu comentei cinco anos na ESPN Brasil e sou convidado até hoje. Tem que ter ética. Eu tentava fazer quem estava assistindo ao jogo entender o que se passava na quadra. Não ficava dizendo que o técnico devia fazer isso ou aquilo, jogar assim ou assado, marcar desse jeito, fazer marcação individual no fulano. É fácil você fazer isso. Em qualquer circunstância você tem umas dez opções mas o técnico só pode tomar uma decisão. As outras nove ficam para o comentarista.


O Varejão no Mundial não foi bem, mas se eu disser que ele não fez falta,
vou cometer injustiça


Igor - O Hélio fez isso com você?
Lula - Não sei, não ouvi. Mas também não me afeta. Eu concordo com uma máxima que ouvi certa vez. O esporte não faz o caráter das pessoas, mas o revela. Chegaram a dizer que o Guerrinha queria passar a perna em mim, no Pré-Olímpico. O Guerrinha chorou no vestiário, antes da partida decisiva com a Argentina.

Sidnei - A CBB está trazendo um técnico estrangeiro para dirigir a seleção principal. Isso não é uma afronta para os treinadores brasileiros?
Lula - É. E a culpa é de quem? Dos próprios técnicos brasileiros. Um técnico vive muito isolado no comando da seleção brasileira. Eu ainda tinha uma boa comissão técnica. A classe dos técnicos precisa se relacionar de outra maneira. Precisa ter um intercâmbio maior, de uma entidade própria. Hoje existe sim, uma entidade de treinadores. Sabe quantos sócios são? Seis. Então deve ser muito caro. Sabe quanto custa? R$ 60,00 por ano. Eu sou um dos sócios. Nós não temos onde pesquisar. Aí entra a diferença com a Argentina, que tem um trabalho de base excepcional.

Rosana - Com sua passagem pela seleção, o que você sugere para dar maior sustentação aos treinadores?
Lula - A formação de um conselho consultivo constituído por ex-treinadores da seleção brasileira. Eu quero propor isso.

Rosana - E como agiria esse conselho consultivo?
Lula - Faria duas reuniões anuais, produziria um documento e entregaria para o técnico da seleção brasileira. São sugestões. O treinador não é obrigado a ouvir, a seguir. E o último treinador da seleção, demoraria um ano para entrar no conselho. Depois de um bom período, ele dominaria as emoções e não correria o risco de contaminar o conselho. O basquete precisa de uma discussão ampla entre técnicos, jogadores, dirigentes, árbitros e imprensa.

Sidnei - Não me conformo com a Argentina. Eles perdem para nós o Sul-americano e o Pan-americano. Mas quando se trata de vaga olímpica eles ganham ...
Lula - A política do brasileiro é o talento. No time de base, o melhor do time pode fazer tudo, o que quiser. E no basquete regional e nacional isso funciona. Mas no jogo internacional, não funciona. O brasileiro não entende do jogo. O argentino tem paciência, é mais técnico. Com sete laranjas, eles extraem mais suco que nós com dez.

Sidnei- Então eles são mesmo melhores que nós?
Lula - Não. Nós somos melhores, jogamos mais.

Sidnei - Mas eles têm Ginobilli, que está entre os cinco melhores da NBA. Ginobilli e Oberti são campões da NBA pelo San Antônio Spurs. A Argentina é campeão olímpica.
Lula - A base deles é muito boa e além disso eles tiveram sorte na conquista olímpica. No primeiro jogo, contra a Sérvia, faltando três segundos, o Ginobilli, fez uma cesta caído. Eles têm mais tática que talento. E tem mais: a geração deles está acabando. Você não forma um Ginobilli toda hora.

Sidnei - Anderson Varejão fez falta no Pré-Olímpico ?
Lula - Muita falta. Mas veja bem, o Varejão no Mundial não foi bem mas se eu disser que ele não fez falta, vou cometer a injustiça.

Igor - E seu futuro?
Lula - Tenho que esperar o mercado abrir. Eu gostaria de dirigir o COC novamente.

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