Jornal A CIDADE

Caderno C

Quarta-Feira, 2 de Janeiro 2008 - 22h9

Um teatro no shopping

Simei Morais
F.L.PITON Um teatro no shopping RELAÇÕES HUMANAS E PERSONAGENS PITORESCOS Uma raposa mostra o sentido da amizade na peça O Pequeno Príncipe; espetáculo é o segundo do projeto do Santa Úrsula com o Teatro Popular de Comédia

Teatro em shopping, há algum tempo, era peça apresentada no corredor. Até que centros comerciais como o Higienópolis e o Frei Caneca, na capital paulista, e o Parque D. Pedro, em Campinas, ganharam espaços fixos para esse tipo de arte.
Em Ribeirão Preto, esse conceito está em fase inicial em uma parceria do Santa Úrsula com o Teatro Popular de Comédia (TPC). Começou como uma temporada de férias, voltada ao público infantil, mas deve continuar, com peças para adultos, de acordo com o gestor de marketing do shopping, Marcos Botelho.
O grupo proprietário do centro de compras já realiza projetos desse tipo em outros empreendimentos, em Santa Catarina.
- Tivemos um termômetro em dezembro. O público aderiu, tivemos demanda para duas apresentações por dia, comenta Botelho. - A intenção, agora, é trazer peças adultas do repertório do TPC, diz.
O grupo montou, em dezembro, O Mágico de Oz, peça que irá voltar em fevereiro. De hoje até o final do mês, a trupe apresenta O Pequeno Príncipe, de quinta-feira a domingo, às 17 horas.
O espetáculo acontece em uma sala no piso térreo, com capacidade para cem pessoas. O executivo do shopping não comenta o valor do espaço, caso fosse alugado por uma loja, por exemplo. Mas se isso acontecer, há mais dois locais no prédio para serem destinados à produção teatral.
- Fizemos no térreo para todo mundo ver. Foi estratégico, explica.

Caixa de sonhos
O resultado é diferente do que as tradicionais apresentações no mall, afirma Noir Evangelista, diretor do TPC, referindo-se aos espetáculos que ocupam os corredores dos centros de compras.
- No espaço aberto você faz um pequeno show de teatro, é entretenimento. Os grupos fazem o melhor possível, mas alguém sempre tropeça, o microfone não funciona, as pessoas falam alto, e ainda tem a concorrência com a música de Natal; não dá para passar a proposta, com uma viagem completa, diz.
Na sala, o efeito é outro. Ele diz que o espaço torna-se uma caixa de sonhos, separada de vitrines e todo o mundo das compras. E dá para fazer mais arte do que entretenimento.
- Visualiza-se a peça com maior riqueza, permite um outro tipo de espetáculo. Além da mensagem, há algo mais mágico, com o cenário, a iluminação e a sonoplastia, afirma o ator Edir Villa Real, um dos nove integrantes do elenco de O Pequeno Príncipe.
- Muda a harmonia do grupo e até a expectativa da platéia, aponta Noir.
A reação pôde ser conferida no mês passado, em O Mágico de Oz.
- No começo, as pessoas esboçavam desconhecimento quando ouviam falar de “um teatro no shopping”, conta Evangelista.
- Ficavam perguntando “aonde”? Mas o público já acostumou com a idéia. Os adultos também vão às peças, em vez de só deixarem as crianças, observa.


Príncipe
Antoine Saint-Exupéry e as lições da vida
O garotinho loirinho, de cabelos cacheados e bochecha rosada, tem quase 64 anos. E continua fonte de montagens para teatro, cinema e outras formas de arte. A peça do TPC tem adaptação a partir do livro original, de Antoine Saint-Exupéry, e do filme de Stanley Donen, de 1974.
O roteiro do grupo é baseado na linguagem realista de Stanislavski, o russo que criou o método de interpretação em que o ator deve “viver” o personagem, incorporando sua psicologia.
- Trabalha muito o emocional, envolve a platéia na viagem junto com o personagem, afirma o diretor Noir Evangelista.
Esse conceito extrapola os diálogos. O cenário é repleto de mesclas de luzes propositais, como as que projetam estrelas nas paredes da sala. É como se a platéia estivesse solta no universo, acompanhando o Príncipe.
Evangelista comenta que essa linguagem é o que difere a peça da montagem de Luana Piovani. Além da superprodução, o espetáculo da atriz se apóia na Comédia Dell’arte, voltada especificamente para o público infantil. O diretor diz que um familiar de Luana o procurou, após uma apresentação.
- Disse que na peça dela, riu, enquanto na nossa, chorou.
Isso porque a história de Saint-Exupéry reúne elementos que atingem crianças e adultos. O menininho de aparência burguesa - cachecol, pantalona e sapatos delicados - nasceu a partir de uma experiência pessoal, quando um avião que ele pilotava caiu no deserto do Saara.
Tem referências ao relacionamento da França com os outros países, no período da Segunda Guerra Mundial.
- Os personagens trazem essa questão política, que serve de discussão sobre as fronteiras que criamos até dentro de nossas casas, quando nos fechamos em nosso mundinho. O Pequeno Príncipe prega a liberdade, atesta Evangelista.
A obra de Exupéry, que era piloto e jornalista, leva os mais velhos a uma viagem interior em busca da pureza da infância. O percurso é repleto de descobertas como a amizade, no encontro com a raposa.
- Ela o concede segredos, numa simbologia da relação entre os humanos, comenta o ator Edir Villa Real.
É da raposa que saem célebres frases como “tu te tornas responsável por aquilo que cativas” e “somente com o coração se vê com clareza. O essencial é invisível para os olhos”.
A montagem do TPC encerra com uma canção composta e interpretada pelo cantor ribeirão-pretano Paulo Schiavone. É o encerramento, em que a música interage com todos os personagens e resgata o Príncipe.
- Mexe com a percepção da essência, diz Evangelista.


SERVIÇO
Espetáculo vai de quinta a domingo

O Pequeno Príncipe estará em cartaz a partir de hoje, no Santa Úrsula. A peça tem apresentação de quinta-feira a domingo, às 17 horas, com ingressos a R$ 14 e R$ 7 (meia entrada). A duração é de 1h10.

Outros shoppings
No RibeirãoShopping, a novidade é o Planeta Imaginário, para crianças de até 10 anos. O espaço de recreação conta com biblioteca, playstations, exibição de filmes e desenhos infantis, casinha de bonecas, ponte pênsil com tobogã, e atividades com giz de cera, pintura e desenho. Há monitores, mas crianças de até dois anos devem ser acompanhadas por um responsável. O serviço custa R$ 12 por hora às segundas, terças e quintas-feiras; e R$ 10 por hora às quartas-feiras. O valor sobe para R$ 14 às sextas-feiras, finais de semana e feriados.
O Novo Shopping deve inaugurar programação de férias na segunda quinzena de janeiro. O centro de compras também abriga o Park do Gorilão - Conney Island Fiesta, que funciona das 15 às 22 horas, de segunda a sexta-feira, e das 10 às 22 horas, nos finais de semana e feriados. O Park & Games, que fica dentro do shopping, tem atrações das 10 às 22 horas, de segunda-feira a sábado, e das 14 às 20 horas, aos domingos e feriados.

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