Márcio Bernardes
Quinta-Feira, 3 de Janeiro 2008 - 22h40 (Guarujá)-Quem me acompanha sabe a paixão que tenho pelas corridas. Nunca fui profissional. Nem poderia! Não tenho biótipo, condição especial, idade e nunca pleiteei qualquer coisa nesse sentido.
Não corro apenas porque é um bom exercício. A corrida para mim representa muitas coisas; é a realização de um momento onde reflito, me divirto, busco desafios pessoais e encontro ao final a tão gostosa endorfina. Santa endorfina! Só quem tem a chance de senti-la sabe o que é isso. Glândulas endócrinas produzem esse hormônio que libera no cérebro prazer, alegria, satisfação e tanta coisa mais que se fosse vendida na prateleira resultaria num faturamento de bilhões.
Corro sempre que posso. E quando posso, corro todos os dias. Qualquer distância, sempre desrespeitando a planilha do personal-trainer Flávio Freire. Porque parece que ele sempre me prescreve uma quilometragem aquém das minhas possibilidades. Já disputei muitas provas e maratonas. Sempre lutei para chegar e, quando muito, vencer meu próprio tempo da idêntica prova anterior.
Este ano tinha um motivo especial para correr a minha 17ª São Silvestre; no final de março superei uma arritmia cardíaca depois de uma cirurgia efetuada pelas hábeis mãos do médico José Carlos Pachón.
Um mês depois da operação já estava andando e correndo. E a cada dia, um novo desafio. Um quilômetro a mais do que o dia anterior, uma velocidade superior à praticada na semana passada. Qualquer coisa já representava uma grande vitória.
Em novembro, resolvi aumentar o ritmo dos treinos incluindo subidas e chegando aos 15 mil metros, trajeto oficial da São Silvestre.
Providenciei com o Valdir Orantes meu número na elite B e coloquei em campo a esperança. Porque poucos que correm sabem desse privilégio. Existe a São Silvestre normal e a do Valdir Orantes. Mas nem a habitual simpatia e boa vontade do diretor da Rede Globo me levaram a realizar o meu sonho.
Fiz dois simulados na esteira e um no trajeto oficial da prova num domingo pela manhã. Nos dois primeiros consegui chegar com muita dor e sofrimento. No trajeto oficial parei no final do Minhocão.
Em todos os treinos e testes o coração resistiu heroicamente. Na semana que antecedeu a São Silvestre o joelho direito doía cada vez mais. Resultado da falta de cartilagem. Nem os antiinflamatórios consumidos no desespero e na irresponsabilidade amenizaram o sofrimento.
A santa medicina, que evoluiu tanto, não tem solução para a falta de cartilagem nos joelhos. Mas que diabo de santa é essa?
Acabei me acovardando e sequer consegui assistir à prova pela televisão. À noite, no Jornal Nacional, fiquei sabendo que o queniano Cheruiyot venceu pela terceira vez. E que quase 20 mil pessoas conseguiram completar. Tomara que na próxima eu tenha mais sorte. E cartilagem reconstruída!