Jornal A CIDADE

Sérgio Mascarenhas

Sabado, 5 de Janeiro 2008 - 17h7

Origens: do Big-bang, ao DNA, ao cérebro e ao Ano-Novo de 2008


A base da inteligência é a pressão evolutiva para a sobrevivência. A inteligência é que possibilita a aquisição de conhecimentos por um sistema vivo que lhe permite preservar a própria vida. Tudo tem para o homo-sapiens uma estruturação causal. Isto é, não há efeito sem causa ou causas.
Filosoficamente somos levados à pergunta fundamental: qual a causa original? Se há uma origem, como conciliar este conceito com a regra de ouro de que não há efeito sem causa?
Uma solução é quebrar a regra e dizer que a causa-primeira é de origem metafísica, mística, criação milagrosa, divina. Apesar dessa solução, a humanidade trilhou os caminhos do método racional (inteligente) sempre insatisfeita por essa alternativa fácil.
Pelo menos por alguns dos seres humanos mais ousados, que não renunciaram ao método e mantiveram a busca pelas origens, pelas verdadeiras cadeias de causas e efeitos, pelo entendimento até das relações entre muitas causas, que originam sistemas complexos de incontáveis relacionamentos cruzados, às vezes com as chamadas não-linearidades, nas quais a soma das causas pode resultar em maior ou menor intensidade dos efeitos! A ciência e seu método, criando e usando novos conhecimentos aplicados ( tecnologia e inovação), não renunciou frente ao desafio e ao contrário , cada vez com mais curiosidade e empenho, lança continuamente mais desafios em conhecer as origens de tudo na natureza!
Os astrofísicos tentam responder à questão da origem do Universo, com a Teoria do Big-Bang: uma explosão inicial, pontual, que levou à expansão da energia, sua transformação em matéria particulada, em átomos e moléculas, condensados em nebulosas, conjuntos de estrelas, sistemas planetários, buracos-negros, tudo em expansão que foi experimentalmente observada e medida até na sua temperatura residual atual! Mas e as origens da Vida mesma?
Os biofísicos, os biólogos moleculares, não temeram o desafio enorme e hoje há algumas possíveis pistas para a origem ou até melhor dito, para possíveis origens da vida: átomos e moléculas reagiriam entre si e formariam algumas moléculas replicadoras! Capazes de se auto produzirem e assim garantirem uma espécie de sobrevivência, de manutenção de uma identidade estável de formas e funções correspondentes. É o modelo atual da física e biologia molecular para a origem possível da vida.
A molécula replicadora é no caso da vida terrestre, tomada como o famoso DNA, a hélice dupla cuja estrutura molecular foi desvendada há poucas décadas e que contem o mapa do ser vivo, o seu genoma. Conhecendo o genoma e como altera-lo pode-se criar novas formas de vida ou modificar as já existentes (organismos genéticamente modificados, da engenharia genética atualmente em explosivo desenvolvimento). Chegamos entretanto, ao desafio dos desafios: Como funciona o cérebro , do qual nasceram todas essas questões e que se mostra também em evolução através das pressões ambientais, incluindo fatores culturais aparentemente abstratos como a estética, história, literatura, linguagem , todos ainda mergulhados em uma profusão de causas e efeitos, emaranhados e confusos em sua complexidade!
Mas o homem, criador do simbólico para dominar o entendimento do material e empírico, navega pelo desconhecido na barca da ciência, descobrindo origens e novas utopias. Nesse novo ano de 2008 muitos novos territórios serão certamente descobertos na saga maravilhosa da ciência: precisamos sempre de jovens nesta barca, com sonhos e desejos insuspeitados, viajantes do tempo entre a vida e a morte, sempre renovados entretanto pelas suas próprias origens nascidas do big-bang!
Na ilustração minha e do Alfonso, procuramos simbolizar tudo isto , com votos de feliz 2008 aos nossos leitores. *Diretor do IEA-USP-S.Carlos

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