Jornal A CIDADE

Vicente Golfeto

Sabado, 5 de Janeiro 2008 - 17h23

Medo e interesse


É impossível conhecer o mercado – queremos dizer, a mecânica de funcionamento da atividade econômica – se não se conhecer, pelo menos, um pouco do comportamento do Homem.
O psiquismo humano é muito forte. Eça de Queiroz, extraordinário escritor português do século 19, dizia que: “há corpos de agora com almas de outrora. Corpo é vestido. Alma é pessoa.”
Nós somos o que é a nossa alma. Mas, é sempre bom lembrar, o corpo é a sombra da alma.
Vendo o corpo pode-se enxergar a alma. Claro que estamos falando de quem tem este olho de lince, que a lenda diz enxergar além das paredes.
Duas alavancas movem sistematicamente o ser humano. São elas o medo e o interesse.
Estas alavancas, transportadas para as neuroses e psicoses que aumentam na medida em que o mercado – conivente com mercúrio, o deus romano dos comerciantes, dos ladrões e, também, símbolo da instabilidade – se impõe, são transformadas em medo e euforia.
Estamos então diante de uma psicose que se denomina popularmente de ciclotimia. Mas que cientificamente se chama – segundo psicólogos – transtorno bipolar. No caso da ciclotimia, o psicótico vai, em pouco tempo, da depressão à euforia. E vice-versa. Como ocorre com o mercúrio, que muda conforme a temperatura, marcando-a.
Não conhece Economia quem não conhece Psicologia. Mas a recíproca igualmente é verdadeira. Quem anotou o atual momento da economia norte-americana – que Dean Acheson, nos anos cinquenta do século passado, chamou de locomotiva do mundo – foi o ex-presidente do FED, o Banco Central dos Estados Unidos, Alan Greenspan.
Ele afirmou ao Wall Street Journal: “a fase de expansão é bem diferente. E o medo como motivador – que é o que está acontecendo agora – é muito mais poderoso do que a euforia”.
Medo e euforia são marcas do transtorno bipolar. E da ciclotimia. Mas, quando se trata de mercado, revelam uma doença coletiva. Dos que atuam no mercado. exto

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