Classe A
Sabado, 5 de Janeiro 2008 - 19h27
Às vésperas dos 88 anos, Cônego Arnando Padovani- como é reconhecido e amorosamente chamado o Vigário Geral da Diocese de Ribeirão Preto- é um dos autores mais lidos na região. Tem tantos livros publicados que até perdeu a conta. Conheceu todos os bispos da cidade e ainda hoje reza missas, faz casamentos e ouve confissões. Com 64 anos de sacerdócio, é um “padre de família”, famoso por batizar gerações e acompanhar várias delas em muitas fases: o batismo, a crisma, o casamento e as missas - de ação de graças pela longevidade- ou de despedida. A isso tudo ele atribui o dom generoso que chama de “amor de Deus”.
Nicola Tornatore - O senhor está com quantos anos?
Cônego Arnaldo – Vou fazer 88 anos, nasci em 1919, em Santa Rita do Passa Quatro.
Rosana Zaidan - Terra do Zequinha de Abreu.
Cônego Arnaldo - É.
Rosana - O senhor conheceu o Zequinha?
Cônego Arnaldo - Não, ele já estava em São Paulo. Ele é mais velho.
Nicola - Existe uma particularidade que é o fato do senhor ter conhecido todos os bispos de Ribeirão Preto.
Cônego Arnaldo - É verdade, conheci todos os bispos.
Nicola - Eu fico abismado, pois o jornal A Cidade está publicando a coluna Há um Século, e em 1907 saiu o nome do Dom Alberto.
Cônego Arnaldo - Eu conheci ele depois. Tenho um papel aqui, rabiscado à mão, que tem o nome de todos eles. Dom Alberto eu conheci antes de ser padre. Ainda no seminário de São Paulo, pois não existia seminário por aqui. Só havia o Seminário Central de Filosofia e Teologia de São Paulo, todo o Brasil se reunia lá, então eu conheci Dom Alberto, aqui, em 1932. Depois, mais tarde, terminei o curso lá em São Paulo, minha ordenação foi aqui na Catedral, quem me ordenou foi o auxiliar dele, que era Dom Manuel da Silveira Delboux. Mas o Dom Alberto ainda era vivo, ele faleceu em 45, no dia 6 de maio, e eu fui ordenado padre em 43.
Rosana - Tenho uma curiosidade. O senhor é um dos padres que mais casou gente em Ribeirão.
Cônego Arnaldo - Provavelmente sim. Mais casamentos, não?
Rosana - O senhor tem idéia de quantos casais o senhor uniu?
Cônego Arnaldo - Quando eu completei 50 anos de padre, já faz 14 anos, de tanto me perguntarem eu fiz um levantamento nos livros de casamentos, são dois em cada página, são livros grandes, contei meu nome, naquela época o número ultrapassou dez mil casamentos.
Rosana - Hoje, então, muito mais.
Nicola - Isso há 14 anos?
Cônego Arnaldo - É, quando fiz 50 de padre. Mas depois eu fiz menos. O ritmo de casamentos de lá para cá foi diminuindo.
Rosana - Então, seguramente, o senhor já fez 15, 20 mil casamentos
Cônego Arnaldo - Se fosse contar casamentos, contar batizados, as missas que eu celebrei, pessoas que eu atendi, para enxugar lágrimas, não tem conta.
Rosana - Não tem como contar isso.
Cônego Arnaldo - Não.
Rosana - Milhares, talvez !
Cônego Arnaldo - É, muita gente. Às vezes me passa pela mente uma procissão imensa de pessoas que já estão no céu, que eu conheci, que eu convivi com esse povo, já todo falecido. Hoje vou celebrar uma missa para uma senhora que completou 95 anos, e eu conheço desde jovem.
Nicola - O senhor casou meu irmão e fez a missa de sétimo dia do meu irmão.
Cônego Arnaldo - Mas é muita gente que eu casei os pais, batizei os filhos, depois caseis os filhos, batizei os netos.
Rosana - E eles fazem questão de procurar o senhor para o casamento.
Cônego Arnaldo - É
Rosana - Talvez por isso mesmo.
Cônego Arnaldo - Por isso, já faço parte da família, da coletividade. Eu me considero assim, em Ribeirão Preto eu estou há tanto, tanto, tanto tempo e as pessoas me tratam com muito respeito e ao mesmo tempo com a maior afeição, como se eu fosse da família, que eu fosse um irmão, um tio, um avô, hoje, eles me tratam com liberdade, de chegar perto, conversar comigo.
Rosana - E o senhor vai almoçar com esses fiéis?
Cônego Arnaldo - Não, há muito tempo que eu não faço isso, essa vida social.
Rosana - Mas já fez muito?
Cônego Arnaldo - Quando eu era vigário da Catedral eu tinha até direito e interesse de estar em contato com o povo, agora, praticamente há muitos anos que eu estou mais isolado, mais longe do povo, e o povo também é outro, mudou não só o aspecto físico da cidade, como construção de avenidas e praças e prédios, como também a população. A população é outra, é outra geração, pessoas vindas de fora. Aquelas tradicionais famílias, todas muito conhecidas, muito amigas, foram se extinguindo. Há famílias cujo sobrenome nem existe mais, porque não há ninguém daquela família.
Nicola - Ribeirão é menos católica hoje?
Cônego Arnaldo - Aí é difícil medir. Eu sempre digo que não existe um instrumento que se chama ‘fermentímetro’, para medir quanto uma pessoa é fermento na massa. Jesus quer que nós sejamos fermento, luz e sal. Mas quanto você é sal neste mundo? Para dar sabor cristão à vida? Quanto que você é luz para clarear muita gente no caminho da verdade? E quanto que você é fermento para fazer essa massa crescer? Não tem aparelho para isso. Eu acho que é um pouco de leviandade dizer que antigamente tinha, hoje é assim. Cada época tem sua força dominante, tem sua fraqueza também. Tem suas virtudes e seus pecados, tem sombras e luzes, com o passar dos tempos.
Nicola - Qual a fraqueza que o senhor vê na geração atual?
Cônego Arnaldo - Há uma fraqueza, por exemplo, a juventude, no aspecto da juventude, a juventude hoje é vítima de droga, de um modo geral, não toda a juventude, há jovens excelentes, de vida cristã autêntica, moças e rapazes, de participação na missa, de comunhão, de estudo da religião, mas hoje tem uma coisa, uma força negativa, que atrapalha muito a alegria da juventude, era uma juventude alegre, expansiva, hoje é uma juventude vítima, eu penso, mais do que realizadora de uma esperança bonita.
Rosana - O senhor escreveu quantos livros?
Cônego Arnaldo - Uma porção, uns doze ou quinze.
Rosana - Todos de pensamentos, mensagens cristãs, poesias?
Cônego Arnaldo - Poesia praticamente eu não publiquei ainda, alguma poesia pra lá e pra cá, mas editar livro não. Mensagens, crônicas, o primeiro livro foi de crônicas, isso em 64, “Estou Pensando”, teve sucesso, foi uma beleza, eu não tinha nenhuma intenção nem prática para publicar livro. Deu tanto trabalho que pensei - essa vai ser a primeira e última -, mas como saiu logo, foi fácil o acolhimento do povo, eu fiquei animado e várias edições saíram desse primeiro livro. Esse aqui que eu tenho na mão, “Mensagens de Esperança”, entra numa história que a Paulus, que é uma grande editora, eu não sabia, não procurei, depois que meus primeiros livros foram saindo, eu editei por minha conta, não encontrei editora nenhuma que quisesse publicar - quem é o senhor? qual é o seu nome de escritor? -, então eu comecei a fazer como se faz com um convite. Você faz o convite e distribui para quem quiser, então eu mandei imprimir meus livros e fui vendendo. O primeiro livro, “Estou Pensando”, foi assim, 60 dias, 90 dias, 120 dias, quando completou 90 dias, ainda tinha um prazo a mais para pagar a terceira prestação, já tinha terminado, e eu mandei fazer três mil na primeira vez, e a editora, não que editou, que imprimiu, fez para que eu fizesse para dar como convite, para vender como eu quisesse, com prejuízo ou com lucro. Saiu um, saiu outro, saiu mais outro, a Paulus, a editora, me telefonou dizendo - olha, o senhor vai estar aí amanhã, eu vou fazer uma visita ao senhor -, eu disse - então venha almoçar comigo, pode vir -, eu não conhecia ninguém. Está na vigésima edição esse livro. E já está também nas Filipinas, na América do Sul, Argentina.
Rosana - Quer dizer que o senhor é um best seller?
Cônego Arnaldo - Eu li numa revista que quando um autor brasileiro chega à quinta edição, é best seller.
Rosana - O senhor chegou a conhecer algum papa?
Cônego Arnaldo - Papa eu conheci Pio XII, pessoalmente. Estive lá em 1947, logo depois da grande guerra. Pio XII, genial. Depois veio Paulo VI, João XXIII. Eu até fiz uma listinha aqui, estava pensando. Quando eu nasci era Bento XV. Ele ficou de 1914 a 1922, depois veio Pio XI, eu já estava, fui crismado, em 22, até 39, eu já estava estudando, já tinha feito grupo escolar, Pio XII, de 39 a 58, João XIII, de 58 a 63, Paulo VI, genial Paulo VI, de 63 a 78, João Paulo I que ficou apenas 33 dias como papa e o grande e saudoso João Paulo II, todos nós fomos contemporâneos dele, de 78 a 2006. E hoje, Bento XVI. Voltou lá, começou no Bento XV, agora Bento XVI. Oito papas.
Rosana - São quantos anos de sacerdócio?
Cônego Arnaldo - 64 anos feitos no dia 5 de dezembro.
Nicola - Mudando da água para o vinho, até para saber a opinião de uma pessoa experiente como o senhor. Como o senhor vê esse problema nos últimos anos, envolvendo padres.
Cônego Arnaldo - Eu nunca tinha ouvido falar a palavra pedofilia. Graças a Deus passei em brancas nuvens em todo o meu espaço de jovem e também lidando com coroinhas, nunca tive entusiasmo com coroinhas, mas alguns coroinhas houve na minha paróquia. Hoje, senhores que me admiram, que me respeitam, como tinham antes. Não tem nada de amizade especial. Agora hoje parece que aqui no Brasil, fora do Brasil, aparecem até com certa freqüência, casos de pedofilia. É triste, é lamentável isso. A gente entende, cada um está sujeito, como Santo Agostinho escreveu - não há pecado que uma pessoa faça, que qualquer pessoa não tenha condição de fazer também. Se eu quiser matar uma pessoa, poxa, se matou um também tem direito de matar alguém. Não é de se espantar com o pecado do outro, se você está sujeito ao mesmo pecado, em qualquer momento da vida.
Nicola - Alguns anos atrás, quando começou o flagelo da Aids, um jovem padre que atuava na periferia morreu de HIV aqui em Ribeirão, mas não se divulgou.
Cônego Arnaldo - No Quintino.
Nicola - Isso. E ele era jovem, era querido na comunidade, e na própria comunidade se divulgou pouca coisa, se divulgou que era leucemia.
Cônego Arnaldo - Eu nunca soube.
Nicola - Mas o senhor disse que ele era do Quintino.
Cônego Arnaldo - Eu soube que ele ficou doente, mas não sabia qual era a doença. Parece que foi leucemia, o que foi falado.
Nicola - O que se divulgou foi isso.
Cônego Arnaldo - Aliás, os padres, eu sempre respeitei muito. Nunca fiquei sabendo da vida deles. Acho que eles são criaturas humanas como outras quaisquer, mas tem suas qualidades, seus defeitos, agora isso é lamentável, ele teve uma doença, como para mim, falar em doença hoje, depois eles falam que a gente é preconceituoso. Não compete a mim. A ciência é que vai saber, se é, se não é. É um assunto de saúde.
Rosana - O senhor tem acompanhado os debates sobre uso de células tronco?
Cônego Arnaldo - A bioética, etc, né? A gente acompanha mas, você sabe de uma coisa, eu até tenho uma oração, que porventura estava até por aqui, a oração do idoso, porque a gente fica superado: “Senhor, ensina-me a envelhecer, convence-me que a comunidade não me ofende, se vai me exonerando das responsabilidades, se não me solicita mais a minha opinião, se já escolhe outros para ocupar o meu lugar -, tem que entender isso mesmo - despoja-me do apego à minha experiência, e despoja-me do pensamento de me julgar insubstituível, que eu saiba ver no desprendimento das coisas apenas a lei do tempo, que eu saiba ver nestas transferências de encargos, uma expressão da vida que se renova, sob o olhar de sua divina providência, faz senhor que eu ainda consiga ser útil nesta vida, contribuindo com o meu otimismo e a minha oração para alegria e a coragem de quem recebe a responsabilidade para o trabalho, que eu consiga manter o contato humilde e sereno com o mundo em transformação, que eu não lamente o passado, mas saiba fazer da minha vida um hino de gratidão à tua bondade, faz-me instrumento de tua esperança e de santificação para todos no meu dia-a-dia”.
Rosana - Pegando carona nessa oração linda que o senhor escreveu, o que o senhor transferiu nestes últimos tempos?
Cônego Arnaldo - Olha, eu tenho uma conclusão nesta minha vida de 64 anos de padre, que durante todo esse tempo eu aprendi muito. Eu não fui uma pessoa que ensinou, eu fui uma pessoa que aprendeu. Aprendi das crianças, aprendi dos jovens, aprendi dos idosos, dos casais, aprendi muito, e acredito que me valeu muito. Eu sempre amei Ribeirão Preto. Engraçado né? Eu nasci em Santa Rita do Passa Quatro, é minha cidade natal, sou membro da Academia Santaritense de Letras, eles me querem muito bem. Eu fui vigário lá por seis anos, de janeiro de 50 a dezembro de 56, depois o arcebispo Dom Mousinho me chamou para ser vigário da Catedral, eu fiquei na Catedral mais seis anos. Agora, em Ribeirão Preto eu sou também cidadão ribeirão-pretano, sou da Academia Ribeirãopretana de Letras, e me integro muito bem na sociedade, de modo que acho que, as pessoas, eu até admiro, pois às vezes não conheço todo mundo, não conheço quem vem me cumprimentar, mas cumprimento como quem é íntimo, mas por que vou me envaidecer? Eu estou aprendendo sempre, sempre, sempre, e continuo aprendendo, com o povo, com as pessoas, com quem eu convivo.
Rosana - O senhor ainda faz confissão?
Cônego Arnaldo - Tudo, confissão, faço batizado, celebração da missa, às vezes vou fazer Crisma, com a delegação do bispo. Crisma o padre pode fazer se o bispo delegar, porque é próprio do bispo crismar. É próprio do padre batizar, fazer casamento, etc. Mas ele pode delegar para Crisma e o nosso aqui delega com facilidade, o padre para fazer as Crismas, de modo que a gente faz tudo.
Rosana - Como era o nome de seu pai?
Cônego Arnaldo - Paulino Padovani. Faleceu com 92 anos. Mamãe é brasileira, filha de italianos. Rita Padovani. Paulino e Rita.
Rosana - Ele fazia o que?
Cônego Arnaldo - Ele veio da Itália criança, com os pais dele, meus bisavós. Trabalharam na roça. Eles vieram para cá para trabalhar na roça. E trabalhou na roça muito tempo. Foi inclusive capinador, foi plantador, colheu, foi administrador de fazenda, sempre em Santa Rita. Aí ele resolveu mudar para a cidade, comprou uma padaria e confeitaria com um cunhado. Um cuidado para não ter dívida, preocupação de pagar o quanto antes, e trabalhava ele e minha mãe, de noite, meus irmãos, nós somos em nove irmãos. Eu tenho quatro irmãos homens e quatro irmãs mulheres. Hoje eu só tenho uma irmã viva. Uma família muito unida, isso é muito bom, até para a educação, hoje tem um filho só, tem dois, tem só menina, só menino. Em casa tinha eu como o centro da coisa, que me interessa, de um lado tenho quatro mais novos, de outro, quatro mais velhos do que eu. Dos mais velhos que eu, uma mulher, dois homens e uma mulher. Dos mais novos do que eu, uma mulher, dois homens e uma mulher.
Nicola - Que simetria.
Cônego Arnaldo - Pois é. E eu nasci ao meio-dia, no dia 11 de abril de 1919. Mas então a educação de família foi muito boa. Dou como exemplo meus pais, meus irmãos todos muito religiosos, de oração, sem ser fanático, todos eles, convicção religiosa, participação de missa, comunhão, todos eles, os homens e as mulheres, e quando eu terminei o grupo escolar, sem ninguém ter me dito nada, eu quis ser padre. Eu não posso inventar uma história, eu quis ser padre. Não sei se foi influência da pregação do padre, que eu gostava de ouvir a pregação do padre, hoje eu gosto de falar para o povo, gosto mesmo, eu me delicio, não tenho medo de nenhum auditório, não é vaidade não, não tenho medo de auditório, eu gosto de falar com o povo, eu tenho o que transmitir, e então, acho que tenho obrigação de transmitir aquilo que tenho a dizer. Então eu quis ser padre, falei com meus pais, meus pais, pessoas humildes, foram falar com o padre, foram falar com o vigário. O vigário era um espanhol, monsenhor Manuel Viñeta, e não tinha seminário aqui, mas eu me lembro que eles vieram para Ribeirão falar com o bispo. Como não tinha seminário, o bispo de Ribeirão Preto tinha feito não sei que negócio com os padres de Batatais, aquele colégio São José, não sei se comprou ou se vendeu aquele colégio, então tinha uma pendência que os seminaristas da diocese de Ribeirão iriam estudar lá nesse seminário, até tal ano, tinha um limite de tempo, e eu fui estudar só um ano, depois acabou o prazo. Naquele tempo tinha admissão ao ginásio. E o ginásio era de cinco anos, mas era um ginásio que você aprendia, valia pelo científico, colegial. Vou dizer com toda humildade, eu acabei o ginásio, aí para São Paulo, o seminário central da Imaculada Conceição, lá no Ipiranga, tem até hoje, só que não é mais seminário, é a faculdade da Assunção. Nós fomos, eu fui, para a filosofia, no dia seguinte, sem nenhum prévio aviso, nós fizemos exame vestibular para filosofia. Sem nada de aviso. Só com o ginasial, cinco anos, e ali, um, que é de Minas, eu acho, que veio lá do Norte, veio gente de todo o Brasil, naquele primeiro ano de filosofia. O ensino dava fundamento, dava base, dava conhecimento, então eu fiz o exame. Na filosofia, por exemplo, na teologia também, havia dias só para estudar antes dos exames, parava a aula, então podia sair em turmas, para estudar juntos, e nós saíamos em turma para brincar, para conversar, nunca para estudar, pois não precisava.
Nicola - E o senhor hoje continua no cargo de vigário geral da paróquia?
Cônego Arnaldo - Sou vigário geral da diocese.
Rosana - O que é ser vigário geral da diocese?
Cônego Arnaldo - Pelo direito canônico, é um com o bispo. O vigário é um com o bispo. Então, o pensamento deles é um só.
Nicola - E o senhor está há quantos anos nesse cargo?
Cônego Arnaldo - Desde os tempos de Dom Arnaldo, meu xará.
Rosana - Quem é o santo de sua devoção? Ou os santos?
Cônego Arnaldo - Tem vários. De criança, mamãe chamava-se Rita, e nós acostumamos fazer na cidade, todos os anos, a festa da padroeira. O povo lá é devoto, porque nem sempre o povo é devoto de seu padroeiro. Pode ter devoção num santo, não no santo padroeiro.
Rosana - Ribeirão é um exemplo disso. São Sebastião não tem popularidade nenhuma.
Cônego Arnaldo - Quando eu fui vigário havia procissão de São Sebastião, tinha novena de São Sebastião e a igreja ficava cheia. Precisava promover também. Depois foi parando, foi relaxando, foi deixando de fazer novena, hoje o povo nem sabe mais quem é o padroeiro, pois muita gente veio de fora. Não entrou no ritmo. Mas eu tenho Santa Rita de Cássia, que é uma devoção de crian ça ainda, continuo firme. Tenho Nossa Senhora em primeiro lugar, Nossa Senhora com qualquer título. Nossa Senhora é a mãe de Jesus, mãe de Deus, sou devoto dela, São José, eu gosto também de São Benedito, Santo Antônio, São Sebastião, eu tenho uma coleção. Santo Agostinho. Ele é um doutor da igreja, sob a graça de Deus, mas eu estou contente com minhas devoções, de maneira simples, continuo aprendendo com o meu povo. Eu fiquei durante 26 anos trabalhando em cursilhos. Este é o pormenor. Cursilho é quatro dias de curso, quinta, sexta, sábado e domingo, ou quarta, de noite, quinta, sexta e sábado, para homens e para mulheres. Aí, o número não importa, eu participei, nesses 26 anos, de mais de mil cursilhos, mais de mil cursos. Não só em Ribeirão Preto, mas aqui na região. Em Uberaba, os primeiros, Uberlândia, Araxá, e lá em Goiás, em Itumbiara. Eu viajava sozinho.
Rosana - Ia de ônibus?
Cônego Arnaldo - Ia guiando o meu carro. Não tinha remuneração nenhuma. Eram três dias muito puxados, muito intensos, então eu ficava um pouco ausente de Ribeirão. Fim de semana eu estava lá no cursilho.
Rosana - Eu me lembro, quando eu era jovem, teve uma fase que os cursilhos era praticamente até uma saída para as famílias, quando o jovem tinha muito problema, daí mandava para o cursilho.
Cônego Arnaldo - Aí eram os encontros de jovens. Havia também o TLC, Treinamento de Lideranças Cristãs.
Rosana - Falava-se que esses jovens voltavam de cabeça virada, convertidos.
Cônego Arnaldo - O cursilho fazia para adultos, praticamente. O cursilho era um método próprio. Agora mudou muito. O método próprio que colocava a pessoa a pensar na vida, sem pessimismo, pensar na vida, a situação em que você se encontra, como filho de Deus, como cristão que você é, a favor ou contra o seu comportamento, e fazia o primeiro dia, o segundo dia já era um passo para a frente, terceiro dia era o auge, aí todo mundo estava feliz, já queria ir para o céu. Todo mundo quer ir para o céu, mas ninguém tem pressa.
Rosana - O senhor também não tem pressa.
Cônego Arnaldo - Não, também não tenho.
Nicola - Para o bispo tem aquela questão do compulsório, dos 75 anos, para vigário não existe isso?
Cônego Arnaldo - Existe, sabe que eu já passei antes da lei chegar. Aqui tem outro, padre Romano, um grande homem, e tem mais outros dois aí que já passaram, antes da lei. Mas nas dioceses por aí, onde o padre faz 75, eles são considerados eméritos. Agora, nosso arcebispo Dom Joviano, que é uma pessoa que eu admiro, que conheci nesse período todo, ele é um homem muito compreensivo. Ele diz que você só tem direitos, não tem obrigações, se você não estiver com disposição, está dispensado de freqüentar reunião, essas coisas.
Rosana - Qual o segredo dessa saúde toda?
Cônego Arnaldo – A saúde é dom de Deus, é um presente de Deus, gratuito.
Olha o texto de quando eu fiz 50 anos de sacerdócio: “o alvorecer de cada dia me trouxe uma nova esperança, a esperança fez crescer em mim o amor, tornando a vida cada dia sempre mais bela e cheia de paz. Depois, quando eu fiz 60 - em minha vida, o que fiz foi nada sem a graça de Deus; com a graça de Deus, tudo o que eu fiz foi simplesmente o que eu devia ter feito, nem podia ter feito menos diante de tudo o que o povo merecia, que a graça de Deus me permitiu fazer. Aí, no ano passado - Pai Nosso que estais no céu, agradeço pelos meus familiares e amigos, presença de vossa ternura em minha vida. Agora um pensamento que ficou, muita gente sabe até de cor - quanto mais gente a gente ama, mais gente a gente é.
Rosana - Esse é sensacional.
Cônego Arnaldo - Para provar que isso é muito fácil. Deus é amor, o amor é amável, nós somos feitos à imagem e semelhança de Deus, quanto mais gente a gente ama, mais gente a gente é, porque a gente é mais imagem e semelhança de Deus, porque é próprio do amor, amar, é próprio de Deus amar. Agora, continuação - quanto mais gente ama a gente, mais gente a gente se sente, porque a gente se sente mais e mais a imagem de Deus, a gente sente mais amor.