Vicente Golfeto
Terça-Feira, 8 de Janeiro 2008 - 23h23 Vivemos a sociedade do espetáculo. É por isso que um craque de futebol ganha muito mais do que um craque da Medicina, da Física e de outras áreas do conhecimento humano.
Futebol, escola-de-samba – ícones do espetáculo - colocam os seus agentes na mídia, valorizando-os em termos financeiros. “Ser é ser notado”, dizia o bispo de Berkeley.
No passado, houve ligações de escolas de samba e mesmo do futebol com a delinqüência. Não era com o crime organizado porque o país somente recentemente passou a enfrentar o crime como multinacional. A ligação era com o jogo do bicho. E isto arrastou-se por todo século 20. Ou alguém já se esqueceu de que o Bangu A. C. – para ficarmos apenas em um exemplo – foi campeão carioca de futebol em 1966 e vice-campeão brasileiro em 1985, então presidido por Castor de Andrade, chefe do jogo do bicho no Rio de Janeiro? E escolas de samba – nem todas, claro – são ou não financiadas pelo jogo do bicho? Junto com o jogo, atualmente, o tráfico de drogas, o tráfico de armas.
A máfia siciliana – matriz da Cosa Nostra – já mostrava a preferência do crime organizado em ter ligações com segmentos de diversão. Bebidas – durante a lei seca, nos Estados Unidos – prostituição e jogatina também atualmente, sempre foram territórios cobiçados pelo crime organizado.
Não estou defendendo a ligação. Pelo contrário. O que não se pode entender é o espanto que demonstram alguns segmentos da mídia. É certo que jornalismo é registro de anomalias. E uma das anomalias é a ligação do crime com ícones do espetáculo. Mas nada de novidade.
Por que será que o jogador ganha bicho quando seu clube vence? Por que não é cachê?
De maneira que é preciso saber que estamos em tempos de competição mais aguda, de mercado, de exposição à mídia. Nestes tempos – com muitos protestos, é verdade – os valores são sepultados. Entroniza-se o preço. Por isto, a vigilância deve ser maior.