Jornal A CIDADE

Vicente Golfeto

Quarta-Feira, 9 de Janeiro 2008 - 22h59

Descompasso


Dados da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (Pnad), combinados com informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados – o Caged – mostram que o rendimento médio do trabalhador brasileiro do setor privado da produção, no primeiro semestre de 2007, chegou a R$ 883,00 mensais. É muito pequeno perto do rendimento médio – não dizemos salário porque no contracheque vê-se muitos itens além do salário – do trabalhador do setor estatal, aí incluídos os três poderes e os três níveis de governo.
Esta remuneração supera – em termos médios – R$ 2 800,00 por mês. Mais de três vezes, portanto, do rendimento do assalariado do setor privado.
Este descompasso, que se acentua, depois de produzir uma conseqüência altamente negativa – a de ter extraído do setor privado, que produz, excelentes talentos – agora produz outra. Mais deletéria ou tão deletéria quanto, na opinião de alguns analistas. Mas muito positiva, no conceito de outros. Referimo-nos aos trabalhadores assalariados de empresas privadas que têm vocação empreendedora. Eles – por terem talento para tanto – não raro durante o trabalho formal, exercitam atividade informal. Vendem produtos que eles manufaturam ou que compram de terceiros.
Quando manufaturam, são industriais. Quando vendem o que compram, são comerciantes. Demonstram capacidade empreendedora no exercício da qual, segundo muitos, recebem remuneração, ganham muito mais, do que recebem como empregados formalmente registrados.
Aparece o talento empreendedor que faz, no mundo – nuns países mais, noutros menos – uma revolução tão importante no presente quanto foi, no passado, a revolução industrial.
Depois de perder empregados para o setor estatal, que não produz, a empresa formal começa a perder empregados de bom nível. Que nada mais são do que empreendedores com carteira assinada.
Hegel insistia que “o caminho do espírito é o desvio.”

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