Jornal A CIDADE

Júlio Chiavenato

Sexta-Feira, 11 de Janeiro 2008 - 23h45

Perdas históricas


A cada casarão ameaçado em Ribeirão Preto reaparece o lamento: estamos perdendo o patrimônio histórico. Porém, o que havia de mais importante já foi perdido, com a indiferença de quase todos e a cumplicidade daqueles que deveriam preservá-lo.
Por exemplo, os documentos que até a década de 1980 estavam no Museu do Café. Em uma sala do porão (se não me engano, a no 15) folheei e li inúmeros borradores manuscritos e atas, sobre diversos aspectos da história política e fiscal de Ribeirão Preto, misturados a quadros velhos, móveis antigos e medalhas honoríficas. A sala ficava fechada com cadeado e um funcionário não deixava ninguém entrar.
Só com a interferência do Antônio Palloci, pai, e com a ordem do então prefeito Duarte Nogueira, consegui acesso àquele porão. Freqüentei-o por meses, para desespero de um desses guardiões da história oficial. De repente, ficou impossível: alguém jogou veneno na sala, tornando-a inabitável.
Quando voltei, meses depois, ainda por diligência do Palloci pai, a maioria dos documentos sumira. Entre eles alguns interessantes: junto às partituras do Cassino Antarctica (algumas reproduzidas no meu livro Coronéis e carcamanos), revistas das “francesas” (e várias cartas vindas da Bélgica e da Polônia) estava a cópia fotostática da exumação do duque de Caxias e sua mulher. Era um homem pequeno, uma perna menor que a outra e morreu sem nenhum dente na boca.
Além dessas perdas, o Cemitério da Saudade, talvez o nosso mais significativo monumento histórico e cultural, embora de relativa ou nenhuma importância artística, está mutilado, descaracterizado e em ruínas pintadas ingenuamente como se fossem restauradas. O que restou vai desabar.

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