Vicente Golfeto
Sabado, 12 de Janeiro 2008 - 17h52 Sommerset Maugham nos dá um soco na boca-do-estômago quando diz: “o amor é um sentimento que só pode existir entre duas pessoas que não se conhecem bem”. Vale dizer: o amor é feito de ignorância, que seria sua matéria prima. Em outras palavras, quanto mais duas pessoas se conhecem, menos se amam. Até o amor terminar ou desaparecer por completo. Antes de desaparecer, fica pequeno. Como pouco amor não é amor, segue-se que, no momento em que principia a desaparecer, já desapareceu por completo. Não fosse assim, Santo Agostinho não teria dito que “o limite do amor é que não pode haver limite no amor”.
Mas, se você perguntar para muitas pessoas se não é verdade que o aprofundamento do conhecimento recíproco vai matando o que existe de amor, você vai ver que a maioria diz que sim. Quanto mais se conhecem, menos se amam. Exatamente como dizia Millôr Fernandes: “como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem”. Esta síntese é um pouco menos radical. Afinal, o conhecimento recíproco mata a admiração recíproca. Em outras palavras: só se admira a pessoa que não se conhece profundamente. O conhecimento tem que ser superficial para ser duradouro. Ele proporcionará sempre um inventário de decepções.
Aí estaria a explicação para as amizades que duram e perduram. A distância física não provoca atritos. E preserva a amizade. E até o amor. A proximidade gera problemas. Não é por acaso que a doutrina cristã nos manda amar o próximo. É que em relação ao distante o sentimento que predomina é o da indiferença. À medida que a Sociologia vai sendo substituída pela Antropologia Social, à medida em que o social vai sendo sepultado pelo individualismo, a distância tende a preservar o amor, a amizade. Mas entroniza com primazia a indiferença. Que não é ódio. E este é o pecado que a parábola do bom samaritano nos indica ser o maior de todos. Estamos falando do desamor.